Alair Gomes na Usina o Gasômetro. Acho curioso que ele – assim como Mapplethorpe e outros fotógrafos gays – não conseguia tirar fotos de gente, só de curvas e contra-curvas em corpos harmoniosos de gente. Uma forma de apreender a beleza mais pelo padrão do que pela especificidade: tem peito quadrado, as linhas da virilha marcadas, os gominhos da barriga fazem sombra, pronto, fotografa. Divertido de assistir, talvez mais ainda de fazer. Mas alguém como Cartier-Bresson, que não era obcecado por padrão corporal nenhum, conseguia extrair beleza até de uma fábrica de rolamentos na União Soviética. Já a maioria das fotos de Alair Gomes podia ter como título “Jogo de sombra numa pélvis no.3″ ou “Curvas e contra-curvas sobre tórax peludo”.
Arquivo de maio de 2008
hora de falar mal do teatro
Édipo-Rei no São Pedro. Édipo fantasiado de Daryl Hannah em Blade Runner. Trilha sonora: Rolling Stones. O diretor se explica: “Estava estudando o texto quando, de repente, fiquei tão revoltado que chamei os deuses gregos de diabos. Imediatamente, me apareceu na mente o Mick Jagger. Ele é ao mesmo tempo profano e sagrado.”
Desta vez eu fico no foyer comendo capeletes.
Escuta, o que são essas bichas que saem de noite com manta de palestino? De onde elas vêm? O que elas querem? São bichas-bomba? Chega uma hora em que elas vão cada uma para um canto e se explodem no meio dos indies?
zeitgeist
Beijo triplo em boate é tão anos 90. Digo isso porque até ontem fazia uns dez anos que eu não via um desses. Me pareceu na hora que tínhamos voltado no tempo e que ia tocar alguma coisa tipo Prodigy ou Basement Jaxx. Só tive certeza de estar em 2008 porque a música seguinte foi daquela Cat Power. Também não apareceu ninguém de cabelo verde com um Pokemon fluorescente no pescoço.
É que não é só pelas roupas que se reconhece uma década. Perversões sexuais são tão úteis quanto, ou mais. Porque como roupas, cortes de cabelo e idéias filosóficas, perversões sexuais também ficam datadas. Pederastia é muito 1890’s, ainda mais se seguida de chantagem. Bigamia e adultério, talvez por culpa do Nelson Rodrigues, me lembram anos 50. Anos 60/70 são todos aqueles clichês: pan-sexualismo, o Serguei beijando a Janis Joplin, orgias com estimulantes. A década de 80 tinha uma perversãozinha meio murcha, eu acho; a única coisa que me vem à mente é gente ficando com cinco ou seis sucessivamente em cantinho escuro de boate gótica – a variação que os anos 90 introduziram é que clubbers ficavam com cinco ou seis ao mesmo tempo, e bem no meio da boate. Mas sob esse aspecto nossa época não deixa de ser meio melancólica. Talvez tudo o que as gerações seguintes venham a associar com os anos 2000 é um gordinho na frente do computador vendo a Débora Secco pelada em site pornográfico.
do “manyoshu”

Waiting for you
In the dripping dew of the hill
I stood – weary and wet
With the dripping dew of the hill. – by the Prince
Would I had been, beloved,
The dripping dew of the hill,
That wetted you
While for me you waited. – by the Lady
(Prince Otsu and Lady Ishikawa)
onde está o eliot?

