
“The Earth is round…”
Arquivo de dezembro de 2005
1960’s
Tenho andado muito sério, intrigado por um problema tão grave quanto a minha cara ao comer Danoninho de manhã cedo: afinal, gosto ou não gosto dos anos 60? Passei a semana inteira no Google images, tentando montar esse quebra-cabeças conceitual de primeira importância para o desenvolvimento de qualquer sistema ético possível na modernidade; a única fotografia que quase o resolveu, e a favor dos sixties, foi esta:
Porque os sixties foram a última década a conhecer o verdadeiro Charme – afinal, ele foi atropelado em 1964, com um Jaguar conversível dirigido por Jayne Mansfield enquanto ela se distraía do trânsito fazendo boquete no Jorginho Guinle. Por outro lado, praticamente todas as bobagens que não só contaminaram a nossa cultura, mas que agora já se tornaram ela própria – cultura pop, anti-classicismo, democracia boçal – ganharam direito de cidadania lá. Os fantásticos artistas dos anos 60 trocaram forma por discurso, destruíram a abstração (uma das melhores coisas da arte moderna) e mostraram em performances seus pintos de intelectuais cloróticos do mesmo jeito que mulher traída reclama do marido (no caso, o esteticismo) – sim, tudo o que Lygia Clark fez depois de 66 é reclamação chorosa contra uma corneação de Franz Weissman.
O mesmo na música – foi lá que a swinging London estabeleceu por anos a ditadura do proletariado que foi a do rock (trocada depois pela do reggae, do rap, do house, não muito melhores); o mesmo na moda – nunca me esqueço da reportagem de Paulo Francis sobre uma retrospectiva de moda no século XX no MoMA; depois de passar por uns Channel, por uns Dior, ele resmungava algo como: “E depois vieram os anos 60, que estabelceram a traparia democrática com que as pessoas se vestem agora”. Agora, vendo um senhor de cabelo comprido, já meio careca, esperando o ônibus lá na rua de bermuda caqui e camiseta listrada de verde e vermelho, não posso deixar de amar um bom tanto essa frase de Francis.
E ao mesmo tempo eu até gosto da ditadura do rock – vejam! estou tremendo, não aceetro sa lrates do tacledo, de tanta indecisão. Lembro dos Kinks, dos Faces, de Jeff Beck no primeiro disco: como eles tinham charme! Seria mesmo um prazer passar um inverno num goulag, ouvindo “Where Have All the Good Times Gone?”, sendo burocraticamente oprimido por Twiggy.
Também a moda nos anos 60 ainda existia; existia Saint-Laurent:
O que houve de errado nos sixties, então? Pergunta retórica é brega; eu mesmo já disse: um menino mod mexeu na direção enquanto Jayne Mansfield dava oral pleasure ao Jorginho Guinle; o Charme vinha de bicicleta, assobiando “Green Onions”, e foi arremessado a uma distância de mais de 100 metros do local da colisão; horas depois, acharam só um pé de seu sapato bicolor e um óculos modelo Aviador ensangüentado.
E é com esses restos de Charme que as pessoas viveram nos anos 70, 80; em 72 o Roxy Music quase reconstituiu o corpo inteiro na letra na letra de “Virginia Plain” (“You’re so sheer, you’re so chic, teenage rebel of the week”; “Baby Jane’s in Acapulco; we’re flying down to Rio”; os “Midnight blue cassino floors”); nos anos 80, se alguém conseguiu eu não vi.
Já nos 2000, ele veio se recuperar na casa de uns amigos – mas o óculos modelo Aviador é meu.
problema de corte e costura
O que me impede de ser cristão é exatamente o que me impede de ser esquerdista: desconfiança quanto à piedade.
Toda pessoa digna de piedade não o é por mais de cinco minutos. Cinco minutos é o tempo que ela resiste até fazer alguma coisa por que mereça raiva. Mulheres se descobrem traídas e logo depois estão com a maquiagem borrada, atirando cinzeiros nos maridos; furacões arrasam casas de pobres, e eles saem por aí estuprando, cantando rap, saqueando supermercados por bonecas da Beyoncé. Mesmo Cristo voltou dias depois da crucificação, cobrando a humanidade inteira por um favor que ninguém pediu. Talvez só por ser o Verbo feito Carne – sim, porque contraditoriamente e por capricho creio que ele era – o tempo em que mereceu piedade durou alguns dias a mais que cinco minutos.
