Arquivo de fevereiro de 2006

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

libertarian-conservative girls

Faz assim, ó: diz pra mim que é tudo brincadeira, que as pessoas não falam o que pensam, que elas também não agem como falam. Que blogueiro arty dirige caminhão, luta jiu-jitsu. Que todos são imprevisíveis e contraditórios – oh, sim, terrivelmente contraditórios! – mas não por fraqueza, não por ignorância, e sim por diversão. Tá vendo aquele blogueiro ali, aquele barbudo e de cabelo peniquinho, que compara a liberdade com uma calça Lee desbotada? Pois é, puxa a barba dele, que na verdade ele é uma velhota disfarçada, daquelas de novela, sabe, bem chocáveis, que reviram os olhos quando vêem beijo de língua em público. E aquele outro, que prega contra o sexo antes do casamento, diz pra mim que ele tem uma tara estranha, sei lá, que ele gosta de transar fazendo sexo oral num Cheetos Tubinho.
(Declaro solenemente que meu ideal de pessoa humana graçinha é aquele deputado conservador inglês, que condenou casamento gay um dia no parlamento e na manhã seguinte foi encontrado só de meia-calça, enforcado com bondage na maçaneta do banheiro por um michê boliviano.)
O primeiro olavete que me trouxer fotos do Mestre só de meia arrastão, cheirando cocaína num exemplar da Summa Theologica, me converte à seita e ganha um beijo meu na barraca da quermesse.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

iny weeny teeny weeny

Como todo mundo, sempre imaginei que pinto pequeno só fosse pior que homem com teta, que mulher de buço. Até que um dia ouvi alguém comparando um desses com “uma lágrima”. Oh, quanta poesia! Um pinto pequeno que parece uma lágrima é uma coisa triste mas graçinha, mais ou menos como aquele pôster pra criança que tem um palhaçinho chorando.
Se o mundo não fosse um lugar tão bruto e percebesse a beleza melancólica dum pinto que parece uma lágrima, quantos homens realizados, quantas mulheres mais satisfeitas! Por outro lado, continuaríamos a ser entupidos de spams incovenientes. “REDUCE YOUR PENNIS NOW!”, “PENNIS REDUCTION PILLS”.
(Só pra mostrar como nenhuma revolução é perfeita.)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

campanha internacional pela volta do corset

corselet.jpg
Porque um homem bem vestido é sempre um homem de sucesso.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

segundo uma amiga:

Lembra muito o que tu escreves.”

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

concurso de fantasias literárias clóvis bornay

“Difícil é saber
onde dos brilhos
começam as plumas;
onde o homem
começa das plumas;
onde começa o homem
naquele ‘homem’.”

(João Cabral de Melo Neto, ” O Cão com plumas”, dedicado ao vencedor do Concurso de Fantasias do Teatro Municipal, 1950)
clovis bornay.bmp
Clóvis Bornay como Ascensão e Glória de um Cão com Plumas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

marlene dietrich, madrinha da bateria deste blog, sobre o oscar

marlene dietrich legs.jpg
“Já vi atrizes (que estariam ainda melhor roucas, para completar) correrem ao palco para agradecer a todos pela ajuda, da faxineira ao diretor, ’sem o qual eu jamais teria conseguido’, etc. Gostaria de ouvir um ator dizer: ‘Eu consegui totalmente sozinho, não me sinto na obrigação de agradecer a ninguém, mereci milhares de vezes meu Oscar.’ E vê-lo então sair do palco com o rosto impassível, sem abraçar ninguém, deixando lá o troféu. Seria realmente reconfortante para o coração e a para a mente.
“Confesso que tenho muito pouca paciência com atores ignóbeis, hipócritas e charlatães. Também não disponho da mínima vontade de ser tolerante com eles.”

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

the laziest gal in town

Dois amigos jornalistas não gostaram nem um pouco de eu ter debochado da profissão deles no último post – o que é só meia verdade: falei mal das profissões, não só de vocês, assholes. Acho que posso me permitir esse prazer enquanto não tenho uma. De qualquer jeito, aproveitei o meu acesso de culpa judaico-cristã para me impor uma penitência e dar um jeito no caos que estavam os links ali do lado. Coloquei alguns novos, separei quem é Aposto de quem não é e finalmente adicionei Los Olvidados e Nariz Gelado, nossos dois novos membros – com todo o atraso do mundo, eu sei, mas este definitivamente não é um blog de atualidades.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

