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domingo, 24 de janeiro de 2010

poesia simbolista, sátira de costumes

Poesia simbolista e sátira de costumes. Paul Valéry e Evelyn Waugh. Tom Wolfe e Rainer Maria Rilke. Como eu gosto, como eu gosto. Gosto tanto, e de forma tão igual, dessas coisas tão diferentes e por que não dizer opostas que já cheguei a duvidar se o algum amor que eu tenha pelos dois é mesmo tão verdadeiro. Medo daquela espécie de gosto eclético que significa não ter gosto nenhum.

Mas filosofia do Oriente está aí mesmo para nos livrar de contradições embaraçosas, e desde que o primeiro ocidental leu o primeiro verso do Tao-Te-King, pronto, a vida se tornou tão mais fácil, ninguém mais se enforca porque não sabe se prefere Toddy ou Ovomaltine. Tudo é complementar, tudo está em harmonia. (Menos Quick de morango com sustagem de baunilha, isso eu posso dizer, que eu provei uma vez aos nove anos.)

Quanto a mim, que não resisto aos confortos da minha época, soube usar convenientemente minha sabedoria chinesa de lojinha esotérica e perceber o Yin e o Yang nos autores de que eu gosto. Porque o sujeito está no início da segunda Elegia de Duíno, todo sublime, imaginando ver o Anjo terrível – e os “recintos de essência”, e o “pólen da divindade”, e “os cimos alvorescentes de toda a criação” – , de repente ele olha para o lado e voilà, a única visão terrível, e nada angelical, que ele tem é a de uma mulher de chinelo plataforma, uma pintura abstrata de consultório médico, uma mãe gordota estapeando o filho mal-criado. E isso todo dia, toda hora, no ônibus e na agência de banco, nos blogs e nas fofocas de família. Daí a necessidade de ler, de escrever (às vezes só saber que existe já basta) um romance satírico. “Voir les choses en farce est le seul moyen de ne pas les voir en noir”, Flaubert escreveu mais ou menos isso a Louise Colet.

(Por isso, aliás, Flaubert tinha aquelas lindas visões de luxo e de perversão, de sacerdotisas estelares, castas e inflexíveis, de santos tentados por aparições demoníacas às bordas do Nilo, mas só foi realmente grande com Madame Bovary, com Éducation sentimentale. Acabou por descrever tão melhor gente absolutamente comum quanto mais vivamente imaginou princesas asiáticas, romanos decadentes e glutões.)

Mas não acredito que a influência seja só da poesia idealista para a sátira de costumes. Não é só o élan de ideal que, frustrado, gera na criatura a vontade de rir das coisas mais ridículas, mais lamentáveis, mais banais do cotidiano. A sátira faz lembrar que ela também participa dessas coisas ridículas e lamentáveis e banais – coisas que acontecem quase sempre quando duas ou mais pessoas se reúnem para fazer qualquer coisa, de palestras a igrejas, de recitais a reuniões de condomínio. Que ler Mallarmé e Rilke e Wallace Stevens não nos redime e não nos protege de baixeza alguma, no melhor dos casos nos faz é vê-las melhor em si. Que, em suma, o poeta sublime pode ser uma ótima personagem de romance sátirico, tão boa quanto a senhora de chinelo plataforma, basta ele não pôr em dúvida a crença de que é um.

Sátira social talvez seja isso, um bom garde-fou, uma medida saudável para evitar que ajamos como o protagonista de Assado Satânico do Fassbinder: um funcionário público que se maquiava, vestia casaca e algibeira e lia poesia simbolista para garotos de programa sonolentos acreditando que era a reencarnação de Stephen Georg.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

my own private regency dandy

Monte já o seu.

terça-feira, 24 de março de 2009

alive and well

Volto do meu exílio no Congo Belga onde fui fazer fortuna traficando armas e escravas brancas só para aparecer nas atualizações do Apostos e incomodar os meus companheiros tirando o post deles mais rápido da página principal.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

