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<title>Chá das Cinco</title>
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<tagline>E QUANDO FOR PEGAR A XÍCARA, JAMAIS LEVANTAR O MINDINHO</tagline>
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<copyright>Copyright (c) 2008, Rodrigo de Lemos</copyright>
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<title>arte adolescente</title>
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<![CDATA[<p>Gosto de adolescente por pintura se resume a surrealismo e a alguns expressionistas. Pelo menos é o que lembro de alguns colegas de segundo grau um pouco mais arty. Ao contrário de arte abstracionista, e como arte clássica, surrealismo e expressionismo dá para entender, tem figurinha. Mas ao contrário de arte clássica, e como arte abstracionista, surrealismo e expressionismo têm também aquele toque de transgressão que todo adolescente - sobretudo se for arty - tem de adorar. Isso sem falar da angústia em Munch ou James Ensor, tão apropriada numa idade em que as pessoas passam noites ouvindo The Killers, e daquela gente cheia de pena de avestruz que Max Ernst pintava e que serve à merveille para adolescente fazer o julgamento mais elogioso de que é capaz ("Que viagem!") e seguir virando sem prestar muita atenção as páginas no catálogo da Taschen. </p>

<p>Passei os últimos dias em Buenos Aires - até por isso que não venho escrevendo - e, depois de uns cinco anos, voltei ao Museu de Belas Artes. Constatei com felicidade que o pouco que ainda havia de adolescente no meu coraçãozinho arty foi finalmente cauterizado. Ok, nem tanto - eu ainda gosto de Modigliani pelo talento individual e pelo charme da coisa. Mas a parte da arte moderna foi a mais tediosa da visita. A impressão que tive era de que quem viu um Modigliani viu todos os Modigliani, quem viu um Kandinsky viu todos os Kandinsky. Picasso, Morandi, tudo isso se reconhece de longe. Pela primeira vez, arte moderna me pareceu repetitiva, quase simplória. E me veio à cabeça uma frase que li num desses blogs portugueses, acho que o Estado Civil: "se parece um Mondrian então é um Mondrian".</p>

<p>Suspeito que o motivo para a arte moderna ser tão mais estereotipada individualmente do que a arte clássica (e arte clássica para mim aqui é qualquer coisa antes do impressionismo) é exatamente aquilo que faz a arte moderna, moderna e a arte clássica, clássica. Quando havia convenções de tema e de forma, o estilo individual tinha de achar uma brecha nesses temas e nessas formas escolhidas de fora, coletivamente, e acabava por aparecer de forma mais sutil. Daí ser mais difícil para um não-connoisseur dizer um Rafael de um Andrea del Sarto do que um Van Gogh de um Munch. Já quando essas convenções erodiram e os pintores se acreditaram livres, foi normal que a individualidade não encontrasse mais escolhas pré-determinadas com que se chocar e ansiasse por brilhar por inteiro, sem mais entraves. Mas ao invés de desenvolver um estilo, o que a sensibilidade individual finalmente liberada fez foi reproduzir ao infinito algumas obsessões. Quando essas obsessões mudaram ao longo da vida do pintor, tivemos essas fases diferentes de um mesmo artista: fase azul, fase cubista de Picasso; fases mais ou menos geométricas de Kandinsky. E quando essas obsessões não mudaram, a estereotipia foi ainda maior: Modigliani. O que a arte moderna fez foi substituir as convenções coletivas por certos tiques pessoais dos artistas. De maneira que conhecendo um pouco dos tiques e um pouco da técnica dos mestres modernistas, o sujeito já conhece os mestres modernistas. Não precisa nem ver. Daí eu não levar muito a sério quando dizem que arte moderna "é mais difícil" do que arte clássica. É a arte clássica a mais difícil como arte; arte moderna só é mais difícil enquanto representação. </p>

