Arquivo de abril de 2007

segunda-feira, 30 de abril de 2007

o jardim das delícias action figures

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sexta-feira, 27 de abril de 2007

conversando com barbey d’aurevilly

“No salão da baronesa de Mascranny, como nas raras casas de Paris onde se conservaram as grandes tradições da conversa, inflam-se muito pouco as frases, e o monólogo é quase desconhecido. Nada lembra o artigo de jornal e o discurso político, esses dois moldes tão vulgares do pensamento no século XIX. O espírito se contenta em brilhar por witticisms encantadores e profundos, mas ditos com breviedade; às vezes mesmo por simples intonações, e menos ainda, por algum pequeno gesto de gênio. Graças a esse bendito salão, reconheci melhor um poder do qual nunca duvidei, o poder do monossílabo.”
(Le dessous de cartes d’une partie de whist, Barbey d’Aurevilly – de quem gostaria de traduzir tudo, mesmo o que ele não escreveu.)

segunda-feira, 23 de abril de 2007

la france profonde

Quando o Brasil melhora um povo em alguma coisa, melhora justamente aquilo que nem seria tão bom melhorar. A música popular francesa. Provavelmente a música mais engraçadamente kitsch do mundo. Aquele exagero todo, aquela pieguice. Fico vendo esses cantores dos anos 90/2000 (a lindíssima Coralie Clément, a não menos linda Keren-Ann, que não só pelo nome lembra Anna Karina), todo mundo cool, todo mundo bossa nova, cantando joãogilberticamente. Me vem uma nostalgia de Dalida, de Mireille Mathieu. Onde foram parar aqueles xilofones, aqueles tecladinhos chinfrins? E os erres roulés à Edith Piaf? Mais où sont les neiges d’antan? Nenhum homem ameaçando se matar em metáforas sub-baudelairianas, nenhuma mulher maquiada em excesso jurando vingança, atrás uma orquestra em black-tie com exatos 25 trambones, quatro percursionistas, 68 violinos, e ainda um maestro de suíça e smoking negativo. Algo me deixa inexplicavelmente triste quando um tipo de música que lembrava casal adúltero em capa de disco seventies passa a trilha sonora de vernissage minimalista em novela da Globo.
Nostalgia, claro. Música francesa na minha infância era música de concurso de transformista no programa do Sílvio Santos. “Parole Parole” e o verso imortal “Caramels, bonbons et chocolat” – quantas bocas masculinas atoladas de batom Boca Loca não tremeram dramaticamente durante os anos 80 para dublar Dalida com brio e ganhar a simpatia de Aracy de Almeida? E quantos afro-travecos não dublaram “La Vie en Rose” vestidos de Grace Jones? Minha bisavó se reunia sábado à tarde com as amigas da igreja só para ver qual dos bichonas – era assim que elas chamavam os transformistas, tudo bem GLBT – era “o mais bonito”. Mas isso foi antes da invasão da coolness brasileira nas rádios deles. Certamente minha bisavó e as amigas receitariam hoje a um Henri Salvador, a um Benjamin Biolay o biotônico que receitavam para João Gilberto deixar de cantar para dentro.
(Só agora me dei conta de que a minha teoria tem um furo. Ouvindo com atenção, “Parole Parole” já era um sambinha.)

sexta-feira, 20 de abril de 2007

eu tenho você não tem

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(Postal que Karine “Dietrich” Damásio me envia de Lisboa. Acertou o meu gosto – o que não é tão difícil depois de quase vinte anos.)

