Não sei quanto a vocês, mas eu adoro lugares chatos. Quanto mais chato é o ambiente, mais doentia é a minha imaginação. Um colega pedante começa a discorrer sobre a relação metrópole-colônia na Europa do século XVII, e eu fico imaginando a maneira mais divertida de decapitar ele. Certa vez inventei uma caneta que disparava um nylon bem fininho em volta do pescoço da criatura e se prendia ao quadro negro. Eu dava um puxão, e a cabeça do chato rolava na hora, nem deixava ele acabar o terceiro “se bem que é verdade…”. Q. deve ter criado o acento com ejetor de James Bond durante uma aula de Cultura Portuguesa na UFRGS.
Formaturas, então. Não consigo pensar num melhor momento para ser escroque, encher a cara de whisky, flertar com quem não se deve. Amigos me convidam para recepções, especificando de forma mui cristã não ser necessário ir à cerimônia, e mesmo assim eu não perco uma: é sempre um prazer comprar garçons no bar enquanto uma voz longínqua de chato lê o “Juramento de Seriedade do Dentista”, or something.
Além disso, tem o interesse científico. Passo cerimônias inteiras de lupa, observando padrões de comportamento na multidão como quem estuda a excreção dos moluscos. Até uma formatura semana passada, por exemplo, nunca tinha notado que existem modas nos gritinhos de alegria. Mas é verdade: há uns dez anos atrás era “WWWWOOOOOWWWWW”. Depois, na minha época de segundo grau, colegas faziam “AAAAAÊÊÊÊ” quando a aula acabava mais cedo. E agora é o “U-HUUU”; o secretário chama a formanda Francielle Bocaiúva, e a família da Francielle, junto com os amigos da Francielle, e os vizinhos da Francielle, que vieram todos lá de Vacaria só para ver a Francielle segurando o canudo por ter completado essa nova etapa de amadurecimento pessoal, levantam ao mesmo tempo, aplaudindo e jogando confete: “U-HUUUUUU!”. Minha hipótese sobre o atual ciclo do “U-HUUU!” foi confirmada no orkut. É só ver na comunidade do Jack Johnson; 8 entre 10 dos posts começam com “AE GALERA U-HUUUU”, e um convite para luau em Imbé.
Mas, como eu disse, tenho tão mais imaginação quanto menos interessante é o ambiente. Aquela formatura, por exemplo, foi a minha soirée no Hotel dos Guermantes: me veio inspiração para um livro. Um livro que iluminasse um lado até agora inexplorado da experiência humana: um livro que estudasse o uso que cada época faz das vogais para expressar emoções simiescas. Uma História Ilustrada do Gritinho, exatamente como se faz com roupas, com mobiliário, com modos de produção. Já recolhi material suficiente para fazer algumas distinções finas: sob Tibério, o romano médio chamava os amigos para luau com um “ILÊÊÊ”; já nos primeiros anos de Nero, a consoante líquida caiu entre as vogais, e a forma evoluiu para um “IÊÊÊ”. O que confirma duas teses básicas da linguística histórica: 1) a língua está em constante mudança, e 2) uma forma pode ser extinta e retornar com muito mais força anos depois. Basta lembrar que o “ILÊÊÊ” voltou durante os anos 90 na Bahia e atualmente é a forma dominante de linguagem entre os nativos daquela região, como atestam as músicas da Banda Cheiro de Amor.
Enfim, inspiração não me faltará, e Marcos Frota é o meu pastor.
Arquivo de janeiro de 2006
e o que seria de nós sem o marcos frota não é mesmo, minha gente?
urbem quam dicunt Romam
Cansei de comparações entre privilégios de aristocracia e privilégios de parlamentares brasileiros. Como se na bancada do PTB fossem todos heróis militares, todos Aquiles. Se Tétis perguntasse a Severino Cavalcanti o que ele prefere, uma vida longa e obscura ou uma curta e cheia de glória, Severino certamente escolheria um latifúndio cheio de bóia-fria e um pote de rapadura.