<p>   <br />
</p>]]>

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<title>vecchiarella</title>
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<issued>2008-07-03T13:56:27Z</issued>
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<summary type="text/plain">Anouk Aimée</summary>
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<name>Rodrigo de Lemos</name>
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<![CDATA[<p>Estava revendo ontem "8/12" e me apaixonei de novo por Anouk Aimée. Acho que tenho bom gosto para mulheres. O que pode levantar comentários, claro.</p>

<p><img alt="anouk aimée 5.jpg" src="http://rodrigodelemos.apostos.com//archives/anouk%20aim%C3%A9e%205.jpg" width="400" height="220" /></p>

<p>Daí fiquei com curiosidade de saber como ela está agora, <a href="http://www.berlinale.de/media/archiv/boulevard/53_berlinale/13.2.2004/hommage/Aimee_1.jpg">vecchiarella</a>. Não me decepcionei. Essas atrizes francesas ou italianas da década de 50/60 na maioria não perderam ao envelhecer muito da beleza original. Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, a própria Anouk Aimée - nenhuma chegou no nível de bizarrice de uma Bette Davis, nem na decadência meio deprimente de Marlene Dietrich nos últimos anos. </p>

<p>Me pergunto se não é um pouco porque essas atrizes, mesmo na época, já tinham esse charme de mulher angustiada, de mulher infeliz no casamento ou algo assim. Não lembro de um papel de Jeanne Moreau em que ela não quisesse em algum ponto se separar do marido. Catherine Deneuve também - "Belle de Jour" springs to my mind. E Anouk Aimée fez boa parte da carreira tendo casos fracassados ou se divorciando do Marcello Mastroianni (em "La Dolce Vita" e "8 1/2"; exceção: "Un Homme et Une Femme"). Isso, claro, só veio a favorecer a imagem delas na velhice. Infelicidade no casamento é um dos fundamentos mais seguros para uma mulher basear seu charme: é uma das poucas coisas que provavelmente vão acompanhá-la a vida inteira. A carne até pode decair, mas esse encanto se mantém.</p>

<p>(Acho que a mesma coisa acontece com cantores de música pop. A dignidade na velhice deles diminui em proporção direta com a quantidade de dancinhas/caretas que eles faziam quando jovens. É por isso que jornalistas vivem dizendo que Mick Jagger está ridículo aos 60 e que Iggy Pop parece uma boneca de palha, enquanto David Bowie e Lou Reed podem até andar meio caídos, mas <em>ridículos</em> eles não estão.)  </p>

<p></p>

<p>        </p>]]>

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<title>plaisirs d&apos;occasion</title>
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<modified>2008-07-01T22:51:01Z</modified>
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<summary type="text/plain">Resolvi fazer carinha de decadente e escrever isto aqui..</summary>
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<name>Rodrigo de Lemos</name>
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<![CDATA[<p><em>Hier, c’était l’hiver; voilà qu’il vient, l’automne...<br />
Au vent gris les saisons, sans cesse, tour à tour,<br />
Se changent l’une en l’autre en vain dès que le jour<br />
Se lève et endort le monde et tous les clochers sonnent...</p>

<p>Dans les coins des faubours, plus de train, plus personne.<br />
Chez soi, on chante on danse aux coups d’un grand tambour<br />
Qui annonce aux nouveau-nés: la mort est de retour,<br />
Ce vieux copain um peu ringard et monotone.</p>

<p>Mais nous, nous deux ici, fermés dans notre chambre:<br />
Velours d’occasion, quelques faux bijoux d’ambre<br />
Et nos contours dormants sur les rideaux violets;</p>

<p>Si beaux, si passagers, comme deux chrysanthèmes,<br />
Nous oublions le monde – ah, je t’aime, tu m’aimes! –<br />
Certains qu’il nous attend par-delà ces volets.   </em></p>]]>

