O filme com mais personagens interessantes por enquadramento da História deve ser Les Enfants du paradis, de Marcel Carné (no Brasil, O Boulevard do crime). Está passando no Santander Cultural; quem estiver em Porto Alegre, por favor vá assistir. Claro, reserve uma noite: o filme tem três horas. E Trabalho de Sopro dá os ares; um dos personagens diz: “Je me bats demain à l’aube” (Tenho um duelo amanhã ao amanhecer), devidamente traduzido por “Tenho um duelo amanhã com um lobo”. Aliás, se é sempre um pouco torturante comparar o que está nas legendas com o que os personagens dizem no original, mais ainda aqui: o roteiro é de Jacques Prévert. As falas são cheias de nuances e toques de wit que a legenda corta a facão. Mas vale pelos personagens: o ator ambicioso que quer fazer Paris, o mímico romântico – e um pouco chato, é verdade -, a ex-prostituta tornada grande dame, o conde espirituoso que fala mal de Shakespeare o tempo todo, o bandido artista, na linha do excelente Vautrin do Balzac. A época em que a história se passa deve ser um dos motivos para tantos personagens de que eu gostaria de ter réplicas junto com a minha coleção de Smurfs; Paris dos 1830 devia ser realmente uma estufa de excêntricos.
A primeira coisa que pensei da primeira vez em que assisti a Les Enfants du paradis, e que penso sempre que assisto, é: o que aconteceu com a cultura francesa depois dos anos 40? Porque sou mais ou menos francófilo até a Segunda Guerra. Podem dizer o que for sobre a superioridade da cultura anglófona sobre a francesa no século XX, mas no século XIX quem criou os melhores romances e a melhor poesia e a melhor pintura foram os franceses. A Inglaterra pode ter tido Jane Austen e Dickens e Thackeray, mas a França teve Balzac, Stendhal, Flaubert, Zola, Huysmans, Barbey d’Aurevilly. Só Balzac já chegava. Em poesia os americanos tiveram Poe e Emily Dickinson; os ingleses, Keats. Mas os franceses tiveram o maior lírico do século, Baudelaire, e ainda Hugo e Gautier e Verlaine, isso sem contar Corbière e Laforgue. Em pintura, então; comparar chega a ser covardia. Mas depois da Segunda Guerra a decadência veio e veio rápido. Otto Maria Carpeaux tinha detectado esse esmorecimento da cultura já em 1946, num pequeno artigo para a Revista Província de São Pedro. Que francês escreveu poesia melhor que Eliot e Wallace Stevens? E no romance? Proust ocupa para mim no romance o lugar que Baudelaire ocupa na poesia, mas Proust é um fato isolado, e pertence tanto ao século XIX quanto ao XX. Depois de Proust, que escritor de talento teve a França no século XX? O vesgueta? O homem revoltado? O fato é que a França não teve no século XX nenhum Somerset Maughan, nenhum Evelyn Waugh.
É difícil entender direito o que aconteceu. Foi orgulho ferido pela derrota na Segunda Guerra? Foi o resultado de alguma tendência auto-destrutiva da própria cultura? Talvez, e muito provavelmente. Uma espécie de vírus resmungão que começou a tomar conta da França no século XVIII, encontrou alguma resistência no século XIX, mas depois da década de 30 destruiu as últimas barreiras e infectou o corpo inteiro; daí o existencialismo e o nouveau roman. O fato é que o traço cultural mais típico da França tradicional, a joie de vivre , que é a alegria com coisas puramente sensórias e efêmeras e irresponsavelmente prazerosas como um bom camembert ou uma bela aliteração, essa joie de vivre foi sendo preterida por tarefas mais urgentes como libertar o Homem dos grilhões da Sociedade ou reinventar a arte a partir de alguma teoria genial. Voltando a Les Enfants du paradis para acabar o post como comecei e agradar a professora de redação, esse e alguns outros filmes do Marcel Carné são a lembrança feliz de um tempo em que os franceses sonhavam com a Lua em vez de um Outro Mundo Possível.