Essas gafes têm uma causa: ninguém mais entende o que é uma aristocracia – e, logo, a história da humanidade até anteontem. Por exemplo, este post sobre Roma do 2 Blowhards; aliás, o blog deles é meio jukebox argumentativa – insira uma moeda e ouça uma argumentação impecável sobre o ponto de vista republicano quanto à política de impostos americana durante a Guerra ao Terrorismo -, mas às vezes muito bom. O post do Blowhard descreve Roma como uma sociedade perversa, cita um monte de especialistas falando sobre a economia da República e o espírito marcial dos aristocratas e do Senado, mostra que essa brutalidade não se dirigia só contra os inimigos, mas também contra os próprios romanos: nas escolas, nas famílias, nas legiões. Até aí, nada de errado; são fatos que nem Gibbon nega ou esconde. O problema é que para o Blowhard isso, que ele chama barbárie, faz dos romanos um povo não tão civilizado quanto se acredita – como se a brutalidade fosse um “apesar de” na história de Roma.
(Agora eu vou tomar sol e deixo no meu lugar uma jukebox argumentativa. Já volto para apertar no “publish”.)
Acho que o Blowhard aí é um desses espíritos sérios, laboriosos, amolecidos por um certo cristianismo bonachão – ou talvez pela democracia, o humanismo de estábulo. Roma, como qualquer outra grande civilização, só foi realmente uma civilização e só foi realmente grande porque foi brutal (ou bárbara, como prefere o Blowhard). E apesar de ter sido brega lamentar uma conclusão dessas com furores de moralidade efeminada e esquerdistinha, Walter Benjamim estava certo: civilização e barbárie não são simples opostos. É só pensar no Império Chinês, no Islã medieval, na França da Belle Époque, povos que criaram grande arte, grande filosofia. Para isso, precisavam de meios materiais: concentrar riqueza. Para concentrar riqueza, era necessário se expandir, dominar o povo ao lado – às vezes nem tão ao lado assim, como no caso da França e da Inglaterra. E, para dominar o povo ao lado, provavelmente tivesse vantagem a sociedade mais inteligente, mais organizada (os 40.000 macedônios, com falanges e disciplina, vencendo uma nuvem caótica de 200.000 persas), mas a brutalidade com certeza não devia contar contra. No fim, se a civilização é sempre tão cruel e parasitária, viva o parasita. Afinal, alguém tem de ser escravizado no Vietnã para que outros tenham tempo e dinheiro para inventar o cinema, conceber o tempo como devenir, escrever “À la Recherche du temps perdu”.
O que o Blowhard diz – ou vai dizer no próximo post, esperem – é que Roma caiu porque os romanos eram brutais não só com outros povos, mas também entre si. Pode ser. Mas eles também triunfaram por isso. E a vitória justifica a crueldade das instituições romanas com os cidadãos: foi nelas que os romanos aprenderam como se comportar com os povos inimigos. Tanto a educação estava certa, que venceram.
O único problema político e moral realmente importante para mim é escolher o que é melhor: uma sociedade aristocrática – desigual e um tanto bruta, na qual alguns indivíduos se desenvolvam tanto que saiam por aí atrás de feitos heróicos, conquistando a Pérsia com micro-exércitos -, ou então outra que seja uma Grande Mãe provedora de conforto e igualdade para os filhinhos eternamente insignificantes. Conforme a opinião política de alguém se aproxima ou se afasta de um desses extremos, mais ela tende a admirar ou recriminar Roma ou o Ancien Régime ou qualquer fato histórico de antes de 1789. E, já que uma das tendências do verão 2006 é a de blogueiros darem sua definição pessoal de tendências políticas, mais ela tende à direita ou à esquerda.
our business is us part II
Novo número da We’re no longer constipated aqui.
E nesta edição do e-zine: a banda alemã Stereo Total in concert, uma volta por Helsinki, novo conto meu na seção Stories for the Toillet, uma romena e uma finlandesa estréiam na revista – não acho que eu consiga soletrar os nomes, mas são lindas e vêm com fotos.
Tem mais, mas estou com preguiça de olhar. E está dando um filme com o Mark Marky Mark Wahlberg decadente, depois de “Good Vibration” e antes de Boogie Nights. Quero ver; ele faz um psicopata que namora uma garota certinha e no fim – bom, talvez ele mostre o “ai, como era grande” dele, ator decadente sempre interpreta psicopata e mostra a percussion and drums; a cena final de Boogie Nights foi a última de uma série de tentativas, claro que sim, e ainda por cima era prótese.
Ma basta.
despontando para o anonimato
Ontem eu senti piedade. Tem quem saia de casa sábado à noite para fazer nightbiking; tem quem saia para tomar ecstasy em boate. Eu me aventuro sábado à noite aqui, atirado no sofá, inalando papelotes de piedade com aquela mistura de medo e fascínio típica de adolescente provando droga estranha.