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<title>roxo com vermelho e a existência</title>
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<modified>2008-06-09T17:40:35Z</modified>
<issued>2008-06-09T17:03:34Z</issued>
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<summary type="text/plain">Esses dias vi um filósofo existencialista explicando a diferença entre contingente e necessário, dizendo que usar roupas na nossa sociedade é necessário, mas se vai ser verde com cinza ou azul com amarelo, isso é contingente, e que se você...</summary>
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<![CDATA[<p>Esses dias vi um filósofo existencialista explicando a diferença entre contingente e necessário, dizendo que usar roupas na nossa sociedade é necessário, mas se vai ser verde com cinza ou azul com amarelo, isso é contingente, e que se você vai à padaria, necessário mesmo é fazer com que o padeiro te dê pão, mas se você vai conseguir isso indicando o pão com sons guturais ou pedindo por favor, isso é o contingente. Claro que ele estava de roxo com vermelho e que provavelmente não devia ser lá muito educado com padeiros.</p>

<p>Mas, sem querer, acho que ele deu uma boa definição daquilo que Boileau e a propaganda do Iguatemi chamam de "o estilo". Porque o estilo é exatamente o que ele explicou, só que ao contrário: o contingente transformado em necessário. Uma criatura só faz algo "com estilo" quando sente a força da necessidade em todos os detalhes, e sente com tanto que se recusa a escrever "sotoposto" ou a sair para a rua de roxo com vermelho. É isso que nós identificamos quando lemos um grande verso, uma grande frase. Dentre as várias maneiras de dizer a mesma coisa, só uma naquela hora tinha de ser. Sorte é que foi aquela.</p>

<p>Sempre aparece alguém com alguma nova idéia brilhante para completar a frase "O homem é o único animal__________". Alguns vão te dizer "político"; outros, "racional", "da linguagem", "que se sabe no tempo", "que come Polenguinho". Eu diria: "O homem é o único animal capaz de estilo". Segundo o narrador do Animal Planet, poucas coisas são tão bonitas quanto um guepardo no momento em que ele vai avançar sobre a presa. Mas trezentos guepardos avançando sobre a presa são trezentos guepardos avançando sobre a presa da mesma maneira (daí a monotonia daqueles documentários sobre bichinhos). Já trezentos homens avançando sobre a presa seriam trezentos homens avançando cada um de jeito: uns agarrariam ela direto pelo pescoço, outros ficariam só em volta, lendo Drummond até ela pegar no sono. Tem ainda os que acabariam eles mesmos presa da gazela indefesa, os que no caminho tropeçariam num arbusto. De ser definido pelo contingente ninguém escapa, para preocupação do filósofo existencialista que eu vi esses dias de roxo e vermelho.  </p>]]>

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<title>la dolce vita</title>
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<modified>2008-06-02T20:37:30Z</modified>
<issued>2008-06-02T17:23:04Z</issued>
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<summary type="text/plain">Nenhum dos meus artistas preferidos teve uma vida interessante. Fiquei aliviado em saber. De Watteau nenhum escândalo, nenhum crime bárbaro. Proust e Waugh até tiveram juventudes mundanas, mas logo foram para o quarto escrever. O mesmo com Valéry, o mesmo com Debussy. Segundo a minha lista dos melhores, quanto mais interessante é a vida, menos o sujeito tem o que dizer.
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<![CDATA[<p>Nenhum dos meus artistas preferidos teve uma vida interessante. Fiquei aliviado em saber. De Watteau nenhum escândalo, nenhum crime bárbaro. Proust e Waugh até tiveram juventudes mundanas, mas logo foram para o quarto escrever. O mesmo com Valéry, o mesmo com Debussy. Segundo a minha lista dos melhores, quanto mais interessante é a vida, menos o sujeito tem o que dizer.</p>

<p>Me surpreende como pouca gente tem a mesma opinião. Todo mundo elogia Hemingway porque ele caçava tigres e trata Pollock como herói por causa do alcoolismo, mesmo que Hemingway seja superficial e que boa parte do que Pollock pintou tente ser lírico e não passe de decorativo. Talvez isso aconteça por causa dessa obsessão pela biografia dos artistas a que as pessoas sucumbiram no século XX - e que, junto com comunismo, jeans com camiseta e outras banalidades, não está com cara de desaparecer no XXI. Mas pode ser também que a idéia das pessoas sobre o que seja uma vida interessante esteja simplesmente errada. Quando me dizem que alguém teve uma vida interessante, logo sei que a criatura ou freqüentava festas na Riviera ou saía com celebridades ou se drogava até babar na camisa ou sofria de alguma doença mental ou (melhor ainda) tinha taras sexuais aberrantes - se preencher mais de duas das condições acima, ou é o Fitzgerald ou o Serguei. </p>