Arquivo de agosto de 2007
o boulevard do crime
é hora de escrever meu testamento
Não tenho opinião sobre Caetano Veloso. Nem quando ele usou saia. Nem quando ele disse que Osama Bin Laden era bonito. Mas não ter opinião sobre Caetano Veloso por si só já é uma ofensa ao Caetano Veloso. Caetano Veloso me parece aquele tipo de bicha que pensa que todos ou o amam ou o odeiam, que é impossível ser-lhe indiferente. Tinha um amigo assim, e claro que estava cheio de gente que não estava nem aí para ele. Comigo é a mesma coisa: a importância de Caetano Veloso na minha vida é a mesma da cômoda da minha avó, com a diferença que Caetano Veloso range mais ao cantar. Ou a do Piauí, para usar a metáfora de irrelevância do momento.
Já a caetanice, a abstração das propriedades do objeto Caetano Veloso e a sua transfiguração em Espírito do Tempo, isso sim é um ideal negativo para a vida. Nem disso posso dizer que é culpa do Caetano Veloso lui-même. Todo homem tem o direito sagrado – e amplamente desfrutado – de ser idiota como bem decidir; já se o resto do Brasil resolveu imitar… Mas o fato é que meu respeito por alguém aumenta à medida que a pessoa num continuum se afasta do extremo Caetano Veloso de existência. No plano individual, essas propriedades se manifestam em: homens usando sandálias e tiaras, ambigüidade sexual induzida, excesso de palavras para pouco significado, violão e a atitude “tudo é divino maravilhoso”; no plano coletivo, auto-indulgência cultural. Claro que as duas manifestações de caetanice estão relacionadas, mas é a caetanice coletiva que mais me causa chair de poule. Quer dizer que brasileiros são pobres, sujos, salafrários, estúpidos, incompetentes e tudo isso não passa de peculiaridades nacionais? E eu pensando que os alemães é que tinham dado certo.
(Bom, talvez até sejam. Mas, escuta, nós não devemos reforçar as particularidades nacionais. Toda vez que tentamos reforçar as particularidades nacionais acabamos escrevendo “Macunaíma”, nos vestindo que nem a Regina Duarte, causando desastres de avião. Brasileiro bom é brasileiro entreguista.)
Digo isso porque sou alguém que teve a vida arruinada pelo Caetano Veloso. Eu vi os homens da minha geração serem eivados pela caetanice. Tinha o Marcos, meu único conhecido que admirava tanto “Os Nibelungos” de Fritz Lang quanto eu, que teve uma revelação ouvindo “Transa” e reapareceu usando umas calças de cânhamo. Tinha o Roberto Simões, que tocava o melhor deep house em Porto Alegre nos anos 90, mas que depois começou a mixar vocais de “Odara” entre as músicas e hoje em dia toca som lounge em raves neohippies. Tantos amigos afastados, tantos entes perdidos…
Os outros sobrevivem à caetanice geral como podem. Mas, acreditem, quando a próxima geração florescer, ela será anti-caetânica como a piada mais cretina de Evelyn Waugh. Os anti-caetânicos de hoje, que ainda estão mais ou menos em clandestinidade cultural, já são mais cretinos, entreguistas e traidores da brasilidade do que os de ontem. Vejam como Paulo Francis e Bruno Tolentino (só para citar dois dos que aparecem mais nos blogs da Resistência Anti-Caetano) soavam às vezes sentimentais, orgulhosos da cultura brasileira. Mas os dois eram mais ou menos jovens nos anos 50, época em que o Brasil pareceu que ia ser alguma coisa. Eu, que me criei nos anos 90, o que eu podia esperar? Revelação estética em “Carlota Joaquina”, num disco da Nação Zumbi? Por isso espero mais da geração vindoura de jovens entreguistas: “I choose young upstanding men that climb the streams until the fountain leap…” São eles que vão nos ajudar a transformar o Brasil num estacionamento. Já ouço os ventos da revolução nas porcarias nacionais que eles ouvem atualmente: na minha adolescência era mistura de rock com música regionalista; agora é Cansei de Ser Sexy, banda que tem uma japonesa nos vocais, toca elctro-thrash e canta em (mau) inglês. “I choose young upstanding men that climb the streams until the fountain leap…”
o filistinismo com boa consciência
“O gosto se faz de mil desgostos.