Onde está o Wally?
Nunca consegui explicar direito de onde vinha esse desgosto quase fisiológico que sinto ao ler um crítico de arte ou muito sociológico ou muito psicanalista ou muito desconstrucionista, e minha simpatia distante por coisas meio fora de moda como New Criticism e até certo ponto Estruturalismo. Além dos argumentos mais ou menos óbvios (de que saber como Thackeray organizou “Vanity Fair” ensina alguma coisa a quem lê e a quem escreve sobre como estruturar romances, enquanto dizer que Rebecca Sharp é uma manifestação do Eterno Feminino, convenhamos, não ajuda muito), havia alguma coisa de mais irracional nesse desgosto. Mas ontem, depois da curta anamnese que sempre faço tomando Toddyinho, me veio o motivo, que chamarei muito psicanalisticamente de Cena Primordial.
Eu tinha 18 anos. Estava no Museu do Prado, eu e um monte de turistas que tiravam fotos com flash e mascavam chicletes barulhentos; na nossa frente, “O Jardim das Delícias”. Foi um daqueles momentos em que entendi claramente o que é ver um quadro: apesar dos flashes e dos chicletes à minha volta, deixar o olho passear sobre a tela, gostando de um cena aqui, passando por cima de outra menos interessante logo depois, quase nunca me perguntando “Por quê? Por quê?”, sempre prestando muita atenção nos “como”: como Bosch tinha organizado a cenas, como o quadro agia sobre o meu olho. Mas não demorou muito para eu perceber uma perturbação ao meu redor. A alguns passos de mim, uma mulher com cara de mãe, sotaque de nova-iorquina, passou empurrando quem encontrava pelo caminho, falando alto até chegar bem na frente do quadro. E aí ela explicou para o marido – meio bolha, pelo que percebi – o porque daquele alvoroço: ela tinha lido numa revista que, em meio às figuras do “Jardim das Delícias”, havia um diabo se masturbando, e que sem achar o diabo se masturbando não havia como entender “O Jardim das Delícias”. E foi isso que ela fez durante os quase dez minutos que passou em frente ao quadro: procurar o tal diabo onanista como quem procura “Onde está o Wally?”.
É isso que acho que um crítico ou muito sociológico ou muito psicanalista ou muito desconstrucionista faz: procurar o Wally. De um jeito muito sofisticado, cheio de método e de justificativas teóricas e de termos de mais de quatro sílabas, mas ainda assim é isso, procurar o Wally. Alguns até juram que estão prestando muita atenção no “Como?”, que eles chamam de retórica ou aspectos formais ou qualquer outro nome deses, mas eles prestam atenção no “Como?” só para no fim achar o Wally. Não estou dizendo de antemão que num poema do Eliot eles não vão achar o Wally dando um cascudo num judeu; que numa pintura do Rubens o Wally não vai estar repetindo infinitamente o objeto de desejo por razões freudianas. Pode ser. Mas escrever um trabalho exclusivamente sobre isso não serve de nada se não responder a única pergunta que me interessa na crítica: qual o valor que aquela obra tem para aquele crítico? Ficar procurando o Wally sem falar na musicalidade do Eliot, no movimento em Rubens, não responde a essa pergunta. A não ser que o crítico pense que “Wasteland” vale menos porque tem traços de anti-semitismo, o que o levaria também a desvalorizar não sei quantas obras do passado (freqüentemente racistas ou elitistas ou xenófobas ou qualquer outro pecado do tipo.)
Sei que em faculdades a minha posição é chamada com desprezo de diletantismo elegante. Não tenho problema nem com diletantismo e, ao contrário dos professores universitários, nem com elegância. Mas é uma simplificação. Não acho que métodos mais rígidos sejam inúteis. Só que eu não excluiria deles um certo diletantismo. Apagar todo diletantismo da crítica significa apagar qualquer traço do prazer irresponsável que senti na Cena Primordial, quase nunca perguntando “Por quê? Por quê?”, sempre prestando muita atenção no “Como”. Talvez venha daí minha simpatia por métodos formalistas meio fora de moda. O meu crítico ideal leria de perto como um New Critic, e entenderia muito sobre estilo e foco narrativo e organização estrutural como um Estruturalista clássico, mas usaria todo esse maquinário meio feio, meio cinzento para responder uma única questão: de onde vem o prazer ou o desprazer que ele sente? E ele seria um diletante não só porque o prazer e o desprazer seriam a sua maior preocupação, mas também porque ele confiaria mais na inteligência do que em métodos. Por isso, nada impediria que às vezes ele procurasse o Wally se sentisse necessidade. O que a esperteza dele não permitiria é passar uma tarde inteira no Prado só para isso, ainda mais com visto de turista.
o pequeno wallace stevens
Respondi este teste para saber que poeta americano eu seria. Deu Wallace Stevens. Juntando com os outros dois testes que eu já respondi na minha vida – o do Sex and the City, em que deu a Samantha, e o dos personagens da Disney, em que deu o Pato Donald – descobri que sou um pato ninfomaníaco que recita versos modernistas fazendo quá-quá.
Mas gostei de ser Wallace Stevens. Podia ter dado Ezra Pound e eu ser fascista. Podia ter dado Eliot e eu ser impotente. Ser um poeta que consegue trabalhar como executivo numa empresa de seguros, e ainda um poeta que consegue trabalhar como executivo numa empresa de seguros com algum prazer, isso pode não ser meu ideal de vida agradável, mas tem alguma coisa de original aí.
Porque, vocês sabem, poeta não pode ser executivo: poeta tem de ser camelô, poeta tem de ser sub-emprego. O máximo de bourgeois que poeta pode ser é professor universitário, o que nem é financeiramente tão diferente dos dois acima. Um poeta então que tem um emprego normal e que – horror! – gosta do emprego normal só pode uma aberração. Se você mostrar a um poetisa semi-analfabeta uma biografia de Wallace Stevens sem dizer que é de Wallace Stevens certamente ela vai responder que só pode ser a biografia de um poeta superficial, que “não integrou poesia com cotidiano” ganhando 500 reais por mês. Claro que quando você mostrar que a biografia é de Wallace Stevens não vai fazer diferença nenhuma, até porque tudo que poetisas semi-analfabetas em geral conhecem é letra do Djavan.
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O pequeno Wallace Stevens:

- Wallace Stevens, recita “Sunday Morning” aí!
- Não posso, mãe; tô com a boca cheia de bolacha Maria.

