Arquivo de maio de 2007

quarta-feira, 30 de maio de 2007

la mer de porto alegre

Desde que descobri Charles Trenet, não acho que consiga passar mais de uma tarde sem cantarolar ao menos um pedaço de “Swing Troubadour”. Claro, dizer “eu descobri Charles Trenet” soa amador como “eu descobri Frank Sinatra”. Mas num certo sentido é uma descoberta mesmo: encontrar em todas as versões orquestradas de “La Mer”, nos vibratos de Dalida e de Mireille Mathieu para “La Mer”, em todas as traduções inglesas de “La Mer” para a Broadway com um francês de bengala e chapeuzinho de palha num Bois de Boulogne em cartolina, a “La Mer” do próprio Charles Trenet e um pouco da beleza original.
Gosto de comparar Charles Trenet com Cole Porter, outro favorito meu – e de quem não? Acho os dois igualmente bons e igualmente engraçados, só que um à francesa, outro à inglesa (mesmo não sendo inglês). Cole Porter era mais um observador e um comentador da sociedade – eufemismo para bicha fofoqueira, como todo mundo sabe. A graça das letras vem da maneira com que ele é selfself-conscient, self-absorbed - ao contar os sentimentos dos outros e, melhor ainda, os dele próprio. Não são todos os compositores que confessam tão debochadamante a platitude da pessoa amada quanto ele em “You’ve Got That Thing” (“Your fetching physique is hardly unique,/ You’re mentally not so hot;/ You’ll never win laurels because of your morals“) ou que no meio de uma declaração de amor tão melosa quanto “Oh, What a Pretty Pair of Lovers” se distanciam de repente da melaçada com um “Singing silly persiflage are we!”. O humor dele é o humor da criatura que olha de cima os sentimentos, qui se regarde faire (Barbey d’Aurevilly). Como uma gargalhada depois de um “I love you” numa peça de Noel Coward.
O humor de Charles Trenet é bem mais direto, mais simplório. Uma conseqüência da cabeça clivada dos franceses: ou Racine ou Molière: ou o sujeito escreve uma boa tragédia, ou uma boa comédia. Não se ri do que não é para rir (entenda-se: das emoções e do sofrimento), a não ser que se mostre o que não é para rir com tanto exagero que não se possa muito a não ser rir. São os ciumentos ridiculamente obcecados, os falsos devotos patéticos de Molière. E é Charles Trenet numa obra-prima como “Je chante”: um cantor vagabundo que, depois de umas estripulias por aí, é preso, se enforca na cadeia e vira um fantasma cantor: “Un fantôme qui chante/ On trouve ça rigolo“. A tirada do fantasma é tão absurda, tão naïve, que fica difícil acreditar de fato na história, e exatamente por isso o que era para ser trágico fica engraçado. Bastante diferente de Cole Porter, que não só usava muito pouco seres sobrenaturais nas músicas, mas acima de tudo fazia comédia com situações e sofrimentos que vinham da vida dele, de amigos ou, melhor ainda, de inimigos, e que ele descrevia como tais. A sensibilidade menos latina de Cole Porter, menos Sêneca ou Terêncio, via graça em apontar o cômico desses sentimentos exatamente porque eles pareciam verdadeiros.

Je Chante
Estava um dia desses ouvindo “Je Chante” quando a cozinheira velhota que trabalha aqui em casa apareceu dizendo que presenciou Charles Trenet sendo preso em Porto Alegre. Ela vinha da igreja numa manhã de domingo quando viu um francês sapateando e gritando enquanto era arrastado de um teatro na Praça da Alfândega por dois policiais. Achei estranho Trenet ter vindo ao Brasil nos anos 50, ainda mais ter sido preso em Porto Alegre, e minha cara não fez questão de esconder a surpresa.
Surpresa que ela tomou por descrença. Na semana seguinte ela me aparece com um recorte de jornal. Flavio Alcaraz Gomes está lançando um livro de memórias, Eu Vi! – autobiografia que, pela idade do colunista, deve cobrir da ascensão de Assurbanipal ao trono da Assíria à Guerra do Yom-Kippur – e um dos episódios que ele desenterrou foi bem a prisão de Charles Trenet em Porto Alegre. Aqui vai a nota que ele publicou no jornal:
No livro “Eu Vi”, uma foto deste repórter com Chalres Trenet. É de maio de 1953, quando Porto Alegre testemunha um dos maiores fiascos da nossa vida artística. Trenet, o grande cantor popular da França, vai apresentar-se no Cinema Imperial. Manhã de domingo, dia 23. Chove muito e há pouca gente na platéia. Olhando pela cortina, o cantor sapateia e exclama: Je ne chante pas! Je ne chante pas!… O escasso público começa a bater os pés no chão e a vaiar. Assustado, o gerente chama as autoridades. Pouco depois, uma “canoa” policial entra no palco, de onde quatro agentes saem arrastando Charles Trenet pelos pés e pelas mãos e levando-o em cana num camburão.
Por alguns momentos, tive orgulho da relevância de Porto Alegre para a canção popular. Prender Charles Trenet! Prender Charles Trenet! Mas logo caí na real: contrariando minhas ilusões, não deve ter sido contemplando o Guaiba da Ilha da Prisão que ele escreveu “La Mer”.

