Arquivo de outubro de 2007

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Aqui, ó: horror de quem bebe Moscatel.

sábado, 27 de outubro de 2007

little shop of horrors

Desde criança, sempre quis uma dessas. Minha mãe que não deixava; não queria limpar, dar água, dar comida, cuidar para não pegar doenças. Mas hoje estava passando perto do brique, e tinha um senhor vendendo várias delas em caixas, e não resisti. Parei olhando aquelas fileiras de dentinhos que pareciam me sorrir e levei uma para casa. Ia pensando nas vantagens de enfim ter alguém a quem amar que não iria embora, até porque não poderia mesmo. Quando cheguei em casa, finalmente deixei ela trancada no terraço, satisfeito. Agora eu tenho meu bichinho de estimação.

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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

quentin crisp

Queria linkar algum texto biográfico sobre Quentin Crisp, mas absolutamente todos que achei só falavam de como Quentin Crisp passou a vida toda apanhando e ouvindo palavrões dos malucos homofóbicos de antes dos anos 60. Às vezes dou graças a Deus por os gays brasileiros serem tão iletrados; só assim eles poupam os escritores gays daqui de virarem as vítimas favoritas para as causas deles.
No geral não gosto muito dessas vidas cheias de drama. Ontem vi “Piaf”, muito bem feito, mas o problema de biografia é que só se faz biografia sobre gente que perde filhos tragicamente e sofre acidentes horríveis e morrem viciados na droga da moda. Quando é que vão fazer uma biografia sobre Wateau? E sobre Monet? Seria quase ultrajante passar duas horas vendo a vida de sujeitos que escreviam ou pintavam cinco, seis horas por dia, depois saíam por aí para dar uns passeios.
Quase transformaram a vida de Quentin Crisp numa tragédia do tipo. É verdade que o sujeito nos anos 20 levava objetos na cabeça por andar nas ruas de Londres com as unhas – dos pés – pintadas e outras coisas bonitas. Mas quando os gays começaram a “exigir seus direitos” nos anos 60 e sondaram Quentin Crisp para se tornar a madrinha da bateria deles, a resposta que ele deu foi clara: “I don’t think anyone has any rights. I think you fall out of your mother’s womb, you crawl across open country under fire, you grab at what you want, and if you don’t get it you go without, and you flop into your grave. So, you have to make up your mind whether to grab what you want, fight for it, or ask for it. Now if you’re in a minority, the only thing you can do is ask for it, because otherwise you will lose.” Depois ele passou os anos 80 e 90 inteiros tendo de se desculpar por isso. Que tristeza deve ter sido ter um pouco de espírito entre os anos 60 e a internet.
Então aqui vai uma seleção de citações de Quentin Crisp, algumas tiradas de “The Naked Civil Servant”, que estou lendo com um prazer que não tinha há tempos com livros.
E aqui a última apresentação do seu pocket show um pouco antes de ele morrer, em 1999.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

o ponto certo para parar de beber:

Um pouco depois de perder a vergonha de fazer qualquer coisa, um pouco antes de começar a fazer qualquer coisa que dê vergonha.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

50 cent

Esses dias me perguntaram qual eu achava que era a fórmula do gênio. Respondi que não sabia e que, mesmo sabendo, não ia contar para qualquer um. Mas talvez não fizesse a mínima diferença. Porque talvez razão mesmo tenha a teoria tradicional: você nasce, vem um anjo e coloca uma moeda na sua boca. Se você recebe uma de dez centavos, tudo bem: vai fazer concurso para o BNDES, escrever crônica. Se você ganha um Talento inteiro, com sorte pode fazer alguma coisa decente. O problema é ganhar 50 centavos: o sujeito é só um pouco melhor que a turma dos dez centavos e passa a vida acreditando que faz parte do clubinho restrito do um Talento.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

alguns modos inaceitáveis em público

- Deixar farelos de mil-folhas no prato;
- Atender o telefone com um “alô”;
- Ouvir headphones em público;
- Cruzar as pernas em público;
- Cruzar os braços em público;
- Cumprimentar a mãe de um amigo com um “Olá, velha suja!” em público;
- Trocar o telefone de mão e se sentar na cadeira mais próxima sem pedir licença à pessoa com quem se está falando;
- Na hora do café, deixar um ângulo de 35 graus entre a xícara e o queixo ao levar a xícara à boca;
- Engraxar os sapatos com a mão esquerda, se pentear com a direita e depois dirigir com ambas as mãos;
- Pessoas que usam garfo e faca em diferentes mãos;
- Pessoas que se masturbam trocando promiscuamente de mãos;
- Pessoas que usam ambas as mãos;
- Pessoas que têm ambas as mãos;
- Pessoas que apontam na rua e fazem piadas e riem sarcasticamente quando encontram alguém que tem ambas as mãos, mexendo os dedinhos e unindo as suas mãos em forma de borboleta.
(Etiqueta Simples e Prática, Ed. EDUSP, 865 páginas.)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

hotel de rodoviária

Poderia me estender sobre os detalhes que não me agradaram muito nesta versão para o cinema em geral legalzinha de Vanity Fair, mas o principal é que se trata de um filme. Não, não é só que o cinema empobrece os personagens de um romance, condensa um monte de informações que dão brilho um livro como Vanity Fair. Mais é a promiscuidade da coisa toda, ver um ator que tinha feito o paizão batalhador ou o jornalistazinho engajado num filme antes de repente encarnando um Charles Swann, um George Osborne que você tinha imaginado com tanto carinho na solidão do seu quarto. Só que atores são assim mesmo, quartinhos de hotel de rodoviária que um personagem qualquer ocupa por um tempo, dependendo de quanto pagam. Só o que me entristeceu nessa versão de Vanity Fair foi ver a minha Becky Sharp hospedada num hotelzinho pulguento da Voluntários da Pátria.
(Não que Reese Witherspoon seja má atriz, não mesmo. Mas é que ver um grande personagem, como acontece no cinema, é muito menos prazeroso do que imaginar um grande personagem, o que um romance nos força a fazer. Por mais que um personagem pareça vivo, na literatura existe sempre uma distância respeitosa entre ele e o leitor – nós sabemos que Rebecca Sharp é só um amontoado de letras no papel. No cinema a relação com o personagem é mais direta, você vê a Rebecca Sharp ali na frente, como se pudesse tropicar com ela na feira. Por isso mesmo ela parece mais real, e mais comum.)
O mais triste, porém, é quando um personagem se instala num ator e não larga mais o quartinho. Vejam o Jonathan Rhys-Meyers. Me dói muito falar mal do Jonathan Rhys Meyers. Ele tem uma daquelas belezas masculinas que eu aprecio – sexualmente meio ambíguas, mas sem caetanice, sem nada de meigo. Pelo contrário até, alguma coisa de vilain garçon. E, no entanto, desde que ele fez David Bowie (imaginem aspas aí) em Velvet Goldmine, todos os personagens dele são meio perversinhos e arrogantes e têm cara de quem assedia serviçais na mesa da cozinha. Síndrome de Malcolm McDowell, eu diria. O George Osborne dele nessa versão de Vanity Fair lembra o David Bowie de Velvet Goldmine até no corte de cabelo, e eu estava vendo a hora em que ele ia agarrar o gordinho que faz Jos Sedley como se Jos Sedley fosse um Iggy Pop que comeu muito Amendocrem.
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Reese Witherspoon é meio feia, mas depois desse filme eu viveria com ela por um dia.