“[Sobre a poesia brasileira no início dos anos 30] Era essa época de uma maciça importação francesa. Aquela poesia caudalosa, idealista, literária que se fazia na França e se importava por todos os lados nos países latinos – na Espanha não, que espanhol não compra produto francês – mas que vinha parar aqui: Portugal, Brasil. Isso não é um dos aspectos mais simpáticos da influência francesa no Brasil. Na época esse tipo de coisa que Claudel, Péguy, o próprio Saint-John-Perse e outras pessoas faziam muito bem chegava aqui de uma maneira meio aguada. O que Vinícius de Moraes está fazendo aí [num dos poemas lidos] é muito parecido com o que o Augusto Frederico Schmidt também fazia – Canto do Brasileiro, Canto da Noite, O Pássaro Cego – um negócio que nunca mais acabava, esses versetos bíblicos, etc. Francamente aquilo era sufocante. De resto, quando acertava em cheio com um verso ou outro, imediatamente começava a esvaziar no segundo verso.”
“Dona Cecília [Miereles], que era uma deusa olímpica, era uma pessoa que tinha uma comunicação extraordinária, como os cariocas têm. Ela falava com gente no elevador, onde fosse. Nunca começava uma conversa, claro. Olhavam para ela, aquela Minerva entrando no elevador. Aí ela sorria; e a pessoa dizia ‘Boa tarde.’ ‘Boa tarde, como vai a senhora, tudo bem?’ E a pessoa: ‘Ah, a estátutua fala…’”
“[Os paulistas] perderam a Revolução Constitucionalista e resolveram fundar a USP com a expressa intenção de colonizar o país culturalmente. Não podiam mandar no país; então ‘vamos acabar com a cabeça de todo mundo, vamos lavar a cabeça de todo mundo, de maneira que ninguém consiga escrever coisa nenhuma e tenha de nos ler’. Esse plano hegemônico paulista passou a ser um plano meramente intelectual; eles iam agora ler o Brasil e explicar o Brasil para nós. Não estou desfazendo da importância de São Paulo. É quem sabe fazer dinheiro; costuraram o Brasil. Tem uma função de umbigo, onde tudo converge. Mas umbigo está ligado a tripa e tripa está ligado à merda.”
(Trechos da divertidíssima palestra sobre Vinícius de Moraes que Bruno Tolentino proferiu em 2003 na Ufrj e que Pedro Sette Câmara mui gentilmente enviou por email.)
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Até ano passado, minha relação com a poesia do Bruno Tolentino era de indiferença desinteressada. Tinha lido há muito tempo uma entrevista com ele – não, não a da Veja – e fiquei com a impressão de que ele sofria de classicolatria, aquela doença do gosto que acomete autores muito cultos de citar como influência todos os clássicos da literatura universal em ordem alfabética. De alguma forma não me convencia. É impossível ser influenciado ao mesmo tempo e na mesma intensidade por Dante e Auden, Baudelaire e Homero: o verdadeiro gosto é idiossincrático demais para se satisfazer da mesma forma com todos os nomes numa lista de autores importantes. Fora as vezes em que o gosto nos faz preferir um poeta secundário a outro de primeira linha. O que nos faz amar tanto um poeta a ponto de escrever como aquele poeta é mais a importância que ele tem para nós individualmente do que a relevância dele para a cultura em geral.
Também o pouco que conhecia da poesia do Bruno Tolentino me deixava frio. Era obviamente bem feita, mas todos os poemas que li misturavam dois elementos que, se sozinhos podem ser agradáveis, juntos me afastam instintivamente: obscuridade na expressão e conteúdo metafísico. De John Donne a Fernando Pessoa, toda a grande poesia metafísica usa metáforas claras e concretas para demonstrar relações intelectuais, de maneira que os pensamentos mais abstratos se tornam perceptíveis pelos sentidos, quase tangíveis. Por azar, os poucos poemas do Bruno Tolentino que me tinham caído nas mãos eram jogos com palavras abstratas – “loucura”, “morte”, “palavra” -, apresentavam poucas das características que realmente me agradam na poesia desse tipo.
“Fica a alma curvada
sobre o esfarelamento
das palavras. Algumas
lhe hão de ser devolvidas
ao final. Quanto ao pão
que seria o alimento
e ficou sendo a fome,
mal fora dado ao homem
vertiginoso instante.”
Cada metáfora dessas é belíssima em si, mas para mim é um mistério a relação entre o pão e a alma “curvada sobre o esfarelamento das palavras.” Pode haver aí um caso de simbologia religiosa, ou quem sabe de simbologia privada do autor, à Mallarmé. Em todo caso, o significado dessa passagem é turvo como não acho que o significado em poesia deva ser.