Os motivos por que o infeliz tenta provocar raiva depois de compaixão podem ser vários: o humilhado se alegrar ao humilhar; a reação a uma crueldade ser mais cruel que ela própria, ou ainda todos saberem, e nem sempre de forma muito consciente, que a raiva rebaixa menos do que a piedade: acabam preferindo a primeira. Já quem busca compaixão, a busca como uma arma – o abandonado quer ao menos pena quando já não provoca amor, etc.
(Ah, também a superioridade de velhota que experimenta aquele que se compadece.)
Sentimentos desse tipo – ter e provocar pena, além do impulso a preferir raiva quando finalmente a conseguimos – sempre me parecem pouco nobres. O problema começa na própria palavra: compaixão – este “cum” do latim, que indica partilha, companhia e logo uma certa promiscuidade moral. Quem se compadece, “padece” junto, divide o sofrimento com o outro, o que não é muito mais higiênico do que dividir um cotonete, um Tampax – eu ao menos nunca empresto o meu e não recomendo, gurias.
Mas, ao contrário da maioria, me orgulho de não ser esquerdista e me envergonho um pouco de ser não-cristão. Me envergonho porque, se não ser cristão me poupa da cobrança por piedade (que no meu caso seria maçante e inútil), ao mesmo tempo me priva de aproveitar totalmente a beleza dos mitos e da teologia cristã: a Idéia Suprema, a virgindade de Maria, o Verbo feito Carne, coisas em que não sei por que até acredito um pouquinho. E ao mesmo tempo me orgulho de não ser esquerdista exatamente porque o esquerdismo é compaixão e igualitarismo cristão, com toques maquiavélicos na versão marxista, com uma certa covardia bovina na versão social-democrata, mas sem charme espiritualista em qualquer corrente.
Se cristianismo é platonismo para o povo, esquerdismo é cristianismo para a cafonalha – gente que copia as idéias ruins de uma, no geral, boa metafísica do mesmo jeito com que se copia Versace de revista: imitando o mau corte e não o bom acabamento.
o super-filósofo contra a equivocidade dos termos naturais
Desde a infância, um super-problema nunca deixou de perseguir o Super-Filósofo: como podiam as palavras ter tantos significados? Ele lia no dicionário o longo verbete “perna”, e as letras se embaralhavam, espasmos lhe sacudiam os membros, e ele caía no chão da biblioteca, chorando em posição fetal, com as mãos na cabeça.

Tony Ramos como Super-Filósofo para a série homônima da década de 70. Segundo o “Dicionário Globo de séries e novelas”, o ator teve de se submeter a um ano e meio de laboratório em Leipzig até compreender a diferença entre ato e potência e aparentar QI acima de 80.
Mais tarde – seus músculos já fazendo volume na malha do uniforme – o Super-Filósofo tomou para si uma super-tarefa: acabar definitivamente com a equivocidade das palavras. Carrinhos de bebê que esperassem para ser atropelados; mocinhas que se virassem ao cair do Empire State; vilões caolhos em bases submarinas que fizessem quantos planos milionários quisessem para dominar o mundo; muito mais importante agora era saber como definir que o mundo a ser por eles dominado era o mundo-Mundo mesmo, e não o Mini-Mundo de Gramado. “A importância de precisar bem os termos de uma discussão”, afirmava ele, com o dedinho levantado.
E saiu por aí executando seu super-plano. Por onde passava, deixava uma plaqueta com o nome de cada coisa: “carro”, “porta”, “parede”. E se ouvisse na rua um gordinho ser chamado de “parede”, lançava um super-argumento em laiser contra o leigo herético em filosofia da linguagem, deixando-o paralisado por dois dias e convencido de a univocidade ser absolutamente necessária para uma comunicação eficiente.