Também: apareceu na tevê um sujeito que se apresentava como caçador de erros em filme. Não que precisasse; dava para ver pelo penteado peniquinho, pela camiseta desbeiçada, pelo fundilho das calças quase no joelho; nunca erro a profissão quando vejo um desses na rua. (Mentira: teve um que encontrei assim na praça da Alfândega e que era caixa de banco. Pensando bem, ontem não foi a primeira vez que senti piedade.) E fiquei imaginando como deve ser triste passar a vida usando aquelas roupas, aquele penteado, aquele óculos de professora americana seventies; o horror de ficar caçando contra-regra em cenário de Vincent Minelli, rindo de erros de continuidade na roupa de Grace Kelly com a boca cheia de Fandangos. Depois, expor ao público a própria loserice em livro e entrevista na GloboNews. Definitivamente, existem destinos piores do que afundar nesta vida jet-set de blogueiro, com roller-girls nuas, dólares em carrinhos de supermercado e cocaína em bandeija.
Mas depois da primeira troca de olhares com essa gentil desconhecida que era a piedade, o entendimento das famílias inferiores do reino animal se abriu aos meus olhos incrédulos. Os difamadores de Paulo Francis, por exemplo. Sempre me pareceu que “Vida e obra do plagiário Paulo Francis”, de não-sei-quem – autor prolixo e popular, esse não-sei-quem -, era mais digno de desprezo que de curiosidade. Afinal, não-sei-quem escreve um livro inteiro sobre erros e imprecisões de alguém maior que ele, de alguém cujos textos não-sei-quem jamais conseguiria escrever. Mas agora até sinto um je ne sais quoi de compaixão por não-sei-quem. Mais compaixão do que curiosidade, é verdade; deve ser triste ter a própria vida resumida pela frase do inimigo a quem se dedica um livro: “Desponta para o anonimato”.
Também mudei meus sentimentos por um blogueiro bovino e efeminado, que antes me causava só tédio, agora também piedade. Esse bom pai, emotivo e cheio de bons sentimentos, diz que Paulo Francis proporcionava a ele “uma das maiores diversões, que era a de procurar erros em sua coluna Diário da Corte.” Talvez uma diversão tão febril se explique pelo caráter do blogueiro; afinal, ele afirma que na época era “capaz de recitar desde as obras de muitos autores aos ganhadores do Nobel, assim como o nome de muitas cidades do interior da Mongólia ou a população de Mossoró no último censo….” Entende-se: trocar nome de personagem em peça secundária de Ibsen equivale “a um engodo! um verdadeiro embuste!” para esses espíritos de fardão.
E esses espíritos de fardão, não-sei-quem e blogueiro bovino, não passam de uma variação do loser caçador de gafes em filme – gente minuciosa, estéril mas trabalhadeira, atenta aos detalhes errados do que eles nunca poderiam construir. Vibrar com falhas de erudição em textos de um gênio é como vibrar com algum erro de continuidade enquanto a garrafa de vinho cai lentamente na cena da adega em “Intelúdio”. Indica atenção e esperteza, mas também um bom tanto de mesquinharia.
Além disso, essa gente usa toda o mesmo cabelo peniquinho, procurem fotos. Fardão e cabelo peniquinho.
histórias tão reais quanto eu gostaria
E naqueles dias de calor sufocante, com a casa em reformas e, portanto, sem ar condicionado, foi sobreviver com o do shopping. Escrevia um poema sobre uma palhaça suicida que morria recitando o monólogo de Fedra; faltou-lhe o nome do tranqüilizante tarja preta para a cena da overdose. Desceu até a farmácia:
- Escuta, que que tu tem de tranqüilizante forte, porrada mesmo?
- Lorazepan, Lexotan, Rivotril – o balconista olhou para ele com desconfiança – Mas só com receita.
Ao que lhe veio o impulso a uma inocente maldade; arregalou os olhos numa careta de Emma Bovary mastigando arsênico e perguntou com a voz ofegante:
- E se eu tomar muito disso, eu morro?