Até que uma vez, numa livraria, abri “A Balada do Cárcere” (de onde veio o poema acima) exatamente na parte que descreve a prisão de Dartmoor:
“Seis formidáveis frontões
de uma era já distante:
cinco andares, seis portões,
o nada mais adiante
e a angústia de gerações
como inquilina constante.”
E, pronto, ali havia poesia de primeira grandeza. Comprei o livro na hora. A maneira com que Bruno Tolentino nessa estrofe consegue passar uma idéia estritamente física da prisão – os “seis formidáveis frontões”, os “cinco andares, seis portões” -, ao mesmo tempo em que descreve a atmosfera psicológica do lugar (“a angústia das gerações”, “o nada mais adiante”) faz o que eu espero de qualquer coisa que mereça o nome de “grande poesia”: apresentar para o leitor um objeto, uma idéia, uma sensação de forma que ele consiga apreender esse objeto, essa idéia, essa sensação como algo imediatamente presente. Isso não quer dizer poesia fácil, claro; dificilmente alguém lendo essa estrofe pode pensar no tatibitate que às vezes aflora nas antologias do Manuel Bandeira ou do Ferreira Gullar. O fato é que, com toda a complexidade de linguagem do Bruno Tolentino, essa descrição imprime na sensibilidade do leitor uma sensação vívida. Lendo o restante do poema consegui imaginar perfeitamente o clima lúgubre, austero da prisão, os homens que vagavam por lá, a decrepitude do Numeropata (o personagem principal do livro, para quem ainda não leu).
Quanto à classicolatria, desfiz minha impressão. Classicólatras terminais preferem morrer a chamar de “porre” poema de autor famoso como faz o Bruno Tolentino com a “Ariana, a mulher” do Vinícius de Moraes na palestra da Ufrj.
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De resto, pena que só fui ler com mais cuidado a poesia do Bruno Tolentino um ano antes de ele morrer. É um detalhe potencialmente embaraçoso: lembra aquelas criaturas que só lêem um autor depois de morto ou quase, de forma que é o coitado entrar na UTI que as vendas dos livros já aumentam. Mas, acreditem, juro que eu não sabia. O Bruno Tolentino, também; podia ter esperado mais um ano e me poupado de dar explicações.
Arquivo de julho de 2007
mad professor
calungas suicidas
Porto Alegre é a capital do Brasil com maior taxa de suicídios. Também é a que tem maior índice de verticalidade. Se as pessoas se matam por causa dos prédios altos e feios ou se as construtoras fazem prédios altos e feios exatamente para facilitar a tarefa ainda é uma questão controversa nos meios científicos sérios. Fato é que os arquitetos, junto com os bonequinhos para 3D do executivo fazendo cooper e da criancinha brincando no playground, já têm o da adolescente deprimida se atirando da cobertura. Décimo quinto andar, bela vista sobre a cidade.
O ridículo de certas palavras auto-importantes
Um blogueiro espinhento que escrevia num blog coletivo briga, faz beiço, fica brabinho com os colegas, e logo escreve que rompeu com eles. Como a imortalidade poderá ignorar um blogueiro que rompeu com outro?
dicas de etiqueta para café da tarde de pobre
- A mesa para café da tarde de pobre se insere numa longa tradição de etiqueta e boas maneiras que remonta à Baixa Idade Média. Por isso, todas as regras que presidem as etiquetas inglesa e francesa aqui também se fazem válidas. Garfos à esquerda, facas à direita (com a lâmina para dentro), copos (para suco de uva, para água da torneira) acima das facas. Retalhos de queijo lanche à esquerda; milho e ervilha em cremeirinhas à direita, sendo que, em ocasiões especiais, uma colher diferente pode ser usada para cada um, o que confere ao serviço um toque de charme e refinamento;
- Cuidado com os copos de requeijão! Não é porque você está bebendo Fanta Uva num copo só seu que você vai privar os outros convidados das maravilhas estampadas na série de Arte Brasileira ou de Animais do Pantanal que vêm no requeijão Danúbio ou Becel. Manter as ilustrações sempre voltadas para os outros componentes do goûter é marca de delicadeza e civilidade;
- Sacos de pão cacetinho devem ser servidos sempre em número de dois, um em cada extremidade da mesa. Se acontecer de um dos sacos serem de pão dormido, é de bom tom misturar a variedade nova com a variedade passada a fim de evitar que os convidados de uma ponta se sintam desfavorecidos;
- Mas esses cuidados com os utensílios não são nada se a superfície que lhes serve de fundo não receber cuidados semelhantes. Os desenhos de frutas tropicais nas toalhas plásticas devem formar linhas diagonais com os objetos sobre a mesa. Isso cria uma malha visual da qual os potes de Mumu e de chimia Ritter destacam-se como a Torre Eiffel e a Torre Montparnasse sobre os telhados de Paris. O mesmo se aplica caso a estampa contenha o nome das frutas em inglês, baianas com cestas na cabeça ou outros motivos étnicos;
- Atenção com os talheres. Diferentemente do que acontece na etiqueta tradicional, em café da tarde de pobre se começa com os talheres de dentro (para salgados), passa-se aos talheres do meio (para doces) e finalmente aos de fora (colheres para comer os farelos do pão). É extremamente deselegante colar os farelos nos dedos molhados com saliva e levá-los à boca quando existem talheres próprios para isso:
Esquema de café da tarde de pobre, com as frutas tropicais da toalha rigorosamente na diagonal
catfight aesthete
Ontem vi duas mulheres brigando na rua. Foi a segunda vez; a primeira foi no chão do Iguatemi em algum ponto dos anos 80. Como fora da tevê as mulheres brigam feio! Fazem careta demais, entortam a boca, abrem as pernas para se agarrar na outra, um desastre. Também um excesso de teatralidade, principalmente quando jogam o cabelo na cara ao levar uma bofetada. Aqueles tapas, aqueles arranhões, todos imitados de novela americana. E mal imitados, por sinal. Nada como as catfights de Joan Collins e Linda Evans em “Dinastia”, os clássicos absolutos do gênero.
