Gosto de adolescente por pintura se resume a surrealismo e a alguns expressionistas. Pelo menos é o que lembro de alguns colegas de segundo grau um pouco mais arty. Ao contrário de arte abstracionista, e como arte clássica, surrealismo e expressionismo dá para entender, tem figurinha. Mas ao contrário de arte clássica, e como arte abstracionista, surrealismo e expressionismo têm também aquele toque de transgressão que todo adolescente – sobretudo se for arty – tem de adorar. Isso sem falar da angústia em Munch ou James Ensor, tão apropriada numa idade em que as pessoas passam noites ouvindo The Killers, e daquela gente cheia de pena de avestruz que Max Ernst pintava e que serve à merveille para adolescente fazer o julgamento mais elogioso de que é capaz (“Que viagem!”) e seguir virando sem prestar muita atenção as páginas no catálogo da Taschen.
Passei os últimos dias em Buenos Aires – até por isso que não venho escrevendo – e, depois de uns cinco anos, voltei ao Museu de Belas Artes. Constatei com felicidade que o pouco que ainda havia de adolescente no meu coraçãozinho arty foi finalmente cauterizado. Ok, nem tanto – eu ainda gosto de Modigliani pelo talento individual e pelo charme da coisa. Mas a parte da arte moderna foi a mais tediosa da visita. A impressão que tive era de que quem viu um Modigliani viu todos os Modigliani, quem viu um Kandinsky viu todos os Kandinsky. Picasso, Morandi, tudo isso se reconhece de longe. Pela primeira vez, arte moderna me pareceu repetitiva, quase simplória. E me veio à cabeça uma frase que li num desses blogs portugueses, acho que o Estado Civil: “se parece um Mondrian então é um Mondrian”.
Suspeito que o motivo para a arte moderna ser tão mais estereotipada individualmente do que a arte clássica (e arte clássica para mim aqui é qualquer coisa antes do impressionismo) é exatamente aquilo que faz a arte moderna, moderna e a arte clássica, clássica. Quando havia convenções de tema e de forma, o estilo individual tinha de achar uma brecha nesses temas e nessas formas escolhidas de fora, coletivamente, e acabava por aparecer de forma mais sutil. Daí ser mais difícil para um não-connoisseur dizer um Rafael de um Andrea del Sarto do que um Van Gogh de um Munch. Já quando essas convenções erodiram e os pintores se acreditaram livres, foi normal que a individualidade não encontrasse mais escolhas pré-determinadas com que se chocar e ansiasse por brilhar por inteiro, sem mais entraves. Mas ao invés de desenvolver um estilo, o que a sensibilidade individual finalmente liberada fez foi reproduzir ao infinito algumas obsessões. Quando essas obsessões mudaram ao longo da vida do pintor, tivemos essas fases diferentes de um mesmo artista: fase azul, fase cubista de Picasso; fases mais ou menos geométricas de Kandinsky. E quando essas obsessões não mudaram, a estereotipia foi ainda maior: Modigliani. O que a arte moderna fez foi substituir as convenções coletivas por certos tiques pessoais dos artistas. De maneira que conhecendo um pouco dos tiques e um pouco da técnica dos mestres modernistas, o sujeito já conhece os mestres modernistas. Não precisa nem ver. Daí eu não levar muito a sério quando dizem que arte moderna “é mais difícil” do que arte clássica. É a arte clássica a mais difícil como arte; arte moderna só é mais difícil enquanto representação.
Arquivo de julho de 2008
arte adolescente
vecchiarella
Estava revendo ontem “8/12″ e me apaixonei de novo por Anouk Aimée. Acho que tenho bom gosto para mulheres. O que pode levantar comentários, claro.

Daí fiquei com curiosidade de saber como ela está agora, vecchiarella. Não me decepcionei. Essas atrizes francesas ou italianas da década de 50/60 na maioria não perderam ao envelhecer muito da beleza original. Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, a própria Anouk Aimée – nenhuma chegou no nível de bizarrice de uma Bette Davis, nem na decadência meio deprimente de Marlene Dietrich nos últimos anos.
Me pergunto se não é um pouco porque essas atrizes, mesmo na época, já tinham esse charme de mulher angustiada, de mulher infeliz no casamento ou algo assim. Não lembro de um papel de Jeanne Moreau em que ela não quisesse em algum ponto se separar do marido. Catherine Deneuve também – “Belle de Jour” springs to my mind. E Anouk Aimée fez boa parte da carreira tendo casos fracassados ou se divorciando do Marcello Mastroianni (em “La Dolce Vita” e “8 1/2″; exceção: “Un Homme et Une Femme”). Isso, claro, só veio a favorecer a imagem delas na velhice. Infelicidade no casamento é um dos fundamentos mais seguros para uma mulher basear seu charme: é uma das poucas coisas que provavelmente vão acompanhá-la a vida inteira. A carne até pode decair, mas esse encanto se mantém.
(Acho que a mesma coisa acontece com cantores de música pop. A dignidade na velhice deles diminui em proporção direta com a quantidade de dancinhas/caretas que eles faziam quando jovens. É por isso que jornalistas vivem dizendo que Mick Jagger está ridículo aos 60 e que Iggy Pop parece uma boneca de palha, enquanto David Bowie e Lou Reed podem até andar meio caídos, mas ridículos eles não estão.)

