Argumento contra suicídio e eutanásia: a vida é um presente de Deus. Pode até ser. Mas, se Deus me desse uma camisa da C&A, eu seria o primeiro na fila de troca.
Arquivo de março de 2007
the gay twenties
Sempre fui vagamente interessado pelos roaring twenties no Brasil. Não porque devessem ter algo de original frente aos roaring twenties nos Estados Unidos ou na França ou na Inglaterra, mas por pura nostalgia do não-vivido e por uma certa curiosidade pelas baixarias da minha bisavó. Mesmo assim, além duns capítulos em novela das seis que assisti sem som e dum livrinho sobre os cabarés da época em Porto Alegre (parece que o Clube dos Caçadores era um dos maiores do país e o consumo de cocaína já era enorme na classe alta, vejam que pelo menos nisso a cidade não mudou), não encontrei muita coisa. Lembro de ter lido sobre um romance considerado “art déco” (como assim?) falando de três amigas ricas: uma meio lésbica, uma viciada em morfina e uma santinha-quero-casar. Não anotei título ou nome do autor e acabei perdendo a referência, mas devia ser um lixo. Só que eu não dispensaria esse lixo: dos anos 20 no Brasil só se fala em modernismo, e como os romances modernistas não eram exatamente documentais, um livro desses serviria de estepe pra quem não tem um Fitzgerald, uma Colette.
Até que um amigo me mandou esta crônica do Vinícius de Moraes. Tem a graça que se espera dum texto “de época”: gírias (“do balacobaco”, “carraspana”, “chapa” para disco de vinil), grifes (cigarros Abdoula, perfumes de Caron). Faltou Vinícius de Moraes dar a receita do coquetel rose, o que vinha com uma pétala de rosa dentro do copo.
“A ALEGRE DÉCADA DE 20
“Suponhamos, leitor, que você acorde um dia quatro décadas atrás, no período entre 1920 e 1930 que sucedeu à Primeira Grande Guerra e onde a disponibilidade e falta de critério eram gerais: os “Gay Twenties”, como ficou conhecida nos Estados Unidos a era do jazz, tão fabulosamente vivida e narrada pelo romancista Scott Fitzgerald.
kaloì kaì agathía
Se aceitar por completo é coisa de gente idiota. Pode parecer o contrário, uma individualidade tão rara que não se submete a nada e a ninguém, mas geralmente a moral pop do be yourself não passa de estupidez ou auto-indulgência. A criatura ou aceita ou nem percebe as próprias insuficiências e imperfeições e se isola no container hermeticamente fechado do que ela chama de “minhas idéias”. E você mostra que essas idéias são burras, que os argumentos dela são canalhice, tudo o que ela faz é desviar de um lado pro outro sem sair do lugar, como um joão-bobo.
Quando qualquer pessoa que já valeu alguma coisa valeu exatamente por tentar ser mais do que ela mesma. Para atingir alguma excelência, o indivíduo tem de se deixar moldar por algum ideal. Palavras para isso são uma parte, mas são exemplos que despertam a inveja necessária. Os que têm sorte encontram os seus exemplos de ideal já mortos, transformados comodamente num poema épico ou num verbete da Wikipédia; quem tem azar deve agüentar o modelo de tudo o que desejava ser ainda sob os seus olhos. O que os dois têm em comum: a nobreza de às vezes quererem ser um outro.
(E é assim que se formam por gerações essas belas cadeias de admiração e inveja entre heróis e deuses, homens e heróis: Augusto que admirava Alexandre, Alexandre que invejava Aquiles, Aquiles que queria superar Hércules.)
Em alguma parte de Tel Quel, Paul Valéry escreve que o maior privilégio que um homem pode conceder a alguém é admirá-lo tanto a ponto de ouvir toda hora a voz dele na sua cabeça, rindo das suas ações, julgando os seus pensamentos. Valéry prestou essa homenagem a Mallarmé; entrou em crise e quase abandonou a poesia. E, no entanto, sem isso não seria Valéry.
<img alt="marie antoniette.jpg" src="http://rodrigodelemos.apostos.com//archives/marie%20antoniette.jpg" width="305" height="400" /
Uma galeria com retratos de Maria Antonieta.
orientação vocacional
Uma mesa redonda sobre um tema qualquer com Márcia Tiburi, Contardo Calligaris e Ferreira Gullar. Iria? Parabéns, essa é a profissão da sua vida.
só para lembrar
Existe um furor conservador tão bobo quanto furor libertário. Nem toda liberdade é auto-indulgência, nem toda restrição é fortaleza moral. Bom que a restrição tenha algum sentido: pode ser prova de constância inquebrantável andar na Rua da Praia pulando num saco de batata, e ainda assim seria justa a pergunta: “Mas por que mesmo?”.
Esse furor, pelo menos nas melhores inteligências, vem do medo de uma certa decadência moral. Um medo justo, principalmente numa época em que humanistas sustentam aborto com o argumento de que mulheres têm direito ao próprio corpo podendo eliminar um feto como se fosse um cisto no útero.
Mas nessas horas sempre bom lembrar que decadência moral é sempre decadência de uma moral. A nossa: o imperativo kantiano: “Age de tal modo que a máxima da tua ação se possa tornar principio de uma legislação universal” que vai desembocar no conselho de velhota: “A tua liberdade termina onde começa a do outro”. E, apesar do kitsch das duas fórmulas, a idéia é simpática. Os indivíduos são livres para agir, mas responsabilizados pelo que fazem. Não vejo o que possa haver de auto-indulgência aí.
