Uma mesma obrigação não nos atormenta do mesmo jeito em duas fases diferentes da vida. Acabo de fazer pela terceira vez 23 anos, e montar a lista de convidados foi tão trabalhoso quanto no meu aniversário de 16. Mas se no segundo grau o que me incomodava era saber quantos viriam, o problema agora era ter uma idéia precisa de exatamente quem. Uma questão de qualidade, não mais de quantidade: sabia que dezesseis pessoas iam aparecer, mas eram dezesseis pessoas muito diferentes entre si. Só haveria portanto uns três de cada grupo que freqüento; precisava calcular com sutileza quem chamar com quem. No segundo grau é fácil: as criaturas do colégio, as do clube. Mais tarde nós começamos a freqüentar gente tão diferente entre si que uma lista de convidados dá tanto trabalho quanto um menu de jantar na embaixada. E então se só uma das meninas arty de bom gosto aparecesse, com quem ela ia falar mal da Bienal? Certamente não com o hipster de clubinho que, como toda pessoa frívola quando deparada com alguma coisa pretensamente séria, devia olhar para aquelas instalações com o respeito de índios por trabucos. E literatos? Com quem misturar literatos senão entre eles mesmos?
No fim, o problema qualitativo foi resolvido pelo de quantidade: não só todas pessoas de todos os grupos estavam presentes, como também gente que nem convidei. No todo consegui juntar ao redor de uma tábua de frios alguns elementos decorativos fundamentais para uma festa divertida:
- ao menos 01 (uma) garota excessivamente bonita;
- um casal gay (de preferência inter-racial);
- um casal heterossexual com alguma profissão bem suburbana – tipo, ele representante comercial, ela professora primária. Geralmente o casal heterossexual com alguma profissão bem suburbana vai embora cedo e vira motivo de riso pela cara dele ao ver o casal gay se acariciando ou pela dela ao perceber o marido admirando a garota excessivamente bonita;
- 02 (dois) jovenzinhos de pretensões literárias, um espirituoso mas sem talento, outro talentoso mas chato. O ideal seria uma arena para ficar apreciando os dois invejarem um no outro os dotes que não têm;
- outra garota excessivamente bonita, mas estranha;
- total ausência de um violão;
- um blogueiro fofoqueiro para contar tudo depois sob o nome de observação psicológica – no caso, eu mesmo – e a certeza de que nenhum deles vai ler este blog depois.
Queria também agradecer espiritualmente pelos presentes que me deram os amigos que conhecem meu gosto e aos que não conhecem pelos presentes que esqueceram. Deviam entender que não sou tão difícil de presentear assim; é só me dar uma coisa velha, que nem numa Campanha do Agasalho. “Les objets neufs font peur avec leur hardiesse criarde“, como dizia Mallarmé. Este ano ganhei: um bule antigo de porcelana; uma caneca inglesa para chá; fumo para cachimbo; um reloginho alemão do início do século (parado, evidentemente); um vinil da Grace Jones; uma camisa de marinheiro – essa bem novinha, mas com um ar de San Remo-1959. E que todo o ano seja assim, os antiquários de Porto Alegre se desembuchando das bugigangas todo ano no fim de setembro.
Ganhei também muito chá. Os brasileiros ainda estão se acostumando com a cultura do vinho, mas a do chá ainda é totalmente estrangeira por aqui. Percebi isso pela quantidade de chás exóticos que recebi: chá descafeinado do Burundi misturado com caramelo; chá com rosas, chá com jasmim; chá defumado da China, chá frisante do Ceilão. Quando na verdade os únicos chás realmente chás são o preto ou o verde (oolong e branco são variações). Mas presentear com chá preto ou chá verde ainda parece deselegante para brasileiro; tem que ter “algo a mais”, alguma mistura. Podem acreditar, dar um saco de puro Darjeeling Castleton Segunda Colheita não é a mesma coisa que dar uma caixa de Chá Prenda Minha, verdade mesmo…
Só que tantos bons presentes não aplacaram minhas desconfianças. Todos chegaram com no mínimo uma hora de atraso. Uns disseram que foi por causa do trabalho; outros que tinham ido ao teatro. Não sei, mas a festa tendo sido sexta, acho que se atrasaram para descobrir quem matou a Taís.
Arquivo de setembro de 2007
lista de presentes
o melhor leonard cohen é o dos 80’s
Tenho horror a canções folk. É muita pretensão um sujeito achar que vai me entreter só com um violão e uma voz quase sempre fanha. A platéia também: gente que tenta levar música a sério, mas não conhecendo nada além de música popular, acaba ouvindo Joan Baez como se fosse Maria Callas. É como um apreciador de chá se esforçando para apreender as sutis diferenças entre um Mate Leão e um Dr. Oetker.