Como parte deste esforço heróico, o Super-Filósofo resolveu também reformar os uniformes dos colegas. Bordou uma lanterna na malha do Lanterna Verde, um “S” na do Super-Homem, um “WW” no bustiê da Mulher Maravilha. Todos aceitaram as inovações, menos a Mulher Maravilha – Linda Carter não gostava de semântica clássica.

Mulher Maravilha combatendo Frank “Frege” Mancuzzo contra qualquer diferenciação rígida entre sentido e referência.
E então, quando praticamente tudo já tinha recebido um nome só para si, o Super-Filósofo deu de cara com um problema: como pendurar plaquinhas no que não se pode pendurar nada? Nomear assim a luz? O ar? E o amor? E o ciúme? E uma cólica menstrual? O Super-Filósofo parou, perplexo. Olhou em volta; plaquinhas penduradas em tudo, um trabalho de anos: pela primeira vez, uma lágrima brilhou no seu super-olho analítico. Resolveu então não abandonar a teoria, e sim provar a inexistência das coisas que a contradiziam. Concebeu para isso uma série de argumentos contra a realidade ontológica dos entes abstratos.
Afinal, o Super-Filósofo teve de inverter a máxima de Wittgenstein; para ele, aquilo de que não se pode falar nada simplesmente não existe.
de litteris et armis
- Porque a função da literatura é nomear o Inomeável, libertar o fluxo de…
Não, não: a função da literatura não é nada vaga, nada efêmera. Pelo contrário, é uma função das mais evidentes e duráveis que eu conheço. Os homens práticos da época de Sófocles, que deviam olhar com desprezo para um simples escritor de teatro, seriam absolutamente inúteis numa métropole do século XX. Em compensação, Édipo-rei… O mesmo talvez aconteça com Proust, com Thomas Pynchon – mas certamente não acontecerá com os executivos da nossa época, curiosidades arcaicas daqui a 2000 anos.
Isso porque a função da literatura, ao contrário do que dizem, é muito concreta: prazer. Um hedonismo baixo, se não fosse tão intelectualizado. Se pode contestar todas as outras funções que emprestam a ela: conhecer o homem, comunicar verdades superiores, servir de espelho para a sociedade. Mas prazer, assim como dor – filósofo nenhum consegue duvidar da existência dessas duas excitações. Gaudeo ergo sum.
(E se o seu adversário disser que sim, contra-argumente com um trabalho de sopro ou uma boa apertada no mamilo.)
o pensamento vivo de rodrigo de lemos II
Disse que a ex-mulher é extraordinária? Só pode ter sido canalha; traiu, abandonou, mandou abortar.
Impossível viver com alguém sem perceber o seu jeito todo especial de ser absolutamente comum.
*
Mulheres feministas são quase sempre feministas mulheres; escritores direitistas, direitistas escritores.
“Ismos” políticos raramente se contentam em não passar de adjetivos.
*
A palavra “algibeira” se tornou arcaísmo não por surgimento de um novo termo, mas por o que ela refere não estar mais em moda.
Agora troquem “algibeira” por “virtude”.
bryan ferry é um rodrigo de lemos wannabe
Estava vendo páginas sobre Bryan Ferry na internet e – Deus! – como ele gosta de me imitar.
Se fosse cobrar royalties das letras do Roxy Music que foram idéias minhas, não restaria um terninho acinturado, uma camisa Saint-Laurent naquele armário impecável. No verão de 1972, por exemplo, nos encontramos num bar de hotel em Havana; desde Yale não nos víamos, e passamos a madrugada inteira juntos, tomando mojitos e falando de conquistas de faculdade e comendo vermes de ouvido afogados em tequila (um deles era “Slave to Love”, que eu sei). Ele estava em férias como gerente do almoxarifado de uma loja de cortina em Londres, e eu, com muita modéstia, contei a ele o que estava fazendo na América Latina: o sucesso, as noitadas no Ritz, as roller-girls nuas, a turnê com o Roxy Music, a peruca de Brian Eno – morena, crespa e até o chão, grudada com velcro na lãzinha que ele mandou costurar na careca especialmente para ela:
- Num show, e eu acho que foi durante “Ladytron”, um rodie pisou num chumaço e o velcro fez “KKKKRRRR…”. Pensei que tinha sido o sintetizador, e só me dei conta quando vi o público rindo da careca do Brian. – e ríamos, e ríamos, e tomávamos mais mojitos.