Então, toda lei que interfira na liberdade dos indivíduos de fazerem o que bem quiserem consigo é negação dessa moral; toda lei que alivie a responsabilidade pelas ações ou permita que essas ações prejudiquem um terceiro é decadência dessa moral. Agora, todos juntos: legalização de drogas, casamento gay, laqueadura, vasectomia: massa!; Estado pagando tratamento de viciados, adoção gay, aborto, pintura naïf: feio! Simples assim.
A vantagem desse raciocínio: uma ação, se não imoral em absoluto, pode ser moralmente pouco nobre e mesmo assim estar dentro da lei. Uma experiência sexual complexa, cheia de sentimentos bonitinhos e envolvimento com o ser amado, certamente exige uma grandeza espiritual de que mil one night stands não chegam nem perto. Mesmo assim, nada mais inaceitável – e desagradável – numa noitada com duas prostitutas suecas do que ser interrompido por um pároco da Liga da Moral escondido no armário, lembrando com sotaque italiano que sexo heterodoxo “é pecato”.
Nossa moral garante igualdade na lei para todo comportamento não-prejudicial a outros indivíduos. Já quais são os mais ou os menos elevados é problema da sociedade. Decadência só começa quando se quer dar igualdade a eles mesmo nesse nível.
(Por problemas técnicos, nós do Apostos estamos por um tempo sem caixa de comentários. Para mandar um beijo ou me xingar, meu email está logo ali no blogroll, embaixo da foto. )
razão e sensibilidade
Tanta gente tomando por intelectuais pessoas que não têm mais do que sensibilidade à beleza. Nada mais enganoso: intelectuais leram sobre idéias claras e distintas em Descartes e acabam partindo delas para admirar um romance, uma pintura. Pegam da arte o que é resumível. E, como aquilo que faz dum livro um romance ou duma tela uma pintura não pode ser resumido – como um vestido, um perfume não podem ser – intelectuais acabam perdendo o fundamental. Uma perua que identifica o número dum Chanel sem olhar o frasco está mais perto dum esteta do que um intelectual. Talvez por isso estetas freqüentemente se liguem a meios sociais frívolos, Proust sendo o caso mais evidente.
Talvez também por isso intelectuais gostem tanto de Francis Bacon. Todos os quadros de Francis Bacon se resumem a um fundo cinza com uma pessoa na frente com a cara – cinza – toda deformada. Uma pobreza estética impressionante, como uma idéia clara e distinta. Mas isso diz muito: não é a crueldade que intelectuais admiram em Francis Bacon. É a crueldade sem contradição, sem sutileza, quase um teorema de corpos deformados que Francis Bacon joga na cara do espectador- a clarificação de uma idéia, e não o contraste entre várias, como tende a ser o meu gosto e espero que de mais alguns.
Difícil, como exemplo dessa arte que harmoniza em si idéias muito diferentes, um quadro mais perfeito do que a Salomé de Klimt. Perfeito e cruel. A Salomé de Gustave Moreau, tão admirada por Des Esseintes, não tem o mesmo impacto que a de Klimt, certamente porque ele, ao contrário de Moreau, fez o personagem do tamanho da tela, o que permitiu mostrar as feições de Salomé em vez do palácio e dos personagens secundários (Herodes e o patriarca por exemplo).
Klimt, como quase sempre, acertou em se concentrar na fisionomia de Salomé e não no ambiente. O crime de Salomé, já bárbaro o suficiente, ganha um je ne sais quoi de ainda mais perverso pela fisionomia de prazer no rosto da princesa, também nas tetas e na expressão convulsa das mãos, e o luxo estranho do vestido. São essas duas nuances, luxo e prazer, na nossa moralidade tão difíceis de se harmonizarem com a noção de crueldade, que criam a beleza estranha desse quadro: afinal, qual a relação entre a luxúria de Salomé e a cabeça de São João nas mãos dela? O prazer é pela dança – porque em troca da cabeça de São João ela dançou para Herodes, lembrem – ou pela decapitação? E o ouro e as pedrarias? Mais difícil ainda de precisar por que objetos luxuosos e crueldade física nos causam uma impressão tão perturbadora. Mas certamente Klimt não foi o primeiro a explorar essa relação; Baudelaire partiu dela num dos melhores poemas que escreveu, “Une Martyre“. Não é por nada que a Salomé de Klimt ilustra a capa da minha edição de Les Fleurs du Mal.
Também não é por nada que um quadro de Bacon ilustra aquelas edições em pocket de Augusto dos Anjos, poeta que, pelo simplismo da escatologia, vai muito bem com Bacon. Se fossem pintar ou escrever sobre os mesmos temas de Klimt e Baudelaire, Augusto dos Anjos teria omitido a descrição dos móveis e dos perfumes no quarto em “Une Martyre” e transformado a mulher morta do poema numa carniça já carcomida em algum ponto de Pernambuco; Bacon teria passado por cima da inutilidade de retratar Salomé e pintado direto só a cabeça de São João. A cabeça cinza com uma parede cinza no fundo, como em todos os quadros dele. Mas a bandeja embaixo já seria uma grande variação.
carlos gomes, 222
Dá para medir a ruindade de filmes históricos pela quantidade de escatologia que o diretor usa para mostrar reis como palhaços ególatras e artistas como palhaços bajuladores. Quando é o século XVII, então – o século do sublime, do grand style, isso eles não suportam. Em The Libertine, gentlemen emporcalhando as botas em Londres; em Marquise, mulheres duma trupe teatral correndo por ruas enlameadas atrás dum banheiro público. Mania da nossa época resentnik, mostrar a lama embaixo da colunata dórica, os piolhos do cavalheiro emperucado – como se a realidade que as pessoas viveram fosse mais importante do que a realidade que elas idealizaram. E tudo porque somos incapazes de colunatas dóricas ou de cavalheiros emperucados.