<p>Me parece que uma vida interessante nesses termos até pode dar conteúdo para um romance, só que se não houver uma sensibilidade certa para perceber as nuances morais da orgia ou do suicídio, o romance será algo como um Bukowski nos piores momentos. O problema é que geralmente os que têm essa sensibilidade são os caras que ficam de pantufa sábado à noite. Não nego que os garotos de programa tenham sido importantes como tema para "À la Recherche du Temps Perdu". Mas Proust só conseguiu transformar a visita ao prostíbulo masculino num dos episódios mais estranhamente bonitos do livro porque tinha uma sensibilidade treinada por horas de ascese estética solitária e nada glamourosa, coisas tipo ficar olhando fixamente para uma xícara ou um prendedor de roupa. </p>

<p>Meu artista ideal seria alguém que perderia muito tempo com esses exercícios meio inúteis, meio sem sentido. Seriam a rodinha na gaiola do hamster para a sua sensibilidade. O que não daria muita fofoca, é claro. Para mim, quanto melhor é a obra, mais chata a biografia.  <br />
</p>]]>

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<title></title>
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<summary type="text/plain">Jogo de sombra numa pélvis no.3.</summary>
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<![CDATA[<p><a href="http://site.pirelli.14bits.com.br/autores/173">Alair Gomes</a> na Usina o Gasômetro. Acho curioso que ele - assim como Mapplethorpe e outros fotógrafos gays - não conseguia tirar fotos de gente, só de curvas e contra-curvas em corpos harmoniosos de gente. Uma forma de apreender a beleza mais pelo padrão do que pela especificidade: tem peito quadrado, as linhas da virilha marcadas, os gominhos da barriga fazem sombra, pronto, fotografa. Divertido de assistir, talvez mais ainda de fazer. Mas alguém como <a href="http://images.google.com.br/images?q=cartier-bresson&hl=pt-BR&um=1&ie=UTF-8&sa=X&oi=images&ct=title">Cartier-Bresson</a>, que não era obcecado por padrão corporal nenhum, conseguia extrair beleza até de uma fábrica de rolamentos na União Soviética. Já a maioria das fotos de Alair Gomes podia ter como título "Jogo de sombra numa pélvis no.3" ou "Curvas e contra-curvas sobre tórax peludo".  </p>]]>

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<title>hora de falar mal do teatro</title>
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<modified>2008-05-27T14:36:46Z</modified>
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<summary type="text/plain">Hora de falar mal do teatro</summary>
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<name>Rodrigo de Lemos</name>
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<![CDATA[<p><em>Édipo-Rei </em>no São Pedro. Édipo fantasiado de Daryl Hannah em <em>Blade Runner</em>. Trilha sonora: Rolling Stones. O diretor se explica: "Estava estudando o texto quando, de repente, fiquei tão revoltado que chamei os deuses gregos de diabos. Imediatamente, me apareceu na mente o Mick Jagger. Ele é ao mesmo tempo profano e sagrado."</p>

<p>Desta vez eu fico no foyer comendo capeletes<a href="http://rodrigodelemos.apostos.com//archives/2007/07/post_33.html">.</a></p>]]>

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<title></title>
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<summary type="text/plain">Escuta, o que são essas bichas que saem de noite com manta de palestino? De onde elas vêm? O que elas querem? São bichas-bomba? Chega uma hora em que elas vão cada uma para um canto e se explodem no...</summary>
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<![CDATA[<p>Escuta, o que são essas bichas que saem de noite com manta de palestino? De onde elas vêm? O que elas querem? São bichas-bomba? Chega uma hora em que elas vão cada uma para um canto e se explodem no meio dos indies?</p>]]>