terça-feira, 17 de abril de 2007

pequeno tratado de urbanismo canalha

Todo mundo fala que o urbanismo de Le Corbusier é ruim. Dizem que a ville radieuse é muito bonita, mas também muito fria e inumana, e que as pessoas não conseguem se sentir confortáveis nela, quando na verdade essa é exatamente a maior qualidade do projeto. Pessoas se sentindo confortáveis na cidade significa um monte de gente mal-vestida jogando papel no chão.
Para mim, a cidade ideal é o rêve parisien de Baudelaire: uma concha artificial, silenciosa, quase mineral, e com telentregas pra tudo. Açougue, perfumaria, tráfico de drogas, Zara, hospitais. Hospitais, principalmente hospitais! Só assim para acabar com a falta de civilidade de donas-de-casa que correm pra rua de pantufa e tudo só porque o marido teve um derrame.
Tendo por base esses preceitos, elaborei planos para resolver os problemas urbanísticos das duas maiores cidades brasileiras.
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Minha sugestão de urbanismo para o Rio. O plano traria modificações muito benéficas para a cidade. Por exemplo, a aglomeração de todas as favelas na zona periférica amarela. Infelizmente a área é muito pequena para a quantidade dos pobres, mas acreditando que todo urbanismo provoca mudanças no contexto social e que as lições dos mestres do passado não devem ser esquecidas, o plano prevê a aplicação no Brasil dos planos canibalescos do Swift para a redução do número de pobres na Irlanda. Ninguém vai notar: como dizem os black resentniks, a carne mais barata do mercado já é mesmo a carne negra.
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Um monte de ruas em São Paulo para quê? Mais que quatro avendias largas já é o caos, um cortiço gigantesco que na Itália as pessoas insistem em chamar de cidade.
E, além de belíssimo, este plano é prático: se você tiver dor de barriga e quiser ir até a Zona de Farmácias que Vendem Supositórios Azuis (ZFVSA, indicada no mapa pela seta), é só deixar seu carro na vertical mais próxima (V1), pular alguns muros de quintais e, com o mínimo de dificuldade, você chega ao supositório desejado.
Mas há ainda outras mudanças que operarão pelo progresso da cidade. O Tietê, por exemplo. Seu leito curvo combina mal com os ângulos retos que eu projetei. Daí, pensei que ele poderia ser represado e transformado em lago. Em lago de ângulos retos, seguindo os preceitos do neoplasticismo, localizdo na zona azul da parte superior do mapa. São Paulo finalmente teria algo a se orgulhar: o maior esgot..lago quadrado a céu aberto do mundo!
(postado em 22 de abril de 2005)

domingo, 15 de abril de 2007

carta CLV de mme de sevigné: relato de um dia em versailles para sua filha, mme. de grignan