Contei para ele também de Baby Jane, minha garota, que andava seriamente perturbada e tinha ficado em Acapulco cuidando de uma irmã ex-estrela de cinema, na época já paralítica, e que morreria misteriosamente afogada na piscina do hotel na noite posterior. Enfim, mais uma história triste na vida de uma underground star como eu.
No fim da noite, me despedi; voávamos para o Rio na manhã seguinte.
Não é que meses depois, quando Bryan Ferry passou a história da peruca ao The Sun, com fonte e tudo, e Eno me expulsou do grupo, e chamou Ferry para cantar no meu lugar em sinal de gratidão, ah, qual não foi minha surpresa ao ouvir a letra de “Virginia Plain”:
Baby Jane’s in Acapulco; we are flyin’ down to Rio”
(…)
Havana sound we’re trying hard edge the hipster jiving
Last picture shows down the drive-in
You’re so sheer, you’re so chic,
Teenage rebel of the week.
Não, rapazes, não pode ser só coincidência.
Desde então, Bryan Ferry ficou totalmente obcecado por mim. Nos anos 70, foi para cama com Jerry Hall só porque tivemos um caso; usava roupas de onçinha para imitar meu guarda-roupa; revirava meu lixo; roubava minha lingerie, minha escova francesa; Brian Eno, no inverno de 73, me mandou um torpedo desesperado, dizendo que Ferry ficava horas na frente do espelho, cantando com as sombrancelhas caídas para ter um olhar tão casanova quanto o meu. Terminava o torpedo pedindo “pow meo volta p/ nós!!!”. Na época já estava assinando contrato para substituir David Bowie nos shows de David Bowie – os Spiders tinham decidido expulsá-lo da sua própria turnê naquela semana – e recusei. Roxy Music, quem se importa com Roxy Music.
Mas a punição por tanta maldade “Louca Obsessão” veio anos depois. Bryan Ferry foi eleito por seis anos consecutivos como the coolest guy in Britain. Mais un-cool impossível.



Brian Ferry em diversas tentativas fracassadas de ser eu.
bad sex in fiction award
Só agora fiquei sabendo quem ganhou o Bad Sex in Fiction Award. Alguém muito vago, alguém chamado Giles Coren. Que eu saiba, é crítico gastronômico no The Times inglês, reclama de tudo e parece não ter muita graça. Quando perguntado sobre quem é o maior chefe da nossa época, respondeu: ‘Ronald McDonald, the poisonous criminal bastard.’ Eu bem que diria a mesma coisa – mas só até a vírgula, e com um risinho garoto-maroto-travesso por trás do pince-nez.
(É o que eu digo; quem não gosta de Mc Donald’s pensa bobagem, não sabe escrever. É um gingado na boquinha da garrafa para deitar intelectualidade; isso e votar na esquerda.)
Fiz uma tradução esmerada da cena que ganhou o Bad Sex Award; parabéns a Mr. Coren, parabéns para mim.
pragmatismo
O ideal de Absoulto é a maçã que se prende na testa do jumento, para ele seguir em frente.
E o jumento anda.


Cenas do jumento andando.
we’re no longer constipated
# Alemães em Berlim
+ Venezuelanos em Caracas e na Espanha
+ Americanos morando em Nova York
+ Espanhóis em Madri
+ Um brasileiro morando por aqui mesmo
=
we’re no longer constipated
Revista virtual de fotografia, artes plásticas, moda, indiezices.
Daniel d’Armas escrevendo sobre Candy, aquela que took a walk on the wilde side com Lou Reed.
Ficção: Jefferson Finch (“Would you?”, p.33) e eu (“Like Black Holes in th Sky” p.30), na seção “Stories for the Toillet” – o que deve ser um elogio, de um jeito estranho.
Já fiz meu comercial. Afinal, our business is us, maestro.