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<title>zeitgeist</title>
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<modified>2008-05-15T16:01:42Z</modified>
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<summary type="text/plain">Beijo triplo em boate é tão anos 90. Digo isso porque até ontem fazia uns dez anos que eu não via um desses. Me pareceu na hora que tínhamos voltado no tempo e que ia tocar alguma coisa tipo Prodigy...</summary>
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<![CDATA[<p>Beijo triplo em boate é tão anos 90. Digo isso porque até ontem fazia uns dez anos que eu não via um desses. Me pareceu na hora que tínhamos voltado no tempo e que ia tocar alguma coisa tipo Prodigy ou Basement Jaxx. Só tive certeza de estar em 2008 porque a música seguinte foi daquela Cat Power. Também não apareceu ninguém de cabelo verde com um Pokemon fluorescente no pescoço.  </p>

<p>É que não é só pelas roupas que se reconhece uma década. Perversões sexuais são tão úteis quanto, ou mais. Porque como roupas, cortes de cabelo e idéias filosóficas, perversões sexuais também ficam datadas. Pederastia é muito 1890's, ainda mais se seguida de chantagem. Bigamia e adultério, talvez por culpa do Nelson Rodrigues, me lembram anos 50. Anos 60/70 são todos aqueles clichês: pan-sexualismo, o Serguei beijando a Janis Joplin, orgias com estimulantes. A década de 80 tinha uma perversãozinha meio murcha, eu acho; a única coisa que me vem à mente é gente ficando com cinco ou seis sucessivamente em cantinho escuro de boate gótica - a variação que os anos 90 introduziram é que clubbers ficavam com cinco ou seis ao mesmo tempo, e bem no meio da boate. Mas sob esse aspecto nossa época não deixa de ser meio melancólica. Talvez tudo o que as gerações seguintes venham a associar com os anos 2000 é um gordinho na frente do computador vendo a Débora Secco pelada em site pornográfico.</p>]]>

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<title>do &quot;manyoshu&quot;</title>
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<modified>2008-05-13T14:24:14Z</modified>
<issued>2008-05-13T13:58:46Z</issued>
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<created>2008-05-13T13:58:46Z</created>
<summary type="text/plain">Do Manyoshu.</summary>
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<name>Rodrigo de Lemos</name>
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<![CDATA[<p><img alt="021.jpg" src="http://rodrigodelemos.apostos.com//archives/021.jpg" width="250" height="375" /></p>

<p><br />
Waiting for you<br />
In the dripping dew of the hill<br />
I stood - weary and wet<br />
With the dripping dew of the hill. - <em>by the Prince</em></p>

<p>Would I had been, beloved,<br />
The dripping dew of the hill,<br />
That wetted you<br />
While for me you waited. - <em>by the Lady</em></p>

<p>(Prince Otsu and Lady Ishikawa)</p>]]>

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<title>onde está o eliot?</title>
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<modified>2008-05-10T00:25:50Z</modified>
<issued>2008-05-09T15:22:47Z</issued>
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<created>2008-05-09T15:22:47Z</created>
<summary type="text/plain"> Onde está o Wally? Nunca consegui explicar direito de onde vinha esse desgosto quase fisiológico que sinto ao ler um crítico de arte ou muito sociológico ou muito psicanalista ou muito desconstrucionista, e minha simpatia distante por coisas meio...</summary>
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<name>Rodrigo de Lemos</name>
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<![CDATA[<p><img alt="hscob.jpg" src="http://rodrigodelemos.apostos.com//archives/hscob.jpg" width="390" height="400" /><br />
<em>Onde está o Wally?</em></p>

