Eu gosto da Vida. Acho que é uma moça prendada, tem boa dentição, e todo dia a gente se cumprimenta, quando eu levanto e ela vem limpar meu quarto. Mas a Vida tem um problema: às vezes ela cresce demais. Em longitude, em latitude; e minha mãe tem de manter a geladeira sempre trancada e as plataformas dela sempre escondidas, para que a outra não queira parecer ainda maior. Avisaram na carta de recomendação, mas ela não deu bola quando assinou o contrato.
E quanto maior a Vida fica, mais ares de patroa ela assume. Escolhe horários para tudo. Ler com ela em casa, por exemplo, é impossível. É começar uma página, que a Vida bate na porta do meu quarto; quer passar cera no chão ou diz que vai limpar os vidros. Escrever, então. Eu ainda na primeira frase, e ela vem tirar pó do teclado. Resolve passar álcool no monitor. E começa a me contar histórias de irmãos assaltantes e vizinhos lobisomens enquanto concebo metáforas geniais relacionando uma receita de omelete com a dissolução do império carolíngeo.
É por isso que recuso polidamente quando me desejam uma Vida “cheia de amor”. Questão de maquiavelismo: é o temor, não o amor, que garante a fidelidade – principalmente nas criadas. Além disso, é bom manter com a Vida uma relação estritamente profissional; “amor pela Vida”, ou a “Vida com amor” dá muita confiança, faz ela se sentir da família. A Vida é uma empregadinha atrevida e meio incompetente, a quem a gente deve mostrar o seu devido lugar quando ela começa a escutar rádio Caiçara muito alto. E não, não é por esnobismo, não. É que, de outro jeito, ela não nos deixa escrever.
Arquivo de julho de 2005
da minha relação estritamente profissional com a vida
como eu conheço bem os séculos!
O melhor da literatura francesa foi o século XVII e o XIX. E digo e porque o século XVIII me impede de dizer ao. Claro, a época do Ilumismo foi uma grande mudança na sensibilidade, no pensamento do Ocidente – uma mudança para pior, pode ser, mas mesmo assim uma grande mudança. Só que o Iluminismo cheira a estábulo. Dos livros de Rousseau, de Montesquieu, se desprende aquele odor perculiar de alguém que antes de escrever ordenhou vacas.
*
(O século XVII, sim. Corneille, Pascal, Racine, La Rochefoucauld. Sem contar os dois Luíses, e Richelieu, e Mazarin. Perto disso, a única contribuição cultural do século XVIII foi Voltaire ter chamado o século XVII de Grand Siècle. Mesmo assim, Zadig é divertido.)
*
E por este mesmo motivo o século XIX foi tão bom. O século XIX foi uma tentativa de limpar os restos de palha e o cheiro de estábulo que os democratas insistiram em semear entre as páginas dos livros. Por isso o dandismo, este purificador de ar da literatura. No fim, a história do século XIX na França não é mais que a história de um vendeiro em mangas de camisa, o Sr. Dupont, insultando em público a figura resignada de um dândi através dos livros do Zola. E um dia, de tanto ser insultado, o dândi se recolheria, buscando refúgio em meio aos sacos de arroz e farinha no fundo da venda do Sr. Dupont. Mas isso foi um pouco depois, num dia de outono de 1940 – o que faz da venda do Sr. Dupont um lugar festejado até hoje por presidentes sul-americanos, e da história do século XX uma história meio melancólica.
wisdom and high heels
Ginger Rogers
[About Fred Astaire] “Sure he was great, but don’t forget Ginger Rogers did everything he did backwards . . . and in high heels!”
Marlene Dietrich
“How do you know love is gone? If you said that you would be there at seven and you get there by nine, and he or she has not called the police yet – it’s gone.”
“I love quotations because it is a joy to find thoughts one might have, beautifully expressed with much authority by someone recognized wiser than oneself.”
“Think twice before burdening a friend with a secret.”
“[The lover says:] How beautiful you are, now that you love me”
“Latins are tenderly enthusiastic. In Brazil they throw flowers at you. In Argentina they throw themselves.”
“Sex. In America an obsession. In other parts of the world a fact.”
Greta Garbo:
“Your joys and sorrows. You can never tell them. You cheapen the inside of yourself if you do tell them.”
Mae West
“Between two evils, I always pick the one I never tried before.”
“Give a man a free hand and he’ll run it all over you.”