Em tudo o que é inútil, deve-se ser divino. Ou não se envolver.
A música me entedia ao fim de pouco tempo, e tão mais curto quanto mais intenso foi o efeito que teve sobre mim. É que ela atrapalha o que acabou de engendrar, pensamentos, clarões, tipos e premissas.
Rara é a música que não deixa de ser o que foi; que não deteriora ou atropela ou que criou, mas que nutre o que acabou de pôr no mundo, em mim.
Disso concluí que o verdadeiro connaisseur dessa arte é necessariamente aquele a quem ela nada sugere.” (Paul Valéry)
Partilhar um defeito com um homem superior pode não ser uma alegria, mas já serve como consolo: se você não sabe como é ter o seu gênio, está íntimo aos menos das suas deficiências. Digo isso porque, como para Paul Valéry, o prazer da música sempre me pareceu um tanto escorregadio. Foram poucas as vezes em que consegui apreciar todos os movimentos de uma peça estando plenamente consciente, sem algum torpor espontâneo ou induzido. A mais intensa, não faz muitos anos, foi pela manhã bem cedo; conversava com um amigo ouvindo um concerto para violino e piano de Mozart depois de uma festa e, no vértice do sono, quando o pensamento relaxa e as conexões entre as idéias se afrouxam, tive uma sensação súbita de que o ambiente tinha se dissolvido no concerto e os sons cresceram desmedidamente na minha cabeça. Cresceram porque encontraram ela vazia, claro. Já compararam a música com uma torrente, e me parece que para ela correr sem obstáculos é preciso que outra torrente cesse: o pensamento. Outras artes criam uma relação mais equilibrada com ele. A pintura, por estar fora do tempo, permite que eu passe no ritmo que quiser do sensorial à signifcação; a literatura, além de deixar livres idas e vindas no texto, sendo uma arte da palavra é também uma arte essencialmente do pensar. Já música e pensamento são duas sucessões e, correndo ao mesmo tempo, uma tende a se chocar com a outra: ou eu silencio a mente para escutar os ouvidos, ou não ouço bem nem um nem outro. Essa me parece a dificuldade que tipos muito literatos como Valéry têm com a música (Evelyn Waugh também não conseguia apreciar por muito tempo), a dificuldade de calar as palavras para deixar ecoarem os sons. Não que isso faça dela uma arte burra, mas é preciso mais racionalidade para criar uma sonata do que para ouvir uma sonata. Literatura já não é assim – menos a moderna, que se assemelha à música mas no sentido contrário: é preciso menos racionalidade por parte do escritor, que não faz mais do que lançar fragmentos de idéias, do que do leitor, obrigado a depois ficar colando os caquinhos.