vecchiarella

Estava revendo ontem “8/12″ e me apaixonei de novo por Anouk Aimée. Acho que tenho bom gosto para mulheres. O que pode levantar comentários, claro.
anouk aimée 5.jpg
Daí fiquei com curiosidade de saber como ela está agora, vecchiarella. Não me decepcionei. Essas atrizes francesas ou italianas da década de 50/60 na maioria não perderam ao envelhecer muito da beleza original. Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, a própria Anouk Aimée – nenhuma chegou no nível de bizarrice de uma Bette Davis, nem na decadência meio deprimente de Marlene Dietrich nos últimos anos.
Me pergunto se não é um pouco porque essas atrizes, mesmo na época, já tinham esse charme de mulher angustiada, de mulher infeliz no casamento ou algo assim. Não lembro de um papel de Jeanne Moreau em que ela não quisesse em algum ponto se separar do marido. Catherine Deneuve também – “Belle de Jour” springs to my mind. E Anouk Aimée fez boa parte da carreira tendo casos fracassados ou se divorciando do Marcello Mastroianni (em “La Dolce Vita” e “8 1/2″; exceção: “Un Homme et Une Femme”). Isso, claro, só veio a favorecer a imagem delas na velhice. Infelicidade no casamento é um dos fundamentos mais seguros para uma mulher basear seu charme: é uma das poucas coisas que provavelmente vão acompanhá-la a vida inteira. A carne até pode decair, mas esse encanto se mantém.
(Acho que a mesma coisa acontece com cantores de música pop. A dignidade na velhice deles diminui em proporção direta com a quantidade de dancinhas/caretas que eles faziam quando jovens. É por isso que jornalistas vivem dizendo que Mick Jagger está ridículo aos 60 e que Iggy Pop parece uma boneca de palha, enquanto David Bowie e Lou Reed podem até andar meio caídos, mas ridículos eles não estão.)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

plaisirs d’occasion

Hier, c’était l’hiver; voilà qu’il vient, l’automne…
Au vent gris les saisons, sans cesse, tour à tour,
Se changent l’une en l’autre en vain dès que le jour
Se lève et endort le monde et tous les clochers sonnent…
Dans les coins des faubours, plus de train, plus personne.
Chez soi, on chante on danse aux coups d’un grand tambour
Qui annonce aux nouveau-nés: la mort est de retour,
Ce vieux copain um peu ringard et monotone.
Mais nous, nous deux ici, fermés dans notre chambre:
Velours d’occasion, quelques faux bijoux d’ambre
Et nos contours dormants sur les rideaux violets;
Si beaux, si passagers, comme deux chrysanthèmes,
Nous oublions le monde – ah, je t’aime, tu m’aimes! –
Certains qu’il nous attend par-delà ces volets.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

roxo com vermelho e a existência

Esses dias vi um filósofo existencialista explicando a diferença entre contingente e necessário, dizendo que usar roupas na nossa sociedade é necessário, mas se vai ser verde com cinza ou azul com amarelo, isso é contingente, e que se você vai à padaria, necessário mesmo é fazer com que o padeiro te dê pão, mas se você vai conseguir isso indicando o pão com sons guturais ou pedindo por favor, isso é o contingente. Claro que ele estava de roxo com vermelho e que provavelmente não devia ser lá muito educado com padeiros.
Mas, sem querer, acho que ele deu uma boa definição daquilo que Boileau e a propaganda do Iguatemi chamam de “o estilo”. Porque o estilo é exatamente o que ele explicou, só que ao contrário: o contingente transformado em necessário. Uma criatura só faz algo “com estilo” quando sente a força da necessidade em todos os detalhes, e sente com tanto que se recusa a escrever “sotoposto” ou a sair para a rua de roxo com vermelho. É isso que nós identificamos quando lemos um grande verso, uma grande frase. Dentre as várias maneiras de dizer a mesma coisa, só uma naquela hora tinha de ser. Sorte é que foi aquela.
Sempre aparece alguém com alguma nova idéia brilhante para completar a frase “O homem é o único animal__________”. Alguns vão te dizer “político”; outros, “racional”, “da linguagem”, “que se sabe no tempo”, “que come Polenguinho”. Eu diria: “O homem é o único animal capaz de estilo”. Segundo o narrador do Animal Planet, poucas coisas são tão bonitas quanto um guepardo no momento em que ele vai avançar sobre a presa. Mas trezentos guepardos avançando sobre a presa são trezentos guepardos avançando sobre a presa da mesma maneira (daí a monotonia daqueles documentários sobre bichinhos). Já trezentos homens avançando sobre a presa seriam trezentos homens avançando cada um de jeito: uns agarrariam ela direto pelo pescoço, outros ficariam só em volta, lendo Drummond até ela pegar no sono. Tem ainda os que acabariam eles mesmos presa da gazela indefesa, os que no caminho tropeçariam num arbusto. De ser definido pelo contingente ninguém escapa, para preocupação do filósofo existencialista que eu vi esses dias de roxo e vermelho.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