“Good sex is like good bridge. If you don’t have a good partner, you’d better have a good hand.”
“I generally avoid temptation unless I can’t resist it.”
“I wrote the story myself. It’s about a girl who lost her reputation and never missed it.”
“Ten men waiting for me at the door? Send one of them home, I’m tired.”
“You only live once, but if you do it right, once is enough.”
Louis XIV
“Has God forgotten all I have done for Him.”
noel coward on criticism
“Criticism and Bolshevism have one thing in common. They both seek to pull down that which they could never build.”
(Já faz duas semanas que não consigo dormir, recebendo telefonemas ameaçadores de leitores exigindo um post só com citação. Voilá finalmente.)
por que festas?
Não, não é que eu esteja contradizendo o post anterior. Sei que contradições são como giz em quadro-negro: causam chair-de-poule em alguns leitores. Não, definitivamente não é isso. Mas é que existe a remota possiblidade de festas serem quase tão boas quanto livros. E talvez nem tão remota assim: já fui a algumas que como literatura eram infintamente melhores que as obras completas do Camus. Depende da qualidade dos personagens que você encontra nelas. E como em qualquer boatezinha dá para achar mais personagens divertidos que em toda a literatura existencialista – well, concluam vocês. Além disso, até poderia argumentar que eu, ao natural, sou bem mais interessante que a maioria das criaturazinhas que cuidadosamente se arrastam na “Idade da Razão”. Mas existe uma séria contradição lógica na proposição que junta “eu” e “ao natural”, e que me impede de servir de exemplo à tese.
Claro, não é qualquer festa que pode contar como literatura. Funcionário público em fim de ano, nem pensar. O mesmo para chá-de-fralda. Porque para uma festa contar como literatura, deve ter pelo menos: a) 50% das mulheres vestidas elegantemente; b) 50% das mulheres elegantemente vestidas; c) homens gordos, de piteira; d) garçons servindo Veuve-Clicquot (verdadeiro ou não, pouco importa); e) comentários maldosos feitos amavelmente. Para os dois primeiros requisitos, estou biologicamente impossibilitado; para os outros dois, me faltam peso e dinheiro; mas do último, eu geralmente me encarrego. E muito bem, devo admitir. Por exemplo, teve aquela menina chata, tão chata quanto magra, que me perguntou se eu não queria vê-la nua e que eu dispensei, respondendo que já tinha visto Cocoon duas vezes, obrigado. E teve também a bicha inglesa que tentou destruir a festa de um amigo e de quem eu me vinguei mais tarde, drogando-a com seis uísques, dois daiquiris e 23 drágeas de benflogim infantil. (A propósito, feliz Bette Davis se tivesse descoberto a tempo o truque do benflogim com álcool; a ressaca é sempre mortal.) Enfim, tantos feitos, tantas marcas, tantos exemplos de moralidade irrepreensível. De tão satisfeito comigo, acho que meu nariz vai sangrar.
No fim, toda festa boa parece literatura, e toda boa literatura se parece um pouco com festa. (Não, leitor, não adianta; não consigo conter estes impulsos que me levam a generalizalções impróprias. Mas vou tentar, ó:) Ok, talvez nem toda boa literatura seja como festa. Mas é sintomático que à medida que os romances foram ficando mais chatos, as cenas de festa foram ficando mais raras. Madame Bovary no baile do castelo, se olhando no espelho enquanto é cortejada por condes e duques (vejam esta cena filmada por Vincent Minelli; vejam). O estudo dos monóculos dos convidados em “Du Côté de chez Swann”. E, para variar os livros do outro post (que se repetiram, se repetem e se repetirão por serem os meus favoritos), M. de Nemours e a Princesa de Clèves se reconhecendo só pela beleza mútua num baile do Louvre. E agora: onde, onde é que se acha cena de festa em toda a obra do Sartre?
Acho que encontrei um bom indicador de chatice literária.
por que livros?
Primeiro: porque cidades são feias. Cidades são aquele tipo de coisa que tem um conceito maravilhoso, mas uma materialização frustrante. Para identificá-las é simples: um amontoado de prédios cinza, anúncios de mau-gosto e gente que não vale nada. Até Paris, até Ankara, até Santiago de Compostela são assim. Porque na frente da Sainte-Chapelle tem sempre um porteiro tunisiano discutindo, sei lá, partida do Paris Saint-Germain com o chefe do almoxarifado, enquanto você tenta ver os vitrais. E é essa promiscuidade mental, essa obrigação de estar sempre mal acompanhado, que estraga qualquer coisa interessante que você esteja fazendo em qualquer cidade grande do mundo, de Porto Alegre a Paris.