- Ãh…Ãh… – o blaconista foi correndo chamar o gerente, enquanto o falso suicida fugia da farmácia convencido: “romance at short notice was really his speciality.”
anabela flores, ou a compulsão à repetição
Rodaram a manhã inteira. Três bairros vistos, revistos, revirados, e nada. Nenhum imóvel com mais de três dormitórios; quando muito, quatro. A única casa com anúncio de cinco quartos tinha infiltração; além disso, o quinto quarto só podia ser a gaiola de hamster guardada na área de serviço. “Inferno de classe média que não faz filho. É no que dá falta de religião.” O corretor tinha súbitos acessos de religiosidade ortodoxa quando uma comissão ameaçava não sair.
No mais, estranhava aquela mulher – meia-idade, sem sexo aparente e professora de espanhol – querer uma casa de cinco quartos: filhos? não; marido? tão menos; professora de espanhol! Deixou ela em casa depois do meio-dia, e a suspeita de negócios em prostituição só o abandonou quando ele lembrou seu aspecto assexuado. “Clínica de aborto, quem sabe.”
*
Depois do banho quente e do almoço um pouco menos, Anabela Flores se deitou. Não conseguia dormir; um desejo louco a atordoava, e ela só pensava numa casa maior e em mais conforto para os seus bichinhos. Se levantou de um salto: “Está na hora de alimentar eles.” E calçou suas pantufas encardidas, decoradas com carinhas sorridentes de Isabel Allende.
Abriu o porão: vinte e cinco Jude Laws estavam em seus beliches triplos, arranhando móveis com as unhas compridas, jogando tênis com o conteúdo dos seus penicos de areia. A algazarra foi grande ao vê-la; um deles rasgou seu vestido de chita; outro arrancou sua correntinha de Nossa Senhora, e todos só se acalmaram quando Anabela jogou pra eles um garrafão d’água e um saco de Whiskas.
Foi então à despensa; queria ver como passavam os Mastroiannis. Estes já estavam na adolescência; fumavam cigarros fininhos e organizavam reuniões dançantes ao som de Rita Pavone. Olharam para ela com indiferença, insultaram-na uma dúzia de vezes – o que ela achava lindo em italiano -, e receberam também a sua ração.
Depois, distribuiu Whiskas ao 22 Paul Newmans da lavanderia. Também se forçou a ir até um fosso no canto do terreno onde se arrastavam sete Franciscos Cuocos de cueca samba-canção. Jogou o saco de ração o mais rápido que pôde; enjoava com o cheiro de nicotina.
Entretanto, uma idéia não lhe abandonava durante os últimos meses. Neste dia, especialmente, tinha a testa suada, as mãos trêmulas, as unhas dos pés cravadas nas solas das sandálias; ofegava de desejo. Por que não fazer mais um, só mais um desses? Mas devia se conter, esperar a casa maior, os cinco quartos. Resistiu algum tempo. No fim, porém, o impulso a repetir aquele prazer bizarro sempre a vencia. Correu até a estufa, tirou raspas de um dos umbigos secos – antes em fã-clubes femininos, agora ali guardados -, misturou com leite, deu uma mexida e pronto: um Matt Damon em idade adulta estava à sua frente. Não precisava nem de açúcar.
Era o primeiro de uma série de 28 Matt Damons a morar no quinto quarto da casa, logo que ela a comprasse.
waltinho, um brasileiro
(Para Kayla Yu)
Waltinho estava eufórico com a formatura da mãe. Tanto que se dispôs a organizar para ela uma noite inesquecível. Ligou marcando o lugar da recepção; comprou os salgadinhos, as bebidas; mesmo a toga e a roupa para depois da cerimônia ele fez questão de inspecionar. Falava para todos: “A minha mãe está se formando. Direito, direito!”, levantando um dedinho orgulhoso. E então se dispersava em sonhos de glória; via os flashes, a mãe recebendo o diploma, bonita e maquiada, ao fundo tocando “Dancing Queen”.
Todo mundo se alegrava com a felicidade de Waltinho. Bonito um sentimento assim tão forte dum filho pela mãe. Tinha sido assim também quando ela se casou pela terceira vez.
Quando chegaram os convites, Waltinho se prontificou a distribuir.
Wanda não saiu do telefone do escritório aquele dia: os convites, não tinham defeito? o número certo? e Waltinho, conseguiu entregar a tempo? Mas ligava para o celular dele: ninguém atendia; em casa, uma mensagem acusava problemas no aparelho.