la dolce vita

Nenhum dos meus artistas preferidos teve uma vida interessante. Fiquei aliviado em saber. De Watteau nenhum escândalo, nenhum crime bárbaro. Proust e Waugh até tiveram juventudes mundanas, mas logo foram para o quarto escrever. O mesmo com Valéry, o mesmo com Debussy. Segundo a minha lista dos melhores, quanto mais interessante é a vida, menos o sujeito tem o que dizer.
Me surpreende como pouca gente tem a mesma opinião. Todo mundo elogia Hemingway porque ele caçava tigres e trata Pollock como herói por causa do alcoolismo, mesmo que Hemingway seja superficial e que boa parte do que Pollock pintou tente ser lírico e não passe de decorativo. Talvez isso aconteça por causa dessa obsessão pela biografia dos artistas a que as pessoas sucumbiram no século XX – e que, junto com comunismo, jeans com camiseta e outras banalidades, não está com cara de desaparecer no XXI. Mas pode ser também que a idéia das pessoas sobre o que seja uma vida interessante esteja simplesmente errada. Quando me dizem que alguém teve uma vida interessante, logo sei que a criatura ou freqüentava festas na Riviera ou saía com celebridades ou se drogava até babar na camisa ou sofria de alguma doença mental ou (melhor ainda) tinha taras sexuais aberrantes – se preencher mais de duas das condições acima, ou é o Fitzgerald ou o Serguei.
Me parece que uma vida interessante nesses termos até pode dar conteúdo para um romance, só que se não houver uma sensibilidade certa para perceber as nuances morais da orgia ou do suicídio, o romance será algo como um Bukowski nos piores momentos. O problema é que geralmente os que têm essa sensibilidade são os caras que ficam de pantufa sábado à noite. Não nego que os garotos de programa tenham sido importantes como tema para “À la Recherche du Temps Perdu”. Mas Proust só conseguiu transformar a visita ao prostíbulo masculino num dos episódios mais estranhamente bonitos do livro porque tinha uma sensibilidade treinada por horas de ascese estética solitária e nada glamourosa, coisas tipo ficar olhando fixamente para uma xícara ou um prendedor de roupa.
Meu artista ideal seria alguém que perderia muito tempo com esses exercícios meio inúteis, meio sem sentido. Seriam a rodinha na gaiola do hamster para a sua sensibilidade. O que não daria muita fofoca, é claro. Para mim, quanto melhor é a obra, mais chata a biografia.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Alair Gomes na Usina o Gasômetro. Acho curioso que ele – assim como Mapplethorpe e outros fotógrafos gays – não conseguia tirar fotos de gente, só de curvas e contra-curvas em corpos harmoniosos de gente. Uma forma de apreender a beleza mais pelo padrão do que pela especificidade: tem peito quadrado, as linhas da virilha marcadas, os gominhos da barriga fazem sombra, pronto, fotografa. Divertido de assistir, talvez mais ainda de fazer. Mas alguém como Cartier-Bresson, que não era obcecado por padrão corporal nenhum, conseguia extrair beleza até de uma fábrica de rolamentos na União Soviética. Já a maioria das fotos de Alair Gomes podia ter como título “Jogo de sombra numa pélvis no.3″ ou “Curvas e contra-curvas sobre tórax peludo”.

terça-feira, 27 de maio de 2008

hora de falar mal do teatro

Édipo-Rei no São Pedro. Édipo fantasiado de Daryl Hannah em Blade Runner. Trilha sonora: Rolling Stones. O diretor se explica: “Estava estudando o texto quando, de repente, fiquei tão revoltado que chamei os deuses gregos de diabos. Imediatamente, me apareceu na mente o Mick Jagger. Ele é ao mesmo tempo profano e sagrado.”
Desta vez eu fico no foyer comendo capeletes.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Escuta, o que são essas bichas que saem de noite com manta de palestino? De onde elas vêm? O que elas querem? São bichas-bomba? Chega uma hora em que elas vão cada uma para um canto e se explodem no meio dos indies?