Ma chère bonne,
Desculpe, mas ainda não li sua correspondência. Na verdade, creio que ela não chegou, e por minha culpa; ontem, passei exatamente 53 minutos sem abrir meu hotmail, o que fez a caixa estourar com spams indecentes oferecendo pílulas de orgasmo e halteres para alargamento peniano. Já bloqueei 35 Lolita Pills e 24 Long Dong Silvers, mas eles continuam aparecendo como ratos em roupa suja.
Hoje passei o dia em Versailles. Fomos eu, Coulanges, e o conde de Bussy-Rabutin. Devo dizer que foi um dia dos mais agradáveis, apesar dos percalços do caminho. Em plena Place de la République, um bando de rappers tunisianos levou a carteira de Coulanges. Bussy-Rabutin correu atrás deles para recuperá-la, mas parece que depois da lambada o populacho parisiense ficou mais malemolente. Os negrinhos subiam em postes, davam cambalhotas em cestas de frutas, saltavam carruagens em movimento. Além disso, os saltos do conde impediam que ele os alcançasse; já adverti ao Rei de que a moda do salto alto ainda vai acabar com o temor do petit-peuple pela nobreza, mas até agora nenhum decreto foi baixado. De qualquer maneira, no fim de um beco os tunisianos desapareceram por um buraco na parede, provavelmente um erro de cáclulo; não contei até cinco para eles descobrirem tratar-se de uma toca de camudongos e começarem a gritar deseperadamente por ajuda em alguma língua que eles supunham ser francês. Temo que o dinheiro do pobre Coulanges tenha sido roído com eles – o que o deixou inconsolável. Estava triste pela carteira, triste pelo dinheiro, e sem um sous. Tive de gastar mais de 3 euros comprando tickets para mim e para ele no metrô; enfim, outra despesa que não estava nas minhas contas, mas por uma amizade faço qualquer sacrifício.
O metrô também não foi uma experiência das mais agradáveis. Primeiro, entalei meu vestido num daqueles bancos estreitos; foi preciso três chaves de fenda e um encanador polonês para entortar a armação do corselet. Depois, tivemos de suportar durante a viagem inteira um grupo de jazzistas cegos tocando “Take Five”. Já falei ao Rei sobre cegos tocando “Take Five” no metrô; sinalizei o mal para a saúde pública que este hábito repetitivamente bárbaro representa; discursei sobre o desconforto de encontrar por toda parte gente com óculos escuros tão hediondos. Ele, entretanto, prestou pouca atenção; com mais de trinta anos, o Rei ainda adora longos solos de bateria. É no que dá ter ouvido Led Zeppelin demais na adolescência; suspeito que Ana da Áustria reservou o pulso firme somente para o Parlamento.
Por fim, chegamos a Versailles. E como o palácio está diferente da útlima vez que você o viu! Aonde quer que se vá, sente-se uma alegria de máquina digital e de pézinho gordo em sandália; Madame me disse que esse é o lado bom de cobrar 10 euros a entrada. O próprio Rei estava diferente, mais falastrão – e você pode imaginar o quanto isso surpreende num homem tão lacônico como ele. Às 11 horas o huissier anunciou a sua aparição; o Rei saudou os convidados meramente com um aceno, e foi mais pródigo que de costume durante a refeição. Depois do licor e dos queijos, chegou mesmo a tomar emprestado o leque de Mme. de Lauzan e ensaiar alguns passos à Locomia, no que foi acompanhado pelos ministros. Não me divirto tanto desde o último baile de máscaras. Hà rumores de que que toda esta alegria seja em função do projeto Disney-Versailles para os bosques Do palácio; acredito, contudo, tratar-se de uma nova favorita, depois da desgraça e reclusão de la Vallière. Enfim, tutto molto divertente.
Após o almoço, fomos caminhar pelo parque. Encontramos no caminho La Rochefoucauld. Sempre muito gentil, nosso amigo pediu notícias suas e de M. de Grignan enquanto lambuzava o bigode numa maçã-do-amor. Infelizmente, não conseguimos conversar por muito tempo; um grupo de turistas asiáticos pediu para tirarmos fotos abraçados; fomos perseguidos por cerca de 25 criançinhas japonesas ao longo das aléias do jardim, e tivemos que nos esconder num canteiro próximo ao Trianon para escaparmos dos pequenos selvagens. Parece que o guia nos denunciou ao gerente, dizendo que na Disney-Orlando os Mickeys não saem correndo de fotos para excursões; por isso, tomamos uma séria advertência e nos ameaçaram com uma temível demissão do nosso honorável posto de décor vivant. No entanto, apesar do incidente desagradável, tivemos momentos dos mais prazerosos. Ficamos a tarde inteira jogando truco no pier que construíram sobre o canal e no fim do dia andamos nos pedalinhos temáticos que instalaram na fonte de Latona; Bussy e la Rochefoucauld ficaram com um Richelieu sorridente, mas Coulanges e eu conseguimos um Luís XIII. Todavia, um pouco depois da cinco horas, tivemos de voltar a Paris; o pobre Coulanges reclamava estar cansado; acredito, entretanto, em outros motivos: a ingestão abusiva de algodão-doce ainda vai levar meu primo para os braços de Deus.
Cheguei há pouco em casa. Depois de um dia tão agitado, somente agora achei tempo e forças para escrever para você, minha filha querida. A saudade me consome a cada hora; não acho distração em coisa alguma; a todo instante me vêm ao espírito as cenas do seu casamento e de sua partida. Espero que M. de Grignan esteja desempenhando bem o papel de marido; ao menos isso justificaria o fato de ele ter levado você para tão longe de mim. Mas paro por aqui; o tamanho das minhas cartas deve estar lhe matando. Até mais, minha querida.
Je vous embrasse avec tendresse,
Votre mère
ps: Lembranças minhas para o seu marido. Aquele maldito sodomita.

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quarta-feira, 11 de abril de 2007