Sua preocupação virou histeria quando uma amiga ligou no fim da tarde; Waltinho não tinha passado ainda. Logo ela, a casa ao lado da sua. Saiu do escritório meia hora antes do fim do expediente.
No ônibus, foi terrivelmente mãe: temia por Waltinho assaltos, acidentes, males súbitos.
Finalmente chegou em casa. Estranhou o fio do telefone cortado, o espelho espatifado por um copo de whisky, suas bonecas de pano esfaqueadas na mesa de centro.
Nada do filho. Foi então que ouviu um choro abafado no quarto.
Lá, encontrou Waltinho com seu vestido de noiva, dando tesouradas nos convites de formatura:
- VAGABUNDA! ELA SEMPRE CONSEGUE TUDO! TUDO!
dsm-IV e clement greenberg
Todo distúrbio mental tem um certo valor artístico – quando não ao criador, pelo menos ao que ele cria. Psicose, por exemplo, pode inspirar boa pintura, ainda que não baste para criar bons quadros. Essa diferença é importante: pintor incompetente às vezes tenta facilitar as coisas e trocar técnica por retórica surrealista.
Escritores também não precisam ter cavanhaque de cardeal renascentista, mas saber criar personagens perversos – Charles Morel, Lafcadio Wulki – é tão fundamental para um romancista quanto é para um misógino saber distinguir com os olhos vendados entre tetas e melões. Mesmo histeria pode ser insuportável em escritoras reais, mas são exatamente os traços histéricos que fazem de Emma Bovary uma mulher interessante – talvez por ter sido o marido quem teve de agüentar, não eu.
Já obsessividade é um traço de caráter bem mais importante a um artista, e toda a obra do grande Mondrian pode ser explicada por aqueles medos dele, de fracassar, de não conseguir pintar, de numa gozada perder a inspiração junto com os espermatozóides.
Só a hipocondria é estéril como útero de sobrevivente nuclear. Talvez porque, enquanto as outras doenças elevam o espírito – através da culpa, do delírio, da maldade -, a hipocondria o rebaixe até a carne. Hipocondríacos só conseguem criar tumores imaginários no cerebelo, podem escrever.
o pensamento vivo de rodrigo de lemos-IV
Acho que só o Psicólogo Ideal poderia desprezar a glória – alguém que conhecesse tão bem o mecanismo das paixões e os motivos que nos levam a desprezar ou a admirar alguma coisa, que não pudesse deixar de se perguntar: “Mas é para isso que se quer tanto brilhar?”
*
O excesso de juventude que nos alegra em fotos de seis anos atrás é o mesmo que nos embaraça em textos da mesma época, e quase sempre se pode dizer que uma marca de expressão a menos no rosto equivale a uma marca de expressão mal empregada a mais na escrita.
histórias mais reais do que eu gostaria-II
- Agora a gente vai ler a poesia erótica do Bocabe. Alguém quer ler alto pra nós?
(Silêncio.)
- Tu, Natália, não quer ler?
- Não, professora, não.
- Então tá, deixa que eu leio este aqui.
(Começa a ler com a graça que só professora de literatura portuguesa sabe ter, sem ritmo, sem marcar os versos, sem pausa na 6o. sílaba.)
“Porri-potente herói, que uma cadeira
Susténs na ponta do caralho teso,
Pondo-lhe em riba mais por contrapeso
A capa de baetão da alcoviteira:
Teu casso é como o ramo da palmeira,
Que mais se eleva, quando tem mais peso;
Se o não conservas açaimado e preso,
É capaz de foder Lisboa inteira!
Que forças tens no hórrido marsapo,
Que assentando a disforme cachamorra
Deixa conos e cus feitos num trapo!
Quem ao ver-te o tesão há não discorra
Que tu não podes ser senão Priapo,
Ou que tens um guindaste em vez de porra?”
Viu, Natália, que que tem? Não precisa ter vergonha. – e se dirige para toda a sala – É que, pessoal, a poesia do Bocage é erótica, não é pornográfica.
Os alunos parecem confusos – não sabem o que pode haver de mais indecente numa orgia que num senhor levantando cadeiras só com a sua percussion and drums. E ainda mais o marsapo, e os conos, e a cahamorra! Ela então explica:
- A diferença é que a pornografia é um uso doentio do sexo…
E ao dizer essas palavras mágicas, se transformou em Ana Maria Braga. Com câncer no reto tudo.