Mas não é só em cidades que pessoas são viscosas: ao natural mesmo elas não são muito melhores (menos eu e a minha mãe, claro). E o problema não é só aquele cheiro peculiar que sociedades coletivistas ou quartos fechados com muita gente exalam, não. Nunca me esqueço de uma cena de “A la Recherche du temps perdu” em que Saniette, o filósofo paspalho e courinho dos Verdurin, é humilhado num jantar na casa deles. Proust diz, então, que Saniette se retraiu, baixou a cabeça e olhou para os convivas com o olhar resignado de quem sabe o quão pouco valem as afeições humanas (não lembro direito as palavras; devo ter anotado em algum lugar. Mas é mais fácil achar esta cena nos sete volumes de “A la Recherche” do que anotações na minha gaveta). E a vida em sociedade não é muito mais que isso: hordas de Saniettes sendo escorraçados de salas-de-jantar, lutando cômicamente para serem Verdurins uns dos outros. Com a diferença de não entenderem que a vida pode ser menos boba do que isso.
Tanto é assim que a boa literatura dos últimos 200 anos tem sido uma constante demonstração do nada que são as relações entre os homens. Madame Bovary cometendo suicídio por amantes que na verdade eram a ela indiferentes. Brás Cubas filosofando amargamente no post-mortem. E a própria “A la Recherche…” não é mais que a história de um homem tentando achar satisfação no amor e na mundanidade e não encontrando em lugar algum a não ser no seu próprio passado. O que os realistas-ou-quase fizeram de bom foi ter mostrado com (sórdidos) detalhes a feiúra da vida deixada por si. Por isso mesmo, o realismo puro é incompleto; depois de escrever “Madame Boavary”, é preciso apontar um ideal – o que faz de “Salammbô”, por exemplo, um grande romance.
(Porque mesmo fazendo concessões, continuo achando o realismo dull. Não são os personagens que devem parecer pessoas; são as pessoas que deviam parecer personagens.)
Mas a melhor razão para os livros é as roupas serem muito caras. Sério. Se eu pudesse, seria um pequeno Balzac da blogosfera, recebendo 50 reais por cada acesso no meu site e usando o dinheiro para pagar dívidas na Casa das Sedas. Porque, afinal, a beleza é uma coisa-em-si que pode se manifestar tanto num blaser de veludo quanto num poema do Paul Valéry ou no nariz de um menino grego chamado Carolos. E foi graças a estes poemas do Paul Valéry que ontem à noite gastei só 20 reais com “Charmes” e não me endividei em mais de 600 com o blaser que eu queria. Viva a literatura: troquei um pelo outro, escapei de uma boa chance de ter meu cartão de crédito cancelado e ainda voltei para casa satisfeito. Se tivesse achado o menino Carolos numa vitrine por 14,90, a satisfação teria sido completa.
E podem, podem me chamar de alienado. Mas boa parte das pessoas que acompanham em detalhe eventos irrelevantes como vida sexual de atrizes de novela ou crises políticas em países sul-americanos também são alienadas quanto à queda do Império Romano do Ocidente, e ninguém fala nada. Nem eu. Só acho que preferir Gibbon ao casal do Jornal Nacional pode não ser muito comunitário e engajado, mas é mais bonito. Questão de delicadeza gástrica.
a crítica da razão pura e um par de glúteos durinhos
Quase toda discussão se divide em dois momentos: momento a) a argumentação racional entre opositores; momento b) o soco na cara. Até porque o arbitrário é um muro em que a razão mais cedo ou mais tarde dá com a cabeça, e nada mais natural do que ela querer botá-lo abaixo com golpes de picareta. Assim, muito do que parece puro ato de violência é, na verdade, resolução definitiva de impasses filosóficos. Ninguém sabe, mas a Segunda Guerra, por exemplo, começou circa 1870, em Leipzig, com dois filósofos gordinhos numa discussão sobre Teoria do Estado que só se resolveu uns 70 anos depois, quando os russos bateram os alemães em Stalingrado.
