Claro que o título de uma peça ou de um filme serve menos para exprimir o conteúdo do que para te dizer veladamente se vale a pena assistir ou não. Os próprios artistas têm a gentileza de nos avisar antes de entrarmos no museu ou no teatro que estamos fazendo besteira, e o jeito de eles nos avisarem é o título. É então delicado da nossa parte ouvir. Eu, pelo menos, não assisto a filmes que tenham títulos que lembrem taras sexuais escatológicas (“Água Negra” e mais uns tantos) ou peças de teatro que justaponham um nome de personagem clássico a um conceito acadêmico (“Fausto Sincrético”, em que em vez de um sábio Fausto é um pai-de-santo; “Tirésias Contemporâneo” com um travesti tetudo e não-operado no papel principal. Quer dizer, esse seria legal). Livros então com títulos poéticos/preciosos – “Pensar é + verbo afrescalhado”, “A Elegância do Porquinho-da-Índia” -, distância.
O mesmo com palestras. Tenho pouca experiência com palestras, e o pouco que tenho peço a Deus que pouco continue. Mas já é o suficiente para deixar aos meus descendentes uma regra dourada: nunca ir a palestras que tenham no título a palavra “cultura”. Pode ser do Zimbabwe. Economia do Zimbabwe, pintura do Zimbabwe, cinema do Zimbabwe, história do Zimbabwe, culinária do Zimbabwe (um tópico que teria pouco a desenvolver, ao menos pelas fotos de um campo de refugiados que eu vi na internet), disso com sorte se pode tirar alguma coisa. Já cultura do Zimbabwe significa um monte de generalizações senso-comum sobre os zimbabwenses ditas com ar de grande cientificidade. Além disso, via de regra os palestrantes sobre cultura são muito pouco cultos para te dizerem claramente o que é uma.
E títulos de blog, então? Por exemplo -
Arquivo de abril de 2008
títulos e títulos
dois poemas de dora ferreira da silva
Perséfone
A Lua testemunhou teu rapto, quando
colhias violetas e anêmonas. Para onde foste,
arrancada à campina pelo sombrio Amante?
Nem tu sabias do tenebroso percurso sobre a Terra,
antes tão doce, nem da dança para sempre traçada
e nela teu passo aprisionado, coroada por Hades
com grinaldas de romãs pesadas. Kóre Perséfone, rainha
não dos vivos e da campina em flor, mas das sombras frias.
Hades
Da profunda cisterna da Noite
tuas pupilas perseguiam estrelas frias.
Sombras em torno de ti rondavam. Só lágrimas
e a antiga alegria, pena, a mais severa.
Tudo perdido fora do circulo dos deuses
jubilosos. Tua mãos pediam o fardo cálido,
pressentido na campina e a flor do único sorriso
que te movera além da treva. E ousaste!
Contra leis e deuses. Tocara-te Amor
e tremias sob a Lua sublevada. Flores
perfumaram teu reino. Embora tristonha em seu trono,
Perséfone era o bem que te faltava.
(do livro “Hídrias”)
a linguagem muda das coisas (caras)
Li esses dias uma daquelas filósofas do GNT dizendo na Internet que é papel do intelectual denunciar a sede de luxo. Eu também acho que é papel do intelectual denunciar a sede de luxo. Contanto que o papel fique só para ele. Intelectuais sempre vêm com esse papo de que a gente não deve ter mais do que precisa. Mas o que é “precisar” mesmo? É uma idéia bem simplória, bem pouco “intelectual”, essa de que as coisas só têm uma função: um sapato é para pisar, um chapéu para proteger do Sol, portanto a gente só precisa de um de cada. Qualquer perua – ah, essas estetas involuntárias! – sabe que sapatos e brincos e chapéus também falam a linguagem muda das coisas e que um tom de marrom na bolsa pode arruinar um conjunto. Por isso, quando perguntam se a primeira-dama das Filipinas precisava mesmo de 500 pares de sapato, acho que devemos levar em consideração sua alma de artista ou de perua. Talvez, como Turner para pintar um pôr-do-sol, ela precise de 500 cores na paleta. Todas Manolo Blahnik, claro.
filmes inteligentes e tal
Eu gosto de filmes em que todo mundo é inteligente. Por mim, até a camareira citava Bergson. Mas nunca entendi bem o que desagrada tanto alguns críticos em ficar duas horas na companhia de personagens tão ou mais inteligentes quanto eles. Também não vejo nenhum problema, digamos, artístico nisso. Primeiro porque ninguém diz que é inverossímil um filme em que todo mundo é invariavelmente burro. Segundo porque se Rafael copiava os modelos melhorando, por que não pode o Antonioni?