<p>Nunca consegui explicar direito de onde vinha esse desgosto quase fisiológico que sinto ao ler um crítico de arte ou muito sociológico ou muito psicanalista ou muito desconstrucionista, e minha simpatia distante por coisas meio fora de moda como New Criticism e até certo ponto Estruturalismo. Além dos argumentos mais ou menos óbvios (de que saber como Thackeray organizou "Vanity Fair" ensina alguma coisa a quem lê e a quem escreve sobre como estruturar romances, enquanto dizer que Rebecca Sharp é uma manifestação do Eterno Feminino, convenhamos, não ajuda muito), havia alguma coisa de mais irracional nesse desgosto. Mas ontem, depois da curta anamnese que sempre faço tomando Toddyinho, me veio o motivo, que chamarei muito psicanalisticamente de Cena Primordial.</p>

<p>Eu tinha 18 anos. Estava no Museu do Prado, eu e um monte de turistas que tiravam fotos com flash e mascavam chicletes barulhentos; na nossa frente, "O Jardim das Delícias". Foi um daqueles momentos em que entendi claramente o que é ver um quadro: apesar dos flashes e dos chicletes à minha volta, deixar o olho passear sobre a tela, gostando de um cena aqui, passando por cima de outra menos interessante logo depois, quase nunca me perguntando "Por quê? Por quê?", sempre prestando muita atenção nos "como": como Bosch tinha organizado a cenas, como o quadro agia sobre o meu olho. Mas não demorou muito para eu perceber uma perturbação ao meu redor. A alguns passos de mim, uma mulher com cara de mãe, sotaque de nova-iorquina, passou empurrando quem encontrava pelo caminho, falando alto até chegar bem na frente do quadro. E aí ela explicou para o marido - meio bolha, pelo que percebi - o porque daquele alvoroço: ela tinha lido numa revista que, em meio às figuras do "Jardim das Delícias", havia um diabo se masturbando, e que sem achar o diabo se masturbando não havia como entender "O Jardim das Delícias". E foi isso que ela fez durante os quase dez minutos que passou em frente ao quadro: procurar o tal diabo onanista como quem procura "Onde está o Wally?".</p>

<p>É isso que acho que um crítico ou muito sociológico ou muito psicanalista ou muito desconstrucionista faz: procurar o Wally. De um jeito muito sofisticado, cheio de método e de justificativas teóricas e de termos de mais de quatro sílabas, mas ainda assim é isso, procurar o Wally. Alguns até juram que estão prestando muita atenção no "Como?", que eles chamam de retórica ou aspectos formais ou qualquer outro nome deses, mas eles prestam atenção no "Como?" só para no fim achar o Wally. Não estou dizendo de antemão que num poema do Eliot eles não vão achar o Wally dando um cascudo num judeu; que numa pintura do Rubens o Wally não vai estar repetindo infinitamente o objeto de desejo por razões freudianas. Pode ser. Mas escrever um trabalho exclusivamente sobre isso não serve de nada se não responder a única pergunta que me interessa na crítica: qual o valor que aquela obra tem para aquele crítico? Ficar procurando o Wally sem falar na musicalidade do Eliot, no movimento em Rubens, não responde a essa pergunta. A não ser que o crítico pense que "Wasteland" vale menos porque tem traços de anti-semitismo, o que o levaria também a desvalorizar não sei quantas obras do passado (freqüentemente racistas ou elitistas ou xenófobas ou qualquer outro pecado do tipo.) </p>

<p>Sei que em faculdades a minha posição é chamada com desprezo de diletantismo elegante. Não tenho problema nem com diletantismo e, ao contrário dos professores universitários, nem com elegância. Mas é uma simplificação. Não acho que métodos mais rígidos sejam inúteis. Só que eu não excluiria deles um certo diletantismo. Apagar todo diletantismo da crítica significa apagar qualquer traço do prazer irresponsável que senti na Cena Primordial, quase nunca perguntando "Por quê? Por quê?", sempre prestando muita atenção no "Como". Talvez venha daí minha simpatia por métodos formalistas meio fora de moda. O meu crítico ideal leria de perto como um New Critic, e entenderia muito sobre estilo e foco narrativo e organização estrutural como um Estruturalista clássico, mas usaria todo esse maquinário meio feio, meio cinzento para responder uma única questão: de onde vem o prazer ou o desprazer que ele sente? E ele seria um diletante não só porque o prazer e o desprazer seriam a sua maior preocupação, mas também porque ele confiaria mais na inteligência do que em métodos. Por isso, nada impediria que às vezes ele procurasse o Wally se sentisse necessidade. O que a esperteza dele não permitiria é passar uma tarde inteira no Prado só para isso, ainda mais com visto de turista.  </p>]]>