o paramendigo

Não entendo por que tentam insultar Diogo Mainardi chamando ele de “parajornalista” – não, é “esse parajornalista”. Que ofensa terrível!; não sei como ele não morre de desgosto.
Deixa eu explicar, ó: um amigo seu quer dinheiro fácil. Veste uns molambos, cola uma barba falsa e vai pedir esmola no sinal. Acontece que as pessoas notam que ele não é um mendigo de verdade: dentes limpinhos, cheiro de sabonete. E por isso mesmo dão dinheiro; se de repente todos os meninos de rua fingissem ser playboys disfarçados, fariam em dias o que playboys de verdade gastam num mês. Mas aí os outros mendigos vêem ele andando com os bolsos cheios: “Quem ele pensa que é, esse paramendigo! A gente é que é mendigo de verdade, mendigo dipromado!” E escrevem em blogs denunciando aquele impostor que denigre a classe dos meliantes!, vejam só que coisa.
Mas dá oito da noite, o paramendigo volta para a casa e vai ver “Seinfield”. Os outros continuam mendigos.
Do mesmo jeito, Diogo Mainardi deve voltar para casa e, sei eu, andar de roller, fazer campeonato de pimbolim. Os outros continuam jornalistas.
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E não, querido leitor advogado, professor, dentista: a comparação não vale só para jornalistas. L’horreur de tous les métiers, etc. Quanto a mim, continuo trabalhando duro para me manter um paraplayboy, paralatinista e, muito importante, parablogueiro. Ia escrever “com orgulho”, mas deu vergonha.

domingo, 12 de fevereiro de 2006

sabedoria de boate

O mundo deve ser um nightclub lotado: as pessoas preferem um escroque gentil a um santo que não pede licença.
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Ontem ouvi da mesa ao lado um “Mas eu adoro empirismo!” dito assim, como se fosse “Mas eu adoro Givenchy!”.
Amigos acharam a frase ridícula, mas ela resume bem o que eu entendo por “pretensões intelectuais”.
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Dançou jogando o cabelo na cara? Beware, Horatio: é vagabunda.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

não vi, mas chorei muito *

Muita emoção na saída de “Bareback Mountain”. Duas bichas só pararam de tremer quando ameaçaram com eletrochoque. Outra ficou desmaiada na cadeira. Se recuperou depois que um segurança a carregou no colo até a enfermaria do shopping, mais ou menos como noivo segura a noiva para entrar em suíte de lua-de-mel. Ao chegar na enfermaria, bem que eu vi ela piscando o olho para as amigas invejosas do lado de fora.
Mas também “Brokenback Mountain” é uma emoção só. Impossível não se deixar tocar pela história, apesar da polêmica. Em meio às montanhas do Wyoming, o vaqueiro Fernando Diaz Rutchenko (Francisco Cuoco) – na verdade um agente da KGB eviado ao México para matar o refugiado Leon Trotsky – se perde no deserto e toma o vaqueiro Friedrich Ribentropp (Rutger Hauer) por Frida Khalo – então amante de Trotsky – devido à semelhança dos bigodes. O resto vocês sabem: o que começa como “contato de trabalho” termina como “namoro (homens e mulheres)”. Eu sei, o conteúdo pode parecer chocante, mas as cenas de amor são muito discretas, sem apelação, mesmo quando Ribentropp revela de maneira um tanto imprópria para menores de 18 anos que não é Frida Khalo – eu mesmo me surpreendi, os bigodes são realmente muito parecidos. E o final então: super realista. Diaz Rutchenko abandona a missão e vai morar com Ribentropp. Os dois acabam tendo um filho – que nasce com cara de mexicano, Deus sabe como – e o ex-cowboy Ribentropp acaba seus dias numa fazenda, fritando bolinhos de carne com batata, cuidando dos cinco filhinhos multiétnicos enquanto Diaz Rutchenko enche a cara em prostíbulos do Wyoming. O que não deixa de denunciar a opressão da mulher sob o regime socialista, como levantou esta crítica de Ted Nugent no New York Times.
Enfim, gostei bastante de “Abu-Beker Mountain”, apesar de não ter visto e de no geral não gostar muito desses filmes com gays-que-não-são-bichas. Diretores de filmes com gays-que-não-são-bichas parecem filmar com um censor do Movimento Gay ao lado: “Manda o Stephen Fry não desmunhecar tanto”, “Por que esse gay tem que ter uma amiga chamada Dorothy?” Tirando “Alexandre”, que mostra os feitos heróicos de Alexandre Magno e o feito heróico do diretor em convencer Colin Farell a ser filmado com outro gajo, é sempre tudo muito forçado. Já de “Alexandre” eu gostei. Podem dizer que é cafona; podem dizer que é mal feito; podem até caluniar, inventar que é de Oliver Stone. Mas tive contrações no útero ao ver a antiga Babilônia, ao ver um exército indiano do século IV A.C., ao ver uma falange macedônia em ação. Mais realista que isso só ao vivo; talvez se a Disney montasse um parque temático “Alexandre, o Grande” e encenasse a Batalha de Gaugamela para os turistas. Robin Williams montado num elefante, fantasiado de Dario III, dublando temas escritos por Phill Collins especialmente para a hora da batalha.
Já consigo imaginar a engenhosidade da letra; seria uma baladinha arrastada e teria um teclado açucaradinho, bem Phill Collins, ó:
“In the Plain of Gaugamelaaa
There you’ll be freee
In the Plain of Gaugamelaaa
Just you and meee”

(Agora diz, diz que letra da Disney – e do Phill Collins – não é bem assim, diz.)
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* Ou “À procura do título perfeito”.