medéia, um recital inaudível e um grand seigneur desoeuvré
Como desde o meio da semana não havia mais lugar para o Balé Real da Dinamarca na sexta, me consolei vendo Medéia sábado no Teatro São Pedro. Um pouco depois de ter comprado o ingresso antecipado, descobri que estava no currículo do diretor uma Antígona com música eletrônica e um Hamlet Sincrético. Tomei a precaução de levar dinheiro o suficiente para encher a cara de vinho no foyer caso me entediasse, mas surpresa!: saí do teatro limpo, a trilha sonora não tinha sequer uma música dos Beatles e também não conheci as partes íntimas dos atores. A última vez que assisti a uma peça assim foi aos 5 anos, uma montagem dos Três Porquinhos no Teatro de Câmara. Pensando bem, nem aí: uma hora apareceu o cofrinho de um dos atores.
Já quanto à peça, saí do teatro mais disposto a admitir que gostei do que o normal. Claro, há coisinhas. Principalmente essa mania de achar que uma emoção parece tão mais real quanto mais sem dignidade ela é mostrada. O ator que fazia Jasão, por exemplo. Um grego de tragédia jamais sairia pelo palco gritando, correndo daquele jeito, se atirando no chão com a mão na barriga como se tivesse tomado muito Chá Jamaiquinha. Também, brasileiro é capaz de exagerar na pieguice até em arte conceitual, que dirá em Eurípides. Já Sandra Dani, a atriz que faz Medéia, estava excelente. Um rosto de Malvina Cruela que fecha muito bem com o papel, e ninguém erra o texto como ela. Enfim, todos os atributos de um diva – pelo menos foi esse o comentário de uns gays no camarote ao lado. No fim, os únicos senões da noite: o Jasão com problemas gástricos e os capeletes da sopa no foyer, que deviam estar mais durinhos.
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No domingo, recital barroco com Nicolau de Figueiredo na Sala de Concertos Leopoldina. Me pareceu excelente, se tivesse dado para ouvir. Apesar daquele luxo todo da Sala Leopoldina – os lustres de cristal, os trabalhos em estuco, tudo tão bonito; como não seria Porto Alegre uns setenta anos atrás? – a acústica é péssima. Aliás, é exatamente por causa daquele luxo todo que a acústica da sala é péssima. O som se dispersa no pé-direito triplo, se prende nas cortinas, suspeito que nos casacos de pele das senhoras da primeira fila também. Apesar disso, esse cravista, Nicolau de Figueiredo, justifica a fama. Tem uma interpretação muito própria de Bach e de Haendel e de Vivaldi, e que sempre achei a mais adequada: tocar Bach e Haendel e Vivaldi dançando. O sujeito faz caretas, mexe os ombros, levanta e dá uma reboladinha, o que acaba sendo a única maneira de saber se a música está boa num recital inaudível. Pela animação, estava vendo a hora em que entraria a Imperadores do Samba com uma versão samba-enredo da Paixão de São Mateus: “Desde os tempos mais primórdios…” E o melhor é que Nicolau de Figueiredo está certo, os Concertos de Brandemburgo são uma espécie de “Hot Stuff” da Donna Summer no repertório erudito. É realmente dançável. O problema é que cinco concertos barrocos formam uma seqüência enérgica demais para os meus ouvidos devagarzões, acostumados a Debussy; depois do segundo Haendel minha atenção se dirigiu em parte para um velhinho com uma pose triste de grand seigneur desoeuvré uma fila atrás e que se tornou a partir de então meu ideal de beleza na velhice.

