Arquivo de abril de 2006

sábado, 29 de abril de 2006

histórias que a nossa gente conta: ganesh, o menino com cabeça de jumento

Lampião não queria mais saber de filho. Tinha recebido no postão um folheto do governo explicando que depois do terceiro filho o pinto seca e cai e a pessoa começa a gostar de Sex and the City.
Já a mulher de Lampião – que se chamava assim mesmo, Mulé di Lampião – não tinha lá muita consciência social and stuff. Furou todas as Jontex que ele guardava na cartucheira.
Nove meses depois, nasceu o filhotinho. 200 gramas, ou qualquer coisa como um pacotinho de queijo. Olho arregalado, bochecha chupada, ossinhos de rato. Todo jeito de retirante em filme de Glauber Rocha.
- Vixe, que com essa cara esse aqui não vinga, não. – disse Lampião, dando tiros pra espantar os urubus. Chamou um jagunço – Trapi, me consegue aí outra cabeça pro bichinho.
Trapizomba, o Jagunço Corta-Cabeça, vagou dias e dias entre o sertão do Piauí e da Bahia. Encontrou a Cadela Baleia e Cândido Alegria, Gilberto Gil e o pai da Tieta, aquele com voz de fumante na novela. Tudo figurante de Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Já tinha perdido as esperanças quando viu Corisco num jumento branco, garboso, a crina flamejante. Napoleão teria montado naquele jumento.
Foi lá, tirou a peixeira e cortou a cabeça do bicho.
Corisco ficou louco com Trapizomba. Chamou de “desgramado”, tirou prum duelo. Trapizomba então levitou num pose de ioga e disse: “Ordens de Shankara, o cangaceiro dos ascetas…”. Corisco cravou a peixeira no chão e se prostrou: “Oh, então é uma honra…”
Trapizomba trouxe a cabeça do jumento e Lampião botou no pescoço do Ganesh, que era o nome que ele tinha dado pro menino. Pra celebrar deram um monte de tiro pro alto e se entupiram de buchada de bode.
(Na hora, roeram também a outra cabeça da criança. Essa gente só passa fome porque não sabe guardar comida.)
E foi assim que Ganesh, o Menino com Cabeça de Jumento, virou símbolo de sabedoria pra essa gente suada e sofrida mas que canta.

sábado, 29 de abril de 2006

anviersário do apostos

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E saiu a Aposta 8. Tema: aniversário, claro. Texto do convidado Alexandre Soares Silva no Outros A Postos.
Agora vamos lá, cantem comigo e com a sua tia velha o Parabéns Gaúcho!

quinta-feira, 27 de abril de 2006

meu álbum de fotos: rega-bofe de um ano do apostos

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Bela decoração! (idéia de Agnaldo Timóteo, enviada à cúpula do Apostos através do Rui Goiaba)

(mais…)

domingo, 23 de abril de 2006

profissão de fé de um moço bem prendado

Quer saber quando você está escrevendo bem? Quando você enche o saco das palavras. O problema da maioria dos escritores é esse, eles tentam escrever demais como escritores. Não como pintores, não como estilistas. Fazem tanto esforço para ter cara de artistas da palavra que acabam numa careta de menino livresco. Tudo bem, Mallarmé é dos meus favoritos, mas isso de ficar com os bolsos cheios de “qual” e “tal” e “como” rabiscados em papelotes sempre me pareceu o contrário do que eu gostava nos poemas. Foi só quando descobri os artigos dele sobre toilette de soirée que entendi o que é tão bom em “Le vierge, le vivace et le bel aujourd’hui…”.
Pense numa palavra e no que ela sugere. “Escarlate” tudo bem, é fácil. Mas o que você vê ao ler “então”, que cheiro tem a palavra “quando”?
O problema da literatura é isso, esse monte de tralha com que você tem de conviver. “Por isso”, “contudo”, “enquanto”. E não adianta tentar fugir, fazer colagens de palavras sensorialmente sugestivas: “íris açucena diamante” – sem algum sentido, nada de literatura, e sem “por isso”, “contudo”, “enquanto”, nada de sentido. Então eu fico vendo a alfaiataria de Alexander McQueen, tentando descobrir onde está o “com”, o “porque” ali. Devem ter ficado no ateliê, junto com o quadrante e a fita métrica e uma bicha costureira chamada Leoni – o resultado no palco é o absolutamente bonito. No sentido mais anti-técnico do termo.
Estou acabando uma historinha, e às vezes paro para ver fotos de Montgomery Clift. O objetivo é escrever aquele rosto. O que não deixa de ser incômodo: eu horas na frente do monitor, e o que Montgomery Clift teve de fazer para chegar ao mesmo resultado? Nascer.
(Prova de que modelos e atores de Hollywood são superiores a romancistas.)

