Tem um cara estranho no meu prédio que eu apelidei de Bozó e que tem uns óculos muito grandes e um cabelo grosso e meio ondulado que ele penteia pra frente, que nem eu vi uma vez num galã de filme de Bollywoood. Dizem que ele é boa gente, e eu acredito: toda aberração, na falta de qualidades melhores, apela para a bondade. Só vou acreditar que Jesus Cristo era mesmo tão bonzinho se me provarem que ele tinha uma mão morta, um tico na testa.
Pensamentos assim profundos nos levam a uma divisão enterna entre os amigos: os aleijados, exemplos de abnegação e altruísmo por nos emprestarem dinheiro, e os outros, com quem a gente sai para fazer belle figure – e acaba gastando neles o dinheiro emprestado pelos aleijados. Nunca tive um amigo paraplégico que não se arrastasse até o bar para me pegar um drink; nunca tive uma amiga meio Ava Gardner que não ficasse esperando alguém pagar bebida. Acabei apresentando o paraplégico pra Ava Gardner e atualmente eles vivem em mutualismo no balcão do Pinacoteca. E desse jeito tudo anda em harmonia, sacaram? Tipo assim, Yin e Yiang.
(Post escrito depois de o Bozó ter ajudado meu carro a pegar à uma da manhã de ontem no estacionamento.)
Arquivo de junho de 2006
a difícil arte de fazer amigos sendo desagradável
em que confesso escandalosamente gostar de cansei de ser sexy e não saber quem foi beau brummell
E ontem mesmo, numa festa, uma criatura deu um tapinha na minha perna: “Mas tu é um dândi, não é?” – isso depois de eu ter comentado que o meu ex-professor de latim se vestia bem demais para poder ler a Eneida sem dicionário, já tive frases melhores -, o que é sempre uma pergunta cretina, já que se o outro for um dândi e disser que sim fica parecendo trop voulu e se ele for um dândi e disser que não parece aquela modéstia de tia quarentona que fez lipoaspiração e quer ser elogiada duas vezes. Se ele não for um dândi, quem perguntou é um idiota, e nem vale a pena responder.
Existe uma falta de tato mundana, filosófica até, em tratar o dandismo como uma coisa assim tão planejada, tão auto-consciente. A pose de dandismo é a única coisa que tem de vir naturalmente num dândi, e se ela não surge entre os primeiros reflexos condicionados e o aparecimento dos dentes, pode esquecer, é como querer que alguém aprenda a entortar colheres só olhando. Aliás, essa palavra mesmo já é por si só um incômodo, e o ideal seria que o dândi fosse o contrário de Alá: imagens dele por tudo, nenhum nome para designar. Mas ele não é, e não somente ele não é como já fizeram até este teste para medir dandismo – aconselho vocês a passarem direto para as perguntas; só leiam a introdução se tiverem feito um score muito baixo e estiverem a ponto de beber curare. E se vocês não sabem inglês, esperem tradução minha na Atrevida de julho, junto com outro daqueles testes com as mulheres do Sex & The City.
Ah, antes que venham comentar que eu já estou tentando ser dândi ao dizer que o bom dandismo não deve ser auto-consciente, deixem eu falar pra vocês que eu respondi pra criatura aquela da festa que eu sou um ex-dândi, que dos dez aos doze anos eu passava os dias em casa, de terninho, ouvindo Debussy, mas que depois eu comprei a minha primeira bermuda e o meu primeiro cd de música pop e aí puff.
punti luminosi
É fácil saber onde um escritor erra, é só ler o que ele escreveu sobre literatura. Tipo, nunca tinha ficado muito claro pra mim por que eu achava T.S. Eliot tão superior a Ezra Pound até eu ler Ezra Pound falando dos punti luminosi, coisas muito bonitas e muito ok sobre os punti luminosi, e perceber também que tem muito mais punti luminosi nos poemas do Eliot do que nos do próprio Pound (coisas como “The dead tree gives no shelter, the cricket no relief” spring to my mind).
Foi a mesma coisa com Portrait of a Lady. Bem escrito, descrições maravilhosas, muita pretensão – outro daqueles vícios mas nem tanto de que as pessoas falam mal sem motivo, como se a Praça de São Marcos pudesse ter vindo de algum impulso misterioso à humildade caboclinha – mas no todo o livro não me convenceu. Não que eu soubesse dizer exatamente o que era, mas o meu daimon ficava o tempo todo sussurrando que não, que estava faltando alguma coisa (isso eu já tinha percebido; estou muito mal de daimon. O do Sócrates pelo menos era mais inteligente do que o dono). Até que essa semana estava lendo The Art of Fiction, e o próprio James disse tudo: “the only source of the success of a work of art is that of being illustrative”.
Porque foi bem no “being illustrative” que Portrait of a Lady ficou faltando. Claro, os diálogos são excelentes, o estilo é perfeito, os personagens são todos muito sofisticados, mas o problema é bem esse, eles são sofisticados demais, quase sensibilidades sem corpo. Todo mundo ali é tão inteligente e complexo que parece incapaz de qualquer preversidade que não seja sutil, de qualquer erro que não seja muito digno, ou ainda dessa coisa de gente vil e burrinha que é o sexo – uma brutalidade das mais comuns, que eu vejo prender a secretária do meu pai a um marido adúltero exatamente como Saint-Loup a Rachel ou o Barão de Charlus aos prostitutos que espancavam ele. E que talvez não faça falta numa farsa religiosa medieval ou num hino homérico, mas que eu acho fundamental num romance sobre motivação.