Mas as pessoas têm alguma razão em reclamar quando a erudição é mais para mostrar a inteligência do diretor que a do personagem. Godard, como sempre, é o mau exemplo. Mesmo nos filmes legaizinhos do começo ele tem de enfiar um Rimbaud em algum lugar, e então em “Vivre sa vie” uma prostituta não se contém e deixa escapar um Je est un autre no meio dum inquérito policial e na cena final de “Pierrot le fou” a gente ouve a Anna Karina fazendo voz de quem está lendo poesia: Elle est retrouvée/ Quoi? L’éternité. Vejam como aí eu fico sabendo alguma coisa sobre o gosto poético do Godard – o que definitivamente não me interessa – mas muito pouco sobre a prostituta ou o que quer que seja o personagem da Anna Karina. Já se a inteligência fosse dos personagens, funcionaria melhor. Em “Gosford Park” funciona (até porque em “Gosford Park” dá para perceber a inteligência dos personagens mais na esperteza dos diálogos do que na quantidade de citações). Então parem de reclamar. Se um filme em que todo mundo é inteligente te parece inverossímil, não é o diretor que tem de trocar de personagens, você é que devia trocar de amigos.
canções para cantar junto
“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando leio Olavo e Gustavo Corção
É que quando eu fui ler Marilena Chauí eu nada entendi
Da relação historicamente determinada entre ideologia e infra-estrutura
Da interpretação marxista da alta-cultura
Ainda não havia para mim Adam Smith, nem em inglês, nem em tradução,
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando leio Olavo e Gustavo Corção.”
Hot tip:You can sing this song with a PC karaoke player!
With Microke you can sing Caetano Veloso songs and much more
See www.microke.com for details.
glauber rocha é uma maravilha
Uma das vantagens de não ler jornal é que você sempre fica sabendo com atraso das novidades do circo e consegue perdê-las a tempo. Por exemplo, foi só por este texto do Pedro Sette Câmara que fiquei sabendo que no mês passado alguém do Casseta e Planeta decidiu abrir a caixinha das verdades em público e dizer que “Glauber Rocha é uma merda”. Minha única reação foi tentar imaginar por que só agora teriam descoberto, mas parece que a revelação deixou muita gente chocada. Só numa pesquisa rápida no Google achei estas palavras de sabedoria:
- Eu sei, é covardia, mas não posso deixar de começar nos reinos inferiores dos seres vivos: esta discussão no Yahoo! Respostas. Descubro estarrecido que o episódio foi só mais um ” caso de preconceito contra nordestinos” e que Glauber Rocha ” deve ser bom,né. O cara ganhou premio e tudo”. Me fez duvidar se aqueles comentadores de blog burros que o Alexandre Soares Silva citava eram fictícios ou não.
- Nos comentários a este post (na verdade, o único decente que encontrei), nos explicam que obra de Niemeyer é ” linda, incrível, revolucionária” e que “quem diz o contrário é bundão, facistão (ainda existem!) que não admite que um “comuna” possa ser tão esperto”. Lembrei das conexões subterrâneas de Frank Gehry com o Partido Comunista Chinês, com o partido Cmunista Cubano, com a KGB a Segunda Internacional Comunista e ainda a família Pol Pot
- Mas la cerise du gâteau é este post do Rogério Skylab. Numa rápida pesquisa descobri que ele é um cantor, poeta e performer de São Paulo, além de candidato a artista doidão e a cara da minha professora de Artes no segundo grau. Claro que o dionisismo dele só daria para adivinhar pelo google. Opostdele diz isso:
“Ninguém é dono da verdade, tudo é opinião, mas o Sr Marcelo Madureira vai ter que aguentar agora o que o outro lado pensa da sua declaração. Só isso
“Eu acho que o “estado de cultura” é um estado de guerra. Tem os seus exércitos, os seus aliados… Se você tem peso cultural, você fala que o Glauber Rocha é uma merda, e tá tudo legal. Você vai rebater bem as investidas contra as suas declarações, terá aliados de peso e vai sustentar com fundamento as suas idéias. Enfim, será uma ótima polêmica. Mas se você não tiver peso cultural… vai parecer mesmo que falou merda.”
Umas décadas atrás, candidato a artista doidão tinha um discurso iluministazinho, cheio de defesas da liberdade e da justiça e de coisas bonititnhas. Era meio ridículo, mas as intenções eram boas. Já esse fala de lei do mais forte como se fosse a coisa mais natural. E é a coisa mais natural, mas eu pensei que uma das manias dessa gente fosse ir contra a natureza. Então é aceitável que persigam um coitado que, além de passar a vergonha de ser do Casseta e Planeta, tem de passar a vida se explicando? E tudo só porque ele tem menos defensores que Glauber Rocha? E tudo só por causa o Glauber Rocha? Bastante conformista para quem se pretende libertário.
O que eu admiro nesta gente que posa de libertário e que ameaça processar e que dirige “Amarelo Manga” é como eles formaram um consenso cultural muito mais forte e logo mais autoritário do que qualquer outro grupo no Brasil. Nem o parnasianismo, que eles consideram opressor. Apareciam charges horríveis chamando o Olavo Bilac de viado nos jornais da época. Nada acontecia. Hoje, se alguém diz publicamente sobre Glauber Rocha o que todo mundo fala privadamente, pode acabar processado. Agora, imaginem se a família do Olavo Bilac resolve processar todos os professores de literatura por o que eles falam dos parnasianos.