quinta-feira, 20 de abril de 2006

cher guevara

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segunda-feira, 17 de abril de 2006

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Portugueses são estranhos. Ficam pensando que Portugal parou no tempo. E que isso é ruim.
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Viu como não é ruim?
Eu queria que o Brasil tivesse parado no tempo. Lá por 1850. Latim no colégio, palmatória, poder engravidar uma virgem. Também praticar alguma vocação da época, quem sabe a de sinhozinho. Não por algum problema com negros, claro. Se nós tivéssemos escravizado argentinos, canadenses, também ia gostar. Viu só como eu sei dar uma reboladinha pra driblar acusações de racismo?
(Mas ainda bem que foram negros. Aqueles corpos morenos trabalhando ao sol.)
Acho que devia ter uns oito anos quando percebi pela primeira vez a tensão sexual que existe na escravidão. Inventei na hora o Tião, o amiguinho imaginário com quem eu brinquei a primeira vez de Mostra o Teu Que Eu Mostro o Meu. Infelizmente o Tião era negro, e eu sempre perdia. Anyway, fiquei feliz uns anos depois, quando vi a cena de Tony Curtis e Lawrence Olivier na banheira em Spartacus. Confirmou a minha impressão dos oito anos.
Esses dias vi uma entrevista com Gore Vidal. Contando que a idéia pra essa cena foi dele. Também para o reencontro de Ben-Hur com o romano aquele que eu não sei o nome. Disse pro ator que fazia o romano que os dois eram amantes. Pra Charlton Heston nada (too straight). E quando os dois se revêem é aquela coisa, só falta tocar “Endless Love”, Charlton Heston não entendedo nada. Impressão minha ou Gore Vidal era obsecado por plantar referências homoeróticas em filmes na Antigüidade? Mas tá, eu gosto dele.
Voltando à escravidão, acabou a reforma aqui em casa. Desde as Pirâmides tanta gente suada sofrida e morena não se reunia pra construir alguma coisa.
(Minha mãe está ficando espírita. Praga tua que eu sei.)

quinta-feira, 13 de abril de 2006

coisas muito classe média

- Plano de saúde, condomínio fechado, Código da Vinci.
- Celular. Papo sobre celular.
- Apimentar a relação.
- Lexotan.
- Divórico. Depois, mais Lexotan.
- A palavra “celebridade” como título de nobreza. A palavra “intelectual” como elogio.
- Sushi.
- Emprego semi-escravo na Austrália. Surfe na Austrália. Austrália.
- “Unhappy mariages”. E ouço Mrs. Allonby na minha cabeça: “How like the middle classes!”

segunda-feira, 10 de abril de 2006

então ser brasileiro é como ter uma unha morta, é isso?

(Dica de etiqueta para blogueiros e trabalhadores ilegais nos Estados Unidos.)
Brasileiro falando mal de brasileiro pra brasileiro é simpático. Brasileiro falando mal de brasileiro pra gente de fora é embaraçoso como alguém confessando que tem uma unha morta no dedão do pé.
(Brasileiro falando bem de brasileiro pra gente de fora é embaraçoso como alguém se orgulhando de ter uma unha morta, etc.)

segunda-feira, 10 de abril de 2006

e sempre lembrando:

talcojohnson1.jpg

domingo, 9 de abril de 2006

wnlc

Novo número do e-zine We’re no longer constipated. Gente cheia de simpatia escrevendo, texto meu (“Wit is a Virus”) em “Stories for the Toilet”, fotos de galinhas gripadas por toda a edição.
Só pra avisar.