No fim, assim como os punti luminosi de Eliot são maiores que os do próprio Pound, Proust escreveu melhor “the substance of the human spectacle” do que James.
the winner takes it all
O Mauro veio com esse même de seleção de escritores, depois mandou pro Marcos, que depois mandou pra mim. No começo fiquei meio assim de fazer, primeiro que eu não sei nada de futebol, depois que não sou bom em piada esperta com escritor. Também fiquei pensando se o timing não estava errado – fica parecendo que o cara que responde “está em clima de copa do mundo”, o que provoca chair de poule na minha godarzice chatinha. Começa assim e daqui a pouco tu está trocando o template pruma bandeira verde e amarelo, treinando coreografia pra fazer sozinho no sofá quando o Brasil fizer gol.
Nem preciso dizer que mal posso esperar pra ver o Ricky Martin na cerimônia de abertura (já teve? oh…) e que eu já sei de cor toda a minha coreografia e que eu acabei montando a minha seleção de escritores. Molto divertente, por falar nisso (obrigado, Marcos). Só precisei perguntar pro filho da empregada pra quê serve mesmo um centro-avante.
Na linha de frente, coloquei <a href=" Ezra Pound e Evelyn Waugh, dois que atacam duro, principalmente se o time adversário for de Camarões ou de Israel. Atrás de Ezra Pound, deixei Mario Faustino de centro-avante: tem uma tática de jogo muito parecida, mas bem menos violenta. Escalei Nelson Ascher como dulpa de Mario Faustino, pra assim colocar todo mundo que eu gosto na poesia brasileira duma vez, ora. Na ponta direita fica Catulo – não deve ser tão difícil cobrir a lateral direita tendo uma terceira perna sempre ativa. Também por isso, Oscar Wildefoi pra ponta esquerda (troquem a terceira perna por uma bengala). No meio de campo, que eu não ainda descobri pra que serve, deixei Homero – cego, não sei se vai dar certo, mas pelo menos conta como aquela porcentagem que todo lugar deve ter pra deficiente físico (só espero que não seja inútil como a telefonista surda que trabalhou na empresa do meu pai: pra contrar ele, tive de demitir T.S. Eliot). De zagueiro, deixei Maurice Scève e Mallarmé, pra eles poderem ficar sentados o tempo inteiro, criando metáforas engenhosas para “bola”, “goleira”, e só trabalharem quando forem atacados. E por causa da insistência de Mallarmé em não ser deixado sozinho com uma criatura que só fala francês renascentista, coloquei na zaga também Charles Baudelaire, apesar do risco que sempre existe de um suicida fazer gol contra. Finalmente, La Rochefoucauld ficou no gol; afinal, ninguém vai querer ver um duque correndo atrás da bola de salto alto e peruca barroca.
Pensei em deixar a camisa 10 com o melhor de todos, Marcel Proust, mas acho que o que ele gostaria mesmo é de ficar no banco, lendo Racine e olhando com desprezo pra chinelagem que é essa gente com apelidos ridículos, correndo de shortinho com meia até o joelho (mas também pra poder contemplar de canto as coxas de David Beckham, evidente).
(Ah, Ludovico e Nariz Gelado, you’ve got mail.)
cordel do fogo encantado
Descubro com horror que meninos hippies-mas-no-fundo-só-sujinhos – gente que acampa no Fórum e que faz Geologia e que eu não abraço com medo de pegar chato da barba deles – também têm vida sexual. Talvez seja porque sempre tem uma mulher meio intelectual querendo dar pra eles. Digo uma meio intelectual porque as muito intelectuais gostam de mulher mesmo.
Muito curioso isso, a psicologia da mulher meio intelectual. Parece que pra elas inteligência é proporcional à capacidade de se excitar com aleijume. E se elas se excitarem com Colin Farrell – ah, toda aquela sensibilidade buarquiana, aguçada por horas e horas de Clarice Lispector, tudo isso vai se diluir como Eno em água mineral! Os únicos homens bonitos que elas se permitem dizer que gostam são Gael Garcia Bernal (porque é latino e esquerdinha), James Dean ou Marlon Brando (porque as colegas de segundo grau delas não conheciam) e Jude Law. Mas, também, Jude Law.
(Aliás, não são só as meio intelectuais que ficam assim por Jude Law; homens heterossexuais também. O que eu já ouvi de não é que eu seja gay, mas o Jude Law! Sei também de um amigo que na cena aquela do Talentoso Ripley, em que Matt Damon fica olhando pelo espelho Jude Law se trocar, o pai dele teria comentado: “Mas também, com aquela bundinha!”. Assim, como se fosse óbvio. E não vem botar em dúvida o que eu chamo de heterossexualidade que eu sei que tu também.)

Mr. Um Novo Mundo É Possível
Mas também estava pensando agora que não existem muitas mulheres muito intelectuais. As muito intelectuais são as meio intelectuais que gostam de mulher.
burn, lázaro ramos, burn
Pascal ficava aterrorizado com o silêncio dos espaços infinitos.
Eu, o que me aterroriza mesmo é o silêncio depois do “Oi, quanto tempo!” quando encontro um ex-colega na rua. O que deve explicar o “E aí, o que anda fazendo?” de logo depois.