Para mim é simples: música pop tem que dar para fazer dancinhas. Quem quiser contatos imeditados com o Ideal, que vá escutar Debussy. Só descobri como “A Hard Rain’s Gonna Fall” do Bob Dylan é uma grande canção depois de ouvir esta versão de Bryan Ferry, com corinhos e sintetizador e efeitos de sonoplastia, que dá para fazer dancinhas no quarto e tudo:
A própria música brasileira seria mais interessante com menos Banquinho-Violão, mais efeitos de sonoplastia. Conto com a boa vontade do Cansei de Ser Sexy para contribuir com a cultura nacional e fazer covers de “Corcovado” e “Chega de Saudade”.
revolução brummelliana
(Essa é a imagem de que mais gosto de uma antiga enciclopédia da minha mãe, sobre a Evolução dos Trajes no Brasil. Quando era criança, dei um nome a cada um dos moços aí de cima; lembro que o nome do senhor de 1830 era Dom Bigodinho de Cajal e a dama de 1825 se chamava Dona Candonga. Também está nessa imagem uma boa parte das minhas mudanças de gosto: aos 10 meu modelo favorito era o cavalheiro de 1750; aos 15, o homem de calça xadrez de 1845 me lembrava o romances de Balzac; a uns três anos atrás, a austeridade do casal de 1880-1885 era o que mais me agradava, mas agora descubro um charme cada vez maior na elegância simples do casal de 1944. São os efeitos da Revolução Brummelliana.)
the wit and wisdom of bunny roger
O costureiro, socialite, veterano de guerra e décor vivant das festas de Londres dos anos 30 a 90 Bunny Roger tinha parado num terno de tweed ultrajante para atravessar a St. James Street quando um taxista truculento passou gritando: “O colar de diamantes caiu, boneca!”. Ao que Bunny Roger respondeu sem demora: “Diamantes com tweed? Nunca!”.
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Depois de lutar na Segunda Guerra, Bunny Roger foi visitar um amigo num monastério em ruínas em algum ponto remoto da Itália. Ao ver Bunny Roger chegando, o amigo não pôde conter um “O que você está fazendo aqui?”, respondido imediatamente por: “Compras”.
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Todo o tempo em que passou nas trincheiras da Segunda Guerra, Bunny Roger passou de uniforme – e rouge. Um dia, percebendo o avanço rápido das tropas inimigas, o comandante da divisão em que estava se voltou para um dos seus soldados mais corajosos: “E agora, Mr. Roger, o que eu faço?”. “When in doubt, powder heavily“, foi o conselho.
três truques para tradutores
- Não, tradutor latino-americano!: coup-d’état não se traduz por “eleição”.
- Deixe a palavra wit em itálico e em língua original. Assim como o nome duma planta exótica do Nepal, wit se refere a um objeto que não existe no Brasil.
- Se você tem um poema em metro curto com a palavra storm, que em português daria “tempestade” e consumiria metade do verso, o único jeito é traduzir por “toró”. Gee! The great storm is over! de Emily Dickinson fica bem como “Gente! O toró passou!”.
the sortorialists
Estava falando no outro post sobre a rabugice francesa, e achei esses dois ótimos sites sobre elegância masculina que exemplificam bem a diferença que eu forcei entre anglos e gauleses: um é o A Suitable Wardrobe, escrito por um americano da Califórnia; outro é o Faubourg Saint-Honoré, assinado por um parisiense. Os dois são igualmente bem escritos e igualmente esnobes, mas enquanto o A Suitable Wardrobe é esnobe falando bem do que é bom quase simpaticamente (sapatos John Lobb, ternos Zegna), o Faubourg Saint-Honoré o é resmungando do que é ruim (os ternos de 90% dos políticos franceses, por exemplo). Essa diferença, aliás, é perceptível desde as origens do dandismo na Inglaterra-Estados Unidos e na França: enquanto Beau Brummell era conhecido como um minimal wit que fazia piada com poodles e ervilhas, Barbey d’Aurevilly passou a vida gastando o sarcasmo com as massas e a Revolução Francesa. Escreveu “Les Diaboliques”, está certo; mas e a úlcera?
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Descobri o The Sortorialist através do Faubourg Saint-Honoré. The Sortoriolist é o The Sartorialist de quem se veste mal. Ia fazer sucesso no Campus do Vale.
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Aqui, uma lista com os 25 Most Stylish Films. Já esperava: North By Northeast, com o clássico terno cinza de Cary Grant. Me surpreendeu para o mal: Trainspotting e um filme de hippie lá que eu não conheço, mas que tem como grande sofisticação sartorialista jaquetas com franja e bandanas. Me surpreendeu para o bem: In The Mood For Love, do Wong Kar-valho, que tem de fato um figurino impecável. Filmes que não estavam lá mas deviam: The Great Gatsby, pelo excelente guarda-roupa do Robert Redford e The Band Wagon, com Fred Astaire usando um dos mais belos ternos claros que já vi.


