Arquivo de junho de 2005

quarta-feira, 29 de junho de 2005

pequeno conselho de etiqueta por madame krawitz

“E quando for dizer que não gosta de um livro, de uma música, de um programa de tevê, diga simplesmente “não gostei”. Jamais “Gostei, mas não me toca”. É vulgar. Sempre que alguém me fala assim, penso que a criatura vai se levantar da cadeira, se contorcer com uma air guitar na mão e fazer carinha de quero-mais, cantando “When I think about you/ I touch myself”. Gente mais Divinyls!”

terça-feira, 28 de junho de 2005

fila, por favor

Gente comigo é assim: cada um na fila pro seu guichê.
Party people, party animals e party monsters, à direita da fita colorida. Não tentem filosofar. Não tentem ser profundos. Não tentem enunciar verdades gerais. Menos ainda sobre relacionamentos amorosos; “porque numa relação a dois…”. E me paguem mais um drink!
Psicanalistas, vocês também, fora da pista. A maioria não dança; só sabe se balançar com os braços molengas. Se abestalham olhando pra estrobo. E tem que cuidar toda hora pra que alguém não os esvazie com o cigarro. (Espera aí, “Groove is in the Heart”!? Não tentem; não tentem! Esperem as orelhas postiças de cachorro, que já vai tocar a musiquinha da TV Colosso.) Pouca gente que sobrevive a Lacan sobrevive com a musculatura intacta. Melanie Klein, então, equivale a uma poliomelite.
Porque, acredite, cada um tem seu guichê; cada guichê tem a sua fila, e cada fila tem lugares reservados. Uma delas é pra ingresso de inferninho; outra, pra secretaria de pós em relação mãe-bebê. E poucos podem entrar nas duas. Mas, seja como for, todo o mal vem de a criatura não se conformar com o seu lugarzinho e querer trocar ou de fila – povo de festa dando conselhos graves – ou de lugar, com gente se estapeando por furo dos que estão mais na frente, por exemplo. (Ih, olha lá, olha lá, o cara chutando uma velhinha pra passar na frente do Duque de Guisa.) O que prova, é claro, a eterna superioridade da Idade Média e o caráter showgirl dos nossos contemporâneos – mesmo dos que não são blogueiros. Nas nossas filas, infelizmente não se fazem mais reservas.

segunda-feira, 27 de junho de 2005

chá com brioches

Existem bons motivos para odiar a Revolução Francesa. O mais grave: não terem deixado a Maria Antonieta continuar a escrever um blog.
Porque foi o melhor blog francês do século XVIII, o dela. Se chamava “Chá com brioches”. E tinha frases tão geniais quanto “Se não têm pão…”. Ou seja, ele sozinho valia mais que todos os blogs franceses do século XX juntos.
Mas Maria Antonieta também gerou polêmica. Hoje é tida como a primeira blogueira feminista – seus posts sobre as famosas orgias-de-máscara do Petit Trianon fizeram Simone de Beauvoir pegar a vassoura e expulsar de casa as amantes do Sartre. Entretanto, por estar “se lixando para a pólis”, e por ser contra a camisinha (Luís XVI era impotente, e ela precisando de herdeiros…), Maria Antonieta também é vista como precursora dos blogs de direita. O que lhe vale acusações de fascista. E de olavete, é claro.
Mas o “Chá com brioches” não durou muito. A Convenção do blogspot, então dominada por jacobinos, decapitou a rainha, por ela não postar letras dos Smiths. Que mundo cinzento.
Enquanto isso, Rousseau e Montesquieu escreviam o blog “Outro mundo possível”. Seus longos posts “contestavam” Bento XVI, “denunciavam” o bem-bom da nobreza, “desconstruíam” letras da cantora Simone. Choveram comentários.
Com o sucesso, seus filhos abriram outros blogs chatinhos, e com nomes não muito melhores; “Catecismo positivista”, “O Capital”, “Teatro proletário e práxis”. E hoje filas de blogueirinhos sérios, empertigados e cinzentos, cada um na sua mesa de repartição pública, debatem e debatem e debatem, e esperam uma conclusão para o “problema do aborto”, para “a questão ética da eutanásia”. Ou, pior, dizem não querer chegar a solução nenhuma, afinal, “por que esta necessidade de conclusões, não é mesmo?”
No fim, a história da humanidade não é mais que a história de uma lenta diluição, em que blogs de pince-nez são depostos por blogs secos e mal-vestidos, escritos por sans-culottes eternamente leitores de jornal. Que mundo cinzento.