o modernismo, esse malvadão
Toda a palestra de Peter Greenway em Porto Alegre foi sobre como o cinema deveria se concentrar nas imagens e deixar a narrativa para os romancistas. Mas aí lembrei de uma entrevista com um daqueles senhores divertidos do Nouveau Roman (Claude Simon, eu acho) na qual ele falava que o romancista devia se concentrar mais na descrição do que em contar histórias. Quem deveria então, para esse povo modernista/avant-garde, se dedicar à narração? Não poderiam ser os pintores; tenho sérias dúvidas quanto à possibilidade de se contar uma história atirando tinta na tela com o pinto ou desenhando quadradinhos milimetricamente irrelevantes e perfeitos. O teatro, talvez; mas minhas dúvidas aumentaram ainda mais lembrando que teatro é rito, o que quer dizer uma horda de bichas semi-nuas atirando carne crua e leite materno no público. A poesia, mais difícil ainda; há modernistas que chegam a ter dela só uma definição negativa: exatamente o que não é narrativa. A impressão que tenho é que, como só se conta uma história através de um meio (não existe narração no abstrato, sem a palavra escrita ou a imagem ou a encenação), e como cada arte segundo o modernismo devia se comprometer mais com o próprio meio do que com qualquer outro aspecto da obra, a presença de uma história não apenas é secundária como nociva para a criação do efeito estético mais elevado. Bobagem, claro. Levar as artes a esse nível de especialização (a pintura só deve investigar os meios da representação em duas dimensões; a poesia, os da “palavra” no sentido mais bobalhão da palavra), além de criar uma tirania intelectual totalmente arbitrária, não deixa lugar para a narração. Como os modernistas esperam (ou esperavam) que se conte uma história se eles mesmos consideram todos os meios materiais disponíveis (palavra, imagem, encenação) muito acima da tarefa mesquinha de trazer à vida Fausto ou Tristão e Isolda ou Hamlet? Por transmissão telepática de cadeias de ações? Uma platéia conectada por sondas mentais aos atores enquanto eles transmitem o Édipo Rei por simples atividade psíquica?
Mas a verdade é que tudo com o que esses artistas não se importam é a narração. E isso por – mau – elitismo estético, a idéia de que não ser compreendido coloca o sujeito automaticamente na galeria dos gênios, mesmo que na maior parte dos casos seja mais provável que numa turminha da APAE. A narrativa então é tudo o que se deve proscrir para ser devidamente incompreensível. Porque um bom enredo tende a tornar uma obra acessível. Ouvir histórias é o primeiro prazer artístico que a maioria das pessoas experimenta na vida, e em muitos casos o único. Qualquer integrante do U2 gosta de, e às vezes chega mesmo a entender, um conto dos Andersen. Mesmo o primitivo mais burro, burro de meter o dedo no ventilador para ver se corta, de usar clarinete como zarabatana, senta ao redor do fogo para escutar o velho da tribo contando as aventuras de um herói numa batalha mítica. Eu mesmo já testemunhei como uma boa história aproxima de obras sofisticadas o público mais desinteressado por arte. Assisti com um amigo highbrow, outro middlebrow, à Medéia do Costa-Gravas (errata: do Pasolini), com Maria Callas. Enquanto meu amigo highbrow ficou encantado com a beleza das paisagens e com a retórica da peça e aqueles detalhes que só a pretensão fazem perceber, o outro, o middlebrow, se deixou prender – e até mais do que qualquer um de nós – pelo lado Janete Clair de Eurípides.
Claro que admitir verdades simples assim não leva a qualquer tipo de populismo: a opinião do meu amigo highbrow, que conhece pintura e sabe grego e lê uns livros grossos e vive para isso, deve contar mesmo mais do que o outro que embarcou na alta cultura pulando a roleta (a não ser que o middlebrow seja naturalmente mais sensível à beleza, o que não é o caso). Mas o que me chama a atenção é que, de Sófocles a Balzac, se a beleza de um verso ou a profundidade de uma análise psicológica falavam a uma pequena elite capaz de perceber grandeza artística, uma boa história sabia atrair o povão, que às vezes podia mesmo levar para casa de brinde uma lembrancinha do Sublime. Com o modernismo, parece que as sensibilidades se dividem mais radicalmente: há a arte de massa – no geral somente uma história bem montada, sem beleza de estilo ou psicologia elaborada – e uma arte para especialistas, nas maioria das vezes somente com cenas bonitas e psicologias sutis, mas fraca de história. O resultado são de um lado os filmes de Peter Greenway, que só não são soníferos coletivos porque as salas estão quase sempre vazias, e de outro Homem Aranha e Missão Impossível, que eu prefiro porque são de alguma forma prazerosos, mas daquele tipo de prazer que se consegue também com uma hora de academia ou uma boa mordida de cheesecake. E tanto é assim que todas as tentativas de reunir os dois tipos de filme num só quase sempre deram com os burros n’água. Pensem em Matrix.

