Arquivo de junho de 2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

plaisirs d’occasion

Hier, c’était l’hiver; voilà qu’il vient, l’automne…
Au vent gris les saisons, sans cesse, tour à tour,
Se changent l’une en l’autre en vain dès que le jour
Se lève et endort le monde et tous les clochers sonnent…
Dans les coins des faubours, plus de train, plus personne.
Chez soi, on chante on danse aux coups d’un grand tambour
Qui annonce aux nouveau-nés: la mort est de retour,
Ce vieux copain um peu ringard et monotone.
Mais nous, nous deux ici, fermés dans notre chambre:
Velours d’occasion, quelques faux bijoux d’ambre
Et nos contours dormants sur les rideaux violets;
Si beaux, si passagers, comme deux chrysanthèmes,
Nous oublions le monde – ah, je t’aime, tu m’aimes! –
Certains qu’il nous attend par-delà ces volets.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

roxo com vermelho e a existência

Esses dias vi um filósofo existencialista explicando a diferença entre contingente e necessário, dizendo que usar roupas na nossa sociedade é necessário, mas se vai ser verde com cinza ou azul com amarelo, isso é contingente, e que se você vai à padaria, necessário mesmo é fazer com que o padeiro te dê pão, mas se você vai conseguir isso indicando o pão com sons guturais ou pedindo por favor, isso é o contingente. Claro que ele estava de roxo com vermelho e que provavelmente não devia ser lá muito educado com padeiros.
Mas, sem querer, acho que ele deu uma boa definição daquilo que Boileau e a propaganda do Iguatemi chamam de “o estilo”. Porque o estilo é exatamente o que ele explicou, só que ao contrário: o contingente transformado em necessário. Uma criatura só faz algo “com estilo” quando sente a força da necessidade em todos os detalhes, e sente com tanto que se recusa a escrever “sotoposto” ou a sair para a rua de roxo com vermelho. É isso que nós identificamos quando lemos um grande verso, uma grande frase. Dentre as várias maneiras de dizer a mesma coisa, só uma naquela hora tinha de ser. Sorte é que foi aquela.
Sempre aparece alguém com alguma nova idéia brilhante para completar a frase “O homem é o único animal__________”. Alguns vão te dizer “político”; outros, “racional”, “da linguagem”, “que se sabe no tempo”, “que come Polenguinho”. Eu diria: “O homem é o único animal capaz de estilo”. Segundo o narrador do Animal Planet, poucas coisas são tão bonitas quanto um guepardo no momento em que ele vai avançar sobre a presa. Mas trezentos guepardos avançando sobre a presa são trezentos guepardos avançando sobre a presa da mesma maneira (daí a monotonia daqueles documentários sobre bichinhos). Já trezentos homens avançando sobre a presa seriam trezentos homens avançando cada um de jeito: uns agarrariam ela direto pelo pescoço, outros ficariam só em volta, lendo Drummond até ela pegar no sono. Tem ainda os que acabariam eles mesmos presa da gazela indefesa, os que no caminho tropeçariam num arbusto. De ser definido pelo contingente ninguém escapa, para preocupação do filósofo existencialista que eu vi esses dias de roxo e vermelho.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

la dolce vita

Nenhum dos meus artistas preferidos teve uma vida interessante. Fiquei aliviado em saber. De Watteau nenhum escândalo, nenhum crime bárbaro. Proust e Waugh até tiveram juventudes mundanas, mas logo foram para o quarto escrever. O mesmo com Valéry, o mesmo com Debussy. Segundo a minha lista dos melhores, quanto mais interessante é a vida, menos o sujeito tem o que dizer.
Me surpreende como pouca gente tem a mesma opinião. Todo mundo elogia Hemingway porque ele caçava tigres e trata Pollock como herói por causa do alcoolismo, mesmo que Hemingway seja superficial e que boa parte do que Pollock pintou tente ser lírico e não passe de decorativo. Talvez isso aconteça por causa dessa obsessão pela biografia dos artistas a que as pessoas sucumbiram no século XX – e que, junto com comunismo, jeans com camiseta e outras banalidades, não está com cara de desaparecer no XXI. Mas pode ser também que a idéia das pessoas sobre o que seja uma vida interessante esteja simplesmente errada. Quando me dizem que alguém teve uma vida interessante, logo sei que a criatura ou freqüentava festas na Riviera ou saía com celebridades ou se drogava até babar na camisa ou sofria de alguma doença mental ou (melhor ainda) tinha taras sexuais aberrantes – se preencher mais de duas das condições acima, ou é o Fitzgerald ou o Serguei.
Me parece que uma vida interessante nesses termos até pode dar conteúdo para um romance, só que se não houver uma sensibilidade certa para perceber as nuances morais da orgia ou do suicídio, o romance será algo como um Bukowski nos piores momentos. O problema é que geralmente os que têm essa sensibilidade são os caras que ficam de pantufa sábado à noite. Não nego que os garotos de programa tenham sido importantes como tema para “À la Recherche du Temps Perdu”. Mas Proust só conseguiu transformar a visita ao prostíbulo masculino num dos episódios mais estranhamente bonitos do livro porque tinha uma sensibilidade treinada por horas de ascese estética solitária e nada glamourosa, coisas tipo ficar olhando fixamente para uma xícara ou um prendedor de roupa.
Meu artista ideal seria alguém que perderia muito tempo com esses exercícios meio inúteis, meio sem sentido. Seriam a rodinha na gaiola do hamster para a sua sensibilidade. O que não daria muita fofoca, é claro. Para mim, quanto melhor é a obra, mais chata a biografia.