domingo, 27 de maio de 2007

bandidos de novela da record seqüestram filho de participante do saia justa

- Alô? Dona, a gente estamos ligando pra avisar que o seu filho foi seqüestrado.
- Seqüestrado como, se ele está dormindo aqui do lado?
- Ah. (abafa o bocal do telefone, conversa com outro golpista) Então. Se o seu filho foi seqüestrado e está dormindo do seu lado, foi a senhora que seqüestrou o seu filho.
- Gente! Mas como é que eu fui fazer isso!
- Isso não me interessa, dona, não quero saber. O que eu sei é que se dentro de uma hora a senhora não aparecer no estacionamento do shopping com R$ 500.000 numa maleta preta, a senhora vai matar o seu filho…
- Mas eu não tenho todo esse dinheiro!
- Ué, mas foi por isso mesmo que a senhora seqüestrou ele.
- Calma aí. Se fui eu que seqüestrei meu filho, não são vocês que deviam pagar o resgate?
- Ah…
- “Ah” nada, rapaz. Não adianta enrolar que eu não estou brincando. Se dentro de uma hora tu não aparecer no estacionamento do shopping com R$ 500.000 numa maleta preta, eu vou matar o meu filho, eu estou avisando…
- Tudo bem, tudo bem. Só diz aí em que shopping.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Amanhã, às 18 horas, vou estar com mais alguns blogueiros no programa Radar da TVE. Se cortarem as besteiras que falei, vocês provavelmente vão me ver só nos cantos dos enquadramentos, abanando para a tevê. Também adianto que não sou tão gordo.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

uns links aí, que faz tempo

A esta altura, vocês já devem saber quem é o melhor escritor da internet. É dele a série das Bonequinhas Infelizes, que eu sugiro que seja compilada e vendida como Edição Especial Dia das Crianças pelo bem da literatura nacional, que talvez nem mereça tanto.
*
Momento artístico: teste para descobrir qual é o pênis do David de Michelangelo. Admito com uma ponta de orgulho que errei (isso se “ponta” não for um termo pouco recomendável dadas as circunstâncias).
*
Não tenho o hábito saudável de linkar bons tópicos de foruns, mas esta discussão (ou deveria dizer malhação de Judas?) sobre Gentlemen wannabes no Film Noir Buff Style Forum merece uma exceção:
So, while all the middle-class wannabe ‘Gentlemen’ are agonising over whether or not their shirt collars are white enough to pass muster, the real upper-class ‘Gentlemen’ of this world are pouring Brandy all over their mistress’s tits and licking it off whilst laughing loudly.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