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<title>o pequeno wallace stevens</title>
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<summary type="text/plain">O pequeno Wallace Stevens</summary>
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<name>Rodrigo de Lemos</name>
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<email>rodrigostyx@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Respondi <a href="http://www.quizilla.com/users/awy/quizzes/Which%20Famous%20Modern%20American%20Poet%20Are%20You%3F">este teste</a> para saber que poeta americano eu seria. Deu Wallace Stevens. Juntando com os outros dois testes que eu já respondi na minha vida - o do Sex and the City, em que deu a Samantha, e o dos personagens da Disney, em que deu o Pato Donald - descobri que sou um pato ninfomaníaco que recita versos modernistas fazendo quá-quá.</p>

<p>Mas gostei de ser Wallace Stevens. Podia ter dado Ezra Pound e eu ser fascista. Podia ter dado Eliot e eu ser impotente. Ser um poeta que consegue trabalhar como executivo numa empresa de seguros, e ainda um poeta que consegue trabalhar como executivo numa empresa de seguros com algum prazer, isso pode não ser meu ideal de vida agradável, mas tem alguma coisa de original aí. </p>

<p>Porque, vocês sabem, poeta não pode ser executivo: poeta tem de ser camelô, poeta tem de ser sub-emprego. O máximo de bourgeois que poeta pode ser é professor universitário, o que nem é financeiramente tão diferente dos dois acima. Um poeta então que tem um emprego normal e que - horror! - gosta do emprego normal só pode uma aberração. Se você mostrar a um poetisa semi-analfabeta uma biografia de Wallace Stevens sem dizer que é de Wallace Stevens certamente ela vai responder que só pode ser a biografia de um poeta superficial, que "não integrou poesia com cotidiano" ganhando 500 reais por mês. Claro que quando você mostrar que a biografia é de Wallace Stevens não vai fazer diferença nenhuma, até porque tudo que poetisas semi-analfabetas em geral conhecem é letra do Djavan.</p>

<p><br />
***********</p>

<p>O pequeno Wallace Stevens:</p>

<p><img alt="1118279935_stevens.jpg" src="http://rodrigodelemos.apostos.com//archives/1118279935_stevens.jpg" width="166" height="246" /></p>

<p><em>- Wallace Stevens, recita "Sunday Morning" aí!<br />
- Não posso, mãe; tô com a boca cheia de bolacha Maria.</em></p>]]>

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<title>títulos e títulos</title>
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<![CDATA[<p>Claro que o título de uma peça ou de um filme serve menos para exprimir o conteúdo do que para te dizer veladamente se vale a pena assistir ou não. Os próprios artistas têm a gentileza de nos avisar antes de entrarmos no museu ou no teatro que estamos fazendo besteira, e o jeito de eles nos avisarem é o título. É então delicado da nossa parte ouvir. Eu, pelo menos, não assisto a filmes que tenham títulos que lembrem taras sexuais escatológicas ("Água Negra" e mais uns tantos) ou peças de teatro que justaponham um nome de personagem clássico a um conceito acadêmico ("Fausto Sincrético", em que em vez de um sábio Fausto é um pai-de-santo; "Tirésias Contemporâneo" com um travesti tetudo e não-operado no papel principal. Quer dizer, esse seria legal). Livros então com títulos poéticos/preciosos - "Pensar é + verbo afrescalhado", "A Elegância do Porquinho-da-Índia" -, distância.  </p>