da minha relação estritamente profissional com a vida

(Há exatos dois anos, eu levantava num fim de manhã chuvosa levemente entediado, com vontade de fazer alguma coisa de que eu me arrependesse depois. Entre pôr pátina azul bebê no meu armário e tatuar no antebraço “O caminho conduz à Paz Celestial” em japonês – na verdade, “Caiu uma garrafa de saquê no meu dedão do pé” porque certamente faltaria um pontinho num dos caracteres -, resolvi começar um blog. Como todas as coisas feitas para você se arrepender depois, era fácil e barato; só entrar num site, inventar um título esperto e pronto, não tinha como errar. Só que não deu certo; até agora não tenho do que lamentar e posso mesmo me considerar com algum embaraço um blogueiro feliz. O único porém foi ter deixado essa coisa de escrever em prosa crescer desordenadamente desde então. Logo eu, que passava tardes deitado rimando “angu” com “mauvais goût”, “vixe!” com “haxixe”, comecei a passar tardes sentado em frente ao computador, no trabalho bruto e um tanto rebaixante de escrever textos com parágrafo. Poder escrever deitado, essa é a grande superioridade da poesia frente à prosa.
Portanto, como um trabalhador que fica em casa no primeiro de maio, eu no aniversário do meu blog resolvi não trabalhar e ficar rimando francês com árabe. Durante os próximos dias vou repostar alguns dos textos que, se não chegam a ser bons, ao menos me deram prazer ao escrever. São em geral posts do primeiro ano do Chá das Cinco, ainda no blogspot, entes queridos que pouca gente conheceu e que trago de volta do Jardim da Paz dos Arquivos numa sessão mediúnica. Mas claro que nem durante as férias a formiga vira de todo cigarra. Prometo que os textos vão ser em boa parte reescritos. E agora pode parar de fazer beiço e me dá um abracinho.)
Cheers!

Eu gosto da Vida. Acho que é uma moça prendada, tem boa dentição, e todo dia a gente se cumprimenta, quando eu levanto e ela vem limpar meu quarto. Mas a Vida tem um problema: às vezes ela cresce demais. Em longitude, em latitude, e minha mãe tem de manter as garrafinhas de Biotônico Fontoura sempre lacradas para que a empregada não tome tudo escondido e fique ainda maior. Avisaram na carta de recomendação, mas minha mãe não deu bola quando assinou o contrato.
E quanto maior a Vida fica, mais ares de patroa ela assume. Escolhe horários para tudo. Ler com ela em casa, por exemplo: impossível. É começar uma página, que a Vida bate na porta do meu quarto; quer passar cera no chão, diz que vai limpar os vidros. Escrever, então. Eu ainda na primeira frase, e ela vem tirar pó do teclado. Resolve passar álcool no monitor. E começa a me contar histórias de irmãos assaltantes e vizinhos lobisomens enquanto concebo metáforas geniais relacionando uma receita de omelete com a dissolução do império carolíngeo.
É por isso que recuso polidamente quando me desejam uma Vida “cheia de amor”. Questão de maquiavelismo: é o temor, não o amor, que garante a fidelidade – principalmente nas criadas. Além disso, é bom manter com a Vida uma relação estritamente profissional; “amor pela Vida” dá muita confiança, faz ela se sentir da família. A Vida é uma empregadinha atrevida e meio incompetente, a quem a gente deve mostrar o seu devido lugar quando ela começa a escutar rádio Caiçara muito alto. E não, não é por esnobismo, não. É que, de outro jeito, ela não nos deixa escrever.
(29/07/2005)

terça-feira, 10 de abril de 2007

ivana trump contra naturam

Triste ver cristãos se distraírem combatendo práticas sexuais anti-naturais quando há tantas outras pragas contra naturam afligindo a nossa sociedade. Os coques, por exemplo: não tenho a mínima idéia de para que Deus criou o cabelo, mas certamente não foi para ficar espetado no alto da cabeça em forma de montinho.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

com que roupa eu vou

É recomendável agir como se não existissem obras de arte morais e imorais, apenas as boas ou as ruins. Ainda mais recomendável é se guardar de levar isso muito a sério. A fachada esteticista de amoralidade é no mínimo útil: evita que os críticos virem Susan Sontags procurando racismo até no Toddyinho que Leni Riefenstahl fazia para o marido de manhã cedo. O problema é quando se passa a julgar o resto da casa pela fachada. E isso não pelo argumento calouro-de-letras de que mesmo no romance mais hermético, na pintura mais abstrata, deve haver uma moral, mas por um motivo mais intrínseco: o esteta e o moralista são dois termos da mesma vontade. No esteta, vontade de ordenar as propriedades aleatórias das coisas; no moralista, de ordenar os afetos igualmente aleatórios dos homens. Suspeito que esse seja o parentesco bastardo entre Robert de Montesquiou trocando de gravatas conforme o tom da conversa e o moralista pregando como o homem bom no casamento ou no trabalho ou no leito de morte deve ser: os dois sabem que roupas e que sentimentos usar, de acordo com a ocasião.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

dança do maxixe

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“Tolentino no meio com dois concretinos fazendo sanduíche.”