Ah, esqueci de lincar mais este sutra da imparcialidade celestial: o jornalista acha necessário começar explicando que a frase “Glauber Rocha é uma merda” não é tão ofensiva por ser uma metonímia para a obra. Ah, bom. Até porque o Glauber Rocha era uma pessoa, né gente?
ópera de pequim
Ano passado um amigo voltou da França dizendo que tinha visto um grupo de Ópera de Pequim assim, num cassininho em Paris. Foi o suficiente para ativar a região “Ó como odeio meu país” no meu cérebro e eu ficar sussurrando “Stranger in a strange land!” pensando que essas coisas não acontecem no Brasil. Nem seis meses depois tenho de engolir os meus resmungos vendo num outdoor uma apresentação da Ópera de Pequim no Teatro do SESI.
Quanto ao espetáculo? Nos primeiros minutos já percebi que não tinha muito como julgar o que estava acontecendo no palco e que a única coisa a fazer era me divertir (o que não achei difícil, d’ailleurs). Às vezes acontece comigo: se conheço mais ou menos uma arte, tendo a ficar ultra-vigilante para não deixar passar uma falha ou um grande achado. Numa ópera ocidental, por exemplo, não é muito difícil notar quando a soprano desafina, quando o tenor dá um dó de peito. Temos mais ou menos um parâmetro de comparação. Mas comparar com o quê um cantor de ópera chinesa? Gatas no cio ou portas rangendo, talvez. E, acreditem, essa ignorância é libertadora.
Fiquei com a impressão de que ópera chinesa é teatro modernista que deu certo. Como no teatro modernista, tem poucos elementos cênicos. Como no teatro modernista, tem distanciamento crítico. Como no teatro modernista, a estilização é escancarada, evidente. Mas ao contrário de boa parte do teatro modernista, não houve excesso de intelectualismo, e um gesto tinha de ser belo só por ser belo, um fraseado valia por si. Também ninguém nos chamou para participar no palco.
No mais, minha ida à Ópera de Pequim foi uma das realizações de um projeto (projeto não, que bobagem: digamos curiosidade diletante) de conhecer mais sobre essas culturas meio bizarras que aparecem em filme do Indiana Jones. Se a Fortuna não nos permitiu nascer num país cheio de guetos em que se come quebabe sujo ou se sacrificam vítimas humanas a Moloch, que ao menos as nossas estantes de livros sejam cosmopolitas. Já formei uma coleçãozinha de mitos celtas e hindus, poesia chinesa, poesia árabe pré-islâmica, filosofia e poemas sufistas, alguma coisa japonesa (além de Haikai, meio óbvio, um pouco de Manyoshu e de mitologia). Estou comprando o que mais aparecer de arte e literatura oriental. Menos “O Livreiro de Kabul”, qua daí já é sacanagem.
conselhos sentimentais para uso de meninas e de alguns rapazes também
Uma garçonete de café com quem eu às vezes converso. Reclama da canalhice do namorado. Lembro dela contando como o conheceu: numa boate duvidosa, depois ele serviu café da manhã na cama. Logo vi que ia dar nisso. Não pela boate duvidosa, claro, mas pelo café da manhã na cama. Serviu café da manhã na cama na primeira noite, pode escrever, é cafajeste. Não só porque um homem que não tem pudor de servir café da manhã na primeira noite não deve ter pudor de fazer mais nada. Mas é mais aquela sabedoria psicológica típica de cafajeste, ia dizer de moralista francês: chegar aonde se quer en flattant l’amour-propre d’autrui. A mulher que recebeu café da manhã na cama na primeira noite sempre pensa que recebeu café da manha na primeira noite porque ela mesma é “muito especial”. Nunca ocorre a ela que outras mulheres já podem ter sido alvo daquela gentileza tão generosa, nem que outras mulheres com certeza também serão – muito menos que não foi realmente uma gentileza, mas sim uma estratégia de cafajeste.
Para distinguir uma gentileza de uma estratégia de cafajeste é muito fácil. Imagine a música do Dom Juan de Marco no fundo. Agora imagine um homem puxando a cadeira para uma mulher no restaurante, deixado ela entrar primeiro no táxi. Não fecha muito bem com o fundo musical. Agora imagine um homem levando café da manhã na cama, mandando carro de som para conquistar suburbana. Isso não só fecha com a música do Dom Juan de Marco como provavelmente a trilha sonora no caso do carro de som vai ser Dom Juan de Marco.
(Acho mesmo que música bagaceira de fundo serve muito bem para distinguir virtudes altas de paixões baixas. “I’m Still Loving You” dos Scorpions para diferenciar dor de amor verdadeira de crise histérica; música folk para separar seriedade da mera vontade de fazer dormir)
o amor em 2008
Entrar ao mesmo tempo nas comunidades “Quero um amor para toda a vida” e “A fila anda”.