paint it black

Percebo que uma pessoa não entende nada de cores quando ela diz que preto combina com tudo. Preto só combina com preto. Com o resto, preto só não incomoda – o que é diferente de combinar, o sentido de harmonia que existe na palavra.
Mas mesmo quanto a não incomodar preto nem sempre é eficiente. Vi esses tempos um homem com cara de representante comercial, de camisa rosa-bebê e calça preta. Do outro lado da rua, vinha outro de camisa verde água e calça também preta. Representantes comerciais et allii têm mania de apelar ao preto para evitar erros, e é aí que eu tenho medo. A parte de cima clara e a parte de baixo escura, fiquei imaginando que relação poderia haver. Parecia uma colagem com metades de duas pessoas diferentes. Um problema que poderia ser tão facilmente resolvido com uma calça também clara – cáqui, cinza, bege cru -, em contraponto sapatos marrom-pinhão, e os dois homens com cara de representantes comerciais continuariam com cara de representantes comerciais, mas pelo menos fazendo algum esporte elegante, golfe ou hipismo – o que é um dos truques para se vestir bem em dias quentes, mas isso fica para outro post.
Na verdade o preto é como algumas secretárias e profissionais do sexo, que só ficam bem como os terceiros da relação. Um visual todo em azul escuro e verde musgo é um horror à minha imaginação, coisa de figurante em clipe de Sympathy For the Devil com a Claudia Ohana. Já com o preto como base, azul escuro e verde musgo se respondem à merveille, o equilíbrio certo entre cor e austeridade. O mesmo para a mistura entre bordeau e cinza (sem preto, coisa de modelo da Bergamaschi) marinho e vermelho (se faziam enxovais de bebê só com essas duas cores nos anos setenta, imaginem).
Mas a verdade é que este post é movido por meu ressentimento contra a idéia de que o preto é o coringa para quem não sabe se vestir. Uma idéia duplamente bárbara: ofereceu uma desculpa para quem não sabe se vestir continuar sem aprender; serviu de tábua de salvação para os desprovidos de gosto não caírem no ridículo, o que tira boa parte da graça do mundo: rir de tentativas frustradas de elegância. Além disso, sou admirador de pastéis e tons bebês, uma espécie de Monsieur de Pompadour favorito de corte nenhuma, que gostaria de ver – sobretudo no verão – mulheres de vestidos de algodão com echarpes floreadas e homens de camisas claras para dentro de calças em bege ou cinza, casuais e gatsbiescas. Nada de preto, tão monótono e as pessoas se vestindo mal sem saber.
Vejam Maria Antonieta, por exemplo. Claro que a grande importância do filme não é histórica, mas estilística (o que desagradou certos intelectuais com sensibilidade de lata, mas enfim). E não pelos motivos que agradam fashionistas, mas por uma lição mais durável: mostrar o que é se vestir bem em tons bebê, à Louis XVI – a cena da rainha numa tarde quente no Petit Trianon de camisola creme, em volta as paredes azul claro e os músicos de branco tocando uma canção saltitante, e um leque vai e volta lentamente no ar morno do quarto, a própria imagem da nonchalance. Carregando no preto ou em qualquer outra cor escura, a composição se estragaria. Se fashionistas imitassem aqueles tons, aquela leveza, poderiam dispensar as perucas de dois andares que aparecem nos editoriais de moda desde que Sofia Coppola lançou o filme.
De resto, o preto é como o silêncio na máxima de La Rochefoucauld: o partido mais seguro de quem não tem nada a dizer.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

vós que ledes esta postagem

Essa mania que têm de usar “vós” em traduções de textos clássicos. Escuta, vos e umeis não são “vós” em português de 2007. “Vocês”, “cês”, “ceis aí, mano”, se for em Plauto ou no Satyricon. Mas é isto: tradutores de línguas clássicas querem ser tão fiéis à forma das palavras que acabam deformando os textos. Se São Paulo tivesse dito “vós que ouvis a palavra” (umeis akousantes ton logon) na frente de um monte de efésios raivosos e iletrados, o cristianismo jamais teria deixado de ser uma superstição obscura de algum ponto da Galiléia.
Professores tratam latim e grego com um respeito que é mais um respeito fúnebre, muito apropriado quando por parentes já falecidos, mas nem tanto quando por línguas mortas. Lembro de um ex-amigo helenista, especialmente depressivo e sem graça – o único traço de espírito detectado naquele cérebro cheio de desinências do optativo foi ter chamado o Presidente Geisel de Presidente Gástrico -, reclamando das traduções de Aristófanes pelo Millôr Fernandes: onde tinha um subjuntivo devia ter um futuro; no lugar de duas orações, uma só. Não sei o quanto Millôr Fernandes sabe de grego clássico, talvez menos do que meu ex-amigo. Mas fato é que se fosse ele traduzindo A greve do sexo provavelmente a greve nem sairia, com as mulheres não conseguindo se entender com aquele monte de “vós” e formas verbais tão feias. Teria a graça dum David Letterman Show apresentado por Napoleão Mendes de Almeida.
Já me perguntaram que problema eu via em ressuscitar formas arcaicas. Tentem contar uma piada só usando Vossa Mercê.

