…um 2008 farto…

…cheio de paz e harmonia…

…sempre na companhia da família e dos amigos…

…e recheado de surpresas agradáveis.

Arquivo de dezembro de 2007
aubrey beardsley wishes…
rômulo e rêmulo
Alguém Que Não Se Deve Contradizer já percebeu que só um caráter profundo consegue ser perfeito na frivolidade, porque só um caráter profundo consegue levá-la a sério. Pode ser, mas, além dessa inteligência para a frivolidade, existe uma inteligência no que é frívolo – uma inteligência que se ilumina quando trata de coisas efêmeras e risonhas e que se ofusca quando incide sobre o que é sério e universal. Vejo cada vez mais pessoas absolutamente brilhantes ao falarem de festas e compras e músicas da Madonna. É gente que julga com severidade de um Paul Valéry por que Vogue é superior a Ray of Light e que quase toca uma regra de estética Renascentista ao criticar um corte de cabelo. Agora, que o assunto da mesa não passe para religião ou história romana. É quando tentam parecer eruditos que a sua frivolidade fundamental se trai, e eles sempre acabam dizendo que já leram sobre Rômulo e Rêmulo e confundindo Epifania com alguma nova técnica de alongamento capilar.
o nosso amigo cânone
O máximo de ruim que consigo pensar sobre o cânone é que para quem tem um mínimo de sensibilidade artística ele não atrapalha e para quem não tem a mínima ele até ajuda. Ninguém que realmente gosta de pintura vai passar a amar um quadro só porque a tradição disse que ele deve. Já quem não leva muito jeito com a coisa, se ler um pouquinho, tem menos chance de perguntar numa mesa de amigos arty se Cézanne é uma marca de louça para banheiro.
Mas me parece mais agradável amar o que está fora do cânone. Não porque está fora – o que seria tão filisteu quanto amar o que está no cânone só porque está no cânone – mas quando você descobre de repente que, tipo assim, um dos seus poetas favoritos hoje não recebe atenção nem na academia. É a sensação de estar sozinho com o ser amado, sem um monte de gente em volta elogiando o que você quer descobrir por si mesmo que é elogiável. Claro, sempre tem umas sensibilidades sutis para lembrar que isso talvez não seja tão importante, que mesmo se todos os seus colegas de escritório lerem o seu clássico preferido cada um vai criar mentalmente o seu próprio texto e blá-blá-blá, mas isso me soa convincente como o consolo de que não há muito problema em todos seus colegas de escritório cobiçarem sua namorada já que cada um vai ter uma versão diferente dela na cabeça depois de levá-la para a cama.
Há nem um ano, por exemplo, comecei a ler a poesia de Jean Cocteau, mas acabo de descobrir por este artigo excelente que ninguém mais lê “Plain-chant” ou “Um Ami dort” ou outros poemas que me fizeram colocá-lo na Galeria dos Homens Altamente Invejáveis. Primeiro me veio uma sensação de stranger-in-a-strange-land, de ó-tempora-ó-mores e tudo o mais que pensamos para inflar a nossa vaidade quando encontramos um descompasso entre o nosso gosto e o mundo. Mas depois senti um quase alívio. Se é tão raro assim achar alguém lendo Cocteau, dificilmente vão se formar em torno dele aquelas comunidades de gosto meio chatinhas que circundam Cortázar e Samuel Beckett, por exemplo.
Agora, por que Cocteau hoje é pouco lido como poeta? Talvez porque ele seja bom demais para a nossa época. Aconteceu com Paul Verlaine, com os irmãos Goncourt. Nossos contemporâneos preferem artistas de idéias, não tanto artistas de estilo. No caso de Cocteau, o caso é ainda mais grave. Boa parte do que se expõe ou escreve atualmente é influenciada pela arte de gente que pertenceu a movimentos e escreveu manifestos e aderiu a programas. Já Cocteau sempre se manteve um individualista orgulhoso de si, flertando com todos os movimentos, mas não aceitando por completo nenhum. Ele realmente achava que se um poema se impunha como um soneto, devia ser escrito como um soneto; se uma semana depois outro poema aparecesse em verso livre, devia ser feito em verso livre, e muitas vezes num verso livre bastante radical, quase Apollinaire. Numa época que confunde estética com teorema, um artista tão preocupado com a Obra e não com a Arte só pode ser desacreditado como “frivolous queen” mesmo.
experussionismo abstrato
Toda perua que expõe no Moinhos de Vento faz expressionismo abstrato. Um be-bop frenético tocando enquanto Franca Idelli expressa seu atribulado mundo interior atirando em transe sobre a tela em branco camadas e mais camadas de tinta colorida. Ah, os Jacksons Pollocks que se equilibram ignotos naqueles saltos doze!
Todas também trabalham muito bem com cores.

As manchas escuras representam…
Mas existem maneiras mais sofisticadas de peruas fazerem arte moderna, e mesmo pós. Sei de uma que o marido pinta o fundo da tela, o filho pinta ao redor da moldura, e depois da novela ela vai lá e pinta uma silhueta de mulher lânguida e assina. Contestação pós-moderna do estatuto do autor, claro.
the wit and wisdom of quentin crisp

If one is not going to take the necessary precautions to avoid having parents, one must undertake to bring them up.
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The whole set of stylisations that are known as “camp” was, in 1926, self-explanatory. Women moved and gesticulated in this way. Homosexuals wished for obvious reasons to copy them. The strange thing about “camp” is that it has become fossilized. The mannerisms have never changed. If I were now to see a woman sitting with her knees clamped together, one hand on her hip and the other lightly touching her back hair, I should think, “Either she scored her last social triumph in 1926 or it’s a man in drag.”
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I now know that if you describe things as better as they are, you are considered to be romantic; if you describe things as worse as they are, you will be called a realist; and if you describe things exactly as they are, you will be thought of as a satirist.
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Some years ago, in a New York house the windows of which were never opened, two brothers lived. One of them became blind and partially paralyzed. Toward the end of his life he never went out at all; the other left the house briefly to buy food and newspapers with which, after a while, the rooms were piled so high that the place was transformed into a network of canyons from one strategic point to another. To keep out intruders every inch of this labyrinth was mined with booby traps. One day one of these was set off by accident. When, months later, the corpses of the brothers were found, one of them was still sitting up in bed waiting for the other. The second lay only a few yards away, pinned by tons of newsprint to the floor. Even before he was quite dead, the rats had begund to gnaw at his body.
In a sense this was the way I lived, this the fate that overtook me. The place where no harm can come is the place where nothing at all can come. Here i stood. In the end the habit of taking no notion of those that hated me diminished my perception to the point where I became impervious to influence of any kind and therefore to all change except decay.
(do livro “The Naked Civil Servant”)