sexta-feira, 24 de junho de 2005

de trop

2 da tarde
Verdade: nem todas as línguas combinam. Autores de musicais deviam se dar conta disso, y compris Irving Berlin. Se o tivessem iluminado com este conselho, ele jamais teria misturado inglês e italiano em “Picolino”. Jamais teria feito versos tão banais quanto “Take your glass of vino”, rimando com “bambino” (trocando vino por cachaça e bambino por tchutchuco, serve também para um musical com Fred Astaire sapateando de fraque em baile funk). E, o mais importante, pouparia a Ginger Rogers de cantar este monstrinho bicéfalo – metade Rita Pavone, metade Andrew Sisters.
(Mas não só Irving Berlin; o próprio Bobo Dylan, em “Romance in Durango”, não fez muito melhor).
Outras que não fecham: espanhol com inglês. Pode qualquer um, o Frank Sinatra, o David Bowie, misturar espanhol com inglês: fica parecendo motorista de táxi chicano pedindo trocado, ou, não menos agradável, o Ricky Martin animando Copa do Mundo.
Já português e italiano ficam perfeitos – e um “adesso” bem colocado salva o ritmo de qualquer frase, não me entendem mal, s.v.p. Mas “per favore” não cola; caipirice. O mesmo para “meraviglia”, ugh.
Francês e inglês vão igualmente muito bem. O francês é uma moça enjoadinha, às vezes doce demais, e precisa de um marinheiro inglês rude, loiro, peludo e que acabe em consoante. Além disso, na década de 50, uma das expressões mais legais que americanos usavam era “de trop”. Nos filmes era assim: duas amigas conversando; chega o cara em que uma delas está interessada; a outra, para não atrapalhar, diz: “Well, I think I am what the french call ‘de trop’.”, e sai. Vi isto uma vez em “All About Eve” e outra em “An American in Paris”. Infelizmente, nos últimos 50 anos, ninguém mais fala assim, pelo jeito.
Bem, mas tudo isso é para recomendar “Top Hat” – em português, ham, “O Picolino”. Ok, esqueça o título. Primeiro, tem Fred Astaire e Ginger Rogers dançando. Segundo, uma Veneza de cartolina que é uma graça. E at last but not at least, um “entre nous” que salva um diálogo assim assim. E os figurinos. Ah, e as músicas do Irving Berlin – tirando “Picolino”, claro.
4 da tarde
Acabo de rever “Top Hat”. E retiro o que disse sobre “Picolino”.

sexta-feira, 24 de junho de 2005

terapia de casal

Ele (quarta-feira, 15:25)”Veja bem, doutora, não é que eu seja veado, não. E espero que nem louco eu seja. Mas era a minha mulher sair de casa, que eu corria direto pro quarto. Abria o armário e ficava no espelho da porta, medindo o peitoral, contraindo o bíceps, cortando os pelinhos da barriga. E olhava de canto pra gaveta das meias-calças: “Não, hoje não, hoje não…”. Aí, resolvia fazer outra coisa, sei lá, passar um café. Mas quando eu chegava na cozinha, ou a cor do café me lembrava um batom que eu adoro, ou o brilho do azulejo me lembrava o esmalte vermelho com que ela pinta as unhas do pé. E eu voltava pro quarto correndo, pra provar, sei lá, uma écharpe, um shortinho de elanca, uma blusa de alçinha. Ficava pensando: “Tudo bem, eu já vou tirar, eu já vou tirar”. Só que quem disse que eu conseguia? Vinte minutos depois, já saía de maquiagem pronta, me equilibando num salto 12, e com a peruca rosa que ela usou no carnaval de 99.”
Ela (sexta-feira, 17:40) “Doutora, eu já não sabia o que fazer. A primeira vez foi num passeio ao Itaimbezinho. Fazia um frio danado, e a gente decidiu descer do carro. Bom, comecei a espirrar na hora. E ele, vendo como eu tava, me emprestou um terno; acho que era de lã o terno, não me lembro bem. Primeiro, eu achei bontitinho, gentil, aquela coisa de primeiro ano de casados. Mas foi eu me olhar no reflexo do carro, que, nossa, fiquei espantada. Aquele terno! Me senti uma enfermeira alemã, aquelas da Segunda Guerra, sabe? Eu nunca tinha me achado tão linda. Tanto que fiquei pensando nisso durante a viagem inteira. E foi eu chegar em casa que, pronto, na primeira oportunidade, vesti as roupas delede novo. De lá pra cá isso tem acontecido sempre, e olha que já faz uns três anos!”
Ele (quarta-feira 15:52) “Não, não, doutora, eu não quero que a senhora me entenda mal. Não é que eu ficasse em casa de colã, fazendo bolo, lixando unha ou vendo novela do Sílvio, não. Nem sou do tipo que anda por aí rebolando de sandália ou se oferecendo pros caras que jogam pelada no campinho. É tudo irmão, tudo parceria. Não, não, o que eu fazia mesmo era pegar uma ceva e ver, sei lá, futebol ou pay-per-view de vale-tudo. (Tá certo, tá certo, vale-tudo é meio suspeito, mas…) E o legal é que às vezes aparecia o Xandão, o meu vizinho de porta. Era o máximo quando ele me visitava; a gente fazia um chá, trocava umas dicas de maquiagem, depois jogava truco e ficava falando de mulher ou de carro. Sabe, o Xandão é parceria, gente fina mesmo, e entre nós era tudo no mó respeito – menos quando eu dei risada da meia-claça dele, que tava com fio puxado, e ele me deu uma bolsada.”
Ela (sexta-feira 18:02) “… aí eu não conseguia mais parar. Era doença isso, doença. E eu me sentia tão culpada! Quando ele saía pra viajar, então! Eu tentava me controlar; ia ao cabelereiro, ao cinema, ao shopping, comprava um monte de roupa – de mulher, claro