terça-feira, 8 de maio de 2007

le pitre chatié

O Tiago A., nosso novo Apostos, dedicou com muito amor no coração um post a mim, que nas artes não vejo graça nenhuma em metalinguagem. Não é só não ver graça; é um certo desprezinho mesmo. Metalinguagem é hoje o que na tragédia a Regra das Três Unidades foi para os pedantes do século XVII. Está tudo lá: a incapacidade de gostar duma obra irresponsavelmente, sem teorias; a crença em algum tipo de evolução nas artes – na época de Racine, Aristóteles que ia polir os últimos traços de medievalismo e civilizar o teatro; hoje, o romance que, só porque uns sujeitos autistas decidiram passar as suas vidas inúteis escrevendo que estão escrevendo, tem de se preocupar mais em ser meta-something do que propriamente bom, sob pena de levar a (falsa) acusação de naïf. Dois aspectos do mesmo filistinismo: o sujeito é totalmente insensivel às artes e precisa de algum critério que não a própria insensibilidade inexistente para julgar um livro, uma peça.
Isso da parte dos críticos e dos leitores. Do lado dos artistas, a asneira vem de uma preocupação maior com a Arte assim, em letras maiúsculas, do que com as próprias obras. Pensar muito em Arte, escrever páginas e páginas sobre Arte, mas fazer bem pouquinho, que cansa. Enfim, o Artista como Filósofo. Só que o lugar do Artista na corte é mais o de Bobo mesmo. E Bobos, quando querem fingir não serem Bobos, só conseguem más pantomimas. O artista metalingüístico é isso. Um Bobo flácido e incompetente faisant le Philosophe, lendo tratados de meta-cambalhota, meta-equilíbrio-de-bola-no-nariz, enquanto os convidados do banquete bocejam e vão embora.
O consolo do Bobo Grave é que tem sempre outros bobos que ficam.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

lobo de houaiss

A minha única façanha intelectual de que tenho algum orgulho (isso supondo que houve outras) foi ter explicado com clareza a uma platéia de psicanalistas o que é foraclusão em Lacan. Até hoje as pessoas que estiveram naquele seminário quando me encontram dizem que nunca tinham ouvido uma explicação tão clara. A maioria delas são psicanalistas lacanianos, óbvio, que cobram tão bem quanto não entendem o que é foraclusão em Lacan, mas além de um motivo para me vangloriar, aquela palestra me deu a oportunidade de vislumbrar um Princípio Geral da Mente Humana: se um conceito tem quatro sílabas ou mais, não serve para quase nada. Vejam “Biopsicossocial”, “Intertextualidade”. Agora, se você consegue quebrar aquele conceito de quatro sílabas em um monte de conceitinhos de sílabas menores como proteínas em aminoácidos, o organismo humano os assimila facilmente, e pode mesmo cuspir de volta os que não consegue (ou seja, nos que achar algum defeito – é exatamente para mascarar os aminoácidos defeituosos que servem os de mais de quatro sílabas).
Mas a regra das palavras curtas não é só uma preocupação com clareza. O problema é a hipertrofia que conceitos com mais de quatro sílabas exercem no Lobo de Houaiss, a região do cérebro responsável pela função pedante da nossa mente. Palavras com duas sílabas passam em geral despercebidas por ele: quase sempre designam objetos prosaicos, e até pessoas que chegaram ao quinto ano do Ensino Fundamental as usam com desenvoltura (“pois é”, “vixe!”, “ai,ai”, “sério?”). Pelos mesmos motivos, o Lobo de Houaiss também dificilmente detecta as de três sílabas: “cadeira”, “janela”, “ônibus” (apesar da origem latina, um dos inputs mais efetivos para a função pedante). Já a exposição regular a palavras de quatro sílabas (“análise”, “histórico”) permite um crescimento substancial da região. Os efeitos do tratamento intensivo com palavras de cinco ou mais (“dialética”, “verbivocovisual”) podem ser catastróficos, com o avanço do Lobo de Houaiss sobre os outros lobos e a exigência por parte do afetado de que o romance contemporâneo (5 sílabas) tenha obrigatoriamente jogos de metalinguagem (idem).
E agora, efeitos anatômicos chocantes do Princípio no cérebro de um falante de alemão:

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