Portanto, um filósofo não é mais que alguém disposto a se demorar muito no momento a) e evitar ao máximo o momento b). Anos lendo Leibniz, Platão, Descartes, só para isso. Mas nada impede que, se necessário, ele use meios mais eficientes que a razão para estabelecer a diferença entre forma e substância – o kung-fu ou a luta-livre no gel, por exemplo. Em função disso, nossos cursos de filosofia são incompletos. Além de um estudo detalhado da “Metafísica” e da “Crítica da razão pura”, seria aconselhável a prática do aeroboxe e da lambaeróbica, além de noções básicas de full-contact. O que só traria benesses aos nossos filósofos: glúteos mais durinhos e aumento na capacidade de pensamentos originais. Claro que em casos como o de Miss Shall-We uma melhora seria difícil, tanto nos pensamentos quanto nos glúteos. Mas tenho certeza de que esta é a única maneira de os filósofos malemolentes darem alguma contribuição defintiva à filosofia ocidental: nada de conceitos sutis, nada de dialéticas intrincadas, mas uma dupla voadora no pince-nez do reitor da Sorbonne que ousou questionar o filósofo-instrutor-de-capoeira sobre a relação entre uno e multiplicidade. O que indica, ao menos, grande capacidade de síntese: pula-se o momento a) para chegar direto ao soco na cara, momento decisivo de qualquer discussão intelectual.
felicidade e coluna vertebral (recado amigo para uma querida menina estroncha)
Tem quem meça a felicidade objetivamente. Entrevistas, questionários, verdadeiro-ou-falso, tudo para saber o quanto a criatura não é gauche na vida. E, se o entrevistado fecha 80 pontos, ganha um biscoito Scooby.
Eu também meço a felicidade objetivamente. Mas pela coluna. Acredite, os infelizes, além de acne, mau hálito e uma incontrolável tendência à maledicência, têm a espinha encurvada. Quanto mais próximo a 90 graus, mais infeliz a criatura. E, logo, mais venenosa.
Só não me pergunte o que causa o quê. Não tenho certeza. Mas suspeito que a relação felicidade-coluna vertebral seja um dos poucos casos em que o sintoma é na verdade causa. Deve ser a própria postura atrofiada do corpo que predispõe à tristeza e às pequenas vinganças. Sim, uma correlação entre calombo nas costas e corcundice moral. Conselho: submeter o corpo a disciplina militar: enrijece o que está flácido, inclusive a estabilidade mental. Senão, hidroginástica também resolve.
Il est plus honteux de se défier de ses amis que d’en être trompé. (La Rochefoucauld)
mudanças na cristaleira
Mudanças na cristaleira. Troquei aquele bule sixties cor-de-laranja por um aparelho de chá em porcelana, finíssimo, estilo transição nouveau/déco. Uma graça, não?
Mudei porque afinal a idéia deste blog é exatamente a da imagem acima: senhoras ricas, elegantes e discretas se reúnem todo o dia às cinco para falar das amigas ausentes. Claro, as amigas ausentes podem ir de Sócrates a Charles Aznavour, e os comentários podem nem sempre ser muito amáveis. Mas todas servem chá umas às outras, pedem licença para levantar, só usam chapéus ingleses. E como em sociedade gentileza é bondade e bondade é gentileza; well, you know the rest.
Então, sejam bem-vindos; a casa é a mesma, mas quanta diferença. E cuidado com a cristaleira!
friday night fever
A única coisa que muda num bar gay depois de dois anos é a qualidade das músicas – cada vez mais baixa – e as cinturas dos seus velhos conhecidos – cada vez mais fofas. De resto, as pessoas são sempre as mesmas, mesmo quando não são. Todo mundo é malcovitchianamente parecido, e eu espero o dia em que alguém com três-alguma-coisa brote numa pista de dança: três testas, três mandíbulas, três joelhos em cada perna. Só não aconselho três mamilos; se com dois a maioria já parece loira do multishow depois da meia-noite, com três o espetáculo seria degradante. E haveria o perigo de eles imitarem ainda com mais afinco vilãs de novela fazendo maldades ou a Heleninha Hoitmann bêbada: o número de zonas erógenas aumenta drasticamente a taxa de lascívia e afetação num corpo humano adulto.
(Estou sendo injusto? Well, eu posso. Pelo menos agora os gays não precisam esperar pelos outros para falar mal de si mesmos publicamente. Y compris nos seus próprios blogs, claro.)