<p>O mesmo com palestras. Tenho pouca experiência com palestras, e o pouco que tenho peço a Deus que pouco continue. Mas já é o suficiente para deixar aos meus descendentes uma regra dourada: nunca ir a palestras que tenham no título a palavra "cultura". Pode ser do Zimbabwe. Economia do Zimbabwe, pintura do Zimbabwe, cinema do Zimbabwe, história do Zimbabwe, culinária do Zimbabwe (um tópico que teria pouco a desenvolver, ao menos pelas fotos de um campo de refugiados que eu vi na internet), disso com sorte se pode tirar alguma coisa. Já cultura do Zimbabwe significa um monte de generalizações senso-comum sobre os zimbabwenses ditas com ar de grande cientificidade. Além disso, via de regra os palestrantes sobre cultura são muito pouco cultos para te dizerem claramente o que é uma.</p>

<p>E títulos de blog, então? Por exemplo -</p>]]>

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<title>dois poemas de dora ferreira da silva</title>
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<summary type="text/plain">dois poemas de dora ferreira da silva</summary>
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<name>Rodrigo de Lemos</name>
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<![CDATA[<p><strong>Perséfone</strong></p>

<p>A Lua testemunhou teu rapto, quando<br />
colhias violetas e anêmonas. Para onde foste,<br />
arrancada à campina pelo sombrio Amante?<br />
Nem tu sabias do tenebroso percurso sobre a Terra,<br />
antes tão doce, nem da dança para sempre traçada<br />
e nela teu passo aprisionado, coroada por Hades<br />
com grinaldas de romãs pesadas. Kóre Perséfone, rainha<br />
não dos vivos e da campina em flor, mas das sombras frias.</p>

<p><img alt="hydria 2.JPG" src="http://rodrigodelemos.apostos.com//archives/hydria%202.JPG" width="350" height="150" /></p>

<p><br />
<strong>Hades</strong></p>

<p>Da profunda cisterna da Noite<br />
tuas pupilas perseguiam estrelas frias.<br />
Sombras em torno de ti rondavam. Só lágrimas<br />
e a antiga alegria, pena, a mais severa.<br />
Tudo perdido fora do circulo dos deuses<br />
jubilosos. Tua mãos pediam o fardo cálido,<br />
pressentido na campina e a flor do único sorriso<br />
que te movera além da treva. E ousaste!<br />
Contra leis e deuses. Tocara-te Amor<br />
e tremias sob a Lua sublevada. Flores<br />
perfumaram teu reino. Embora tristonha em seu trono,<br />
Perséfone era o bem que te faltava.</p>

<p>(do livro "Hídrias")</p>]]>

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<title>a linguagem muda das coisas (caras)</title>
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<issued>2008-04-25T12:21:46Z</issued>
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<summary type="text/plain">Li esses dias uma daquelas filósofas do GNT dizendo na Internet que é papel do intelectual denunciar a sede de luxo. Eu também acho que é papel do intelectual denunciar a sede de luxo. Contanto que o papel fique só...</summary>
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<name>Rodrigo de Lemos</name>
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<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://rodrigodelemos.apostos.com/">
<![CDATA[<p>Li esses dias uma daquelas filósofas do GNT dizendo na Internet que é papel do intelectual denunciar a sede de luxo. Eu também acho que é papel do intelectual denunciar a sede de luxo. Contanto que o papel fique só para ele. Intelectuais sempre vêm com esse papo de que a gente não deve ter mais do que precisa. Mas o que é "precisar" mesmo? É uma idéia bem simplória, bem pouco "intelectual", essa de que as coisas só têm uma função: um sapato é para pisar, um chapéu para proteger do Sol, portanto a gente só precisa de um de cada. Qualquer perua - ah, essas estetas involuntárias! - sabe que sapatos e brincos e chapéus também falam a linguagem muda das coisas e que um tom de marrom na bolsa pode arruinar um conjunto. Por isso, quando perguntam se a primeira-dama das Filipinas precisava mesmo de 500 pares de sapato, acho que devemos levar em consideração sua alma de artista ou de perua. Talvez, como Turner para pintar um pôr-do-sol, ela precise de 500 cores na paleta. Todas Manolo Blahnik, claro.</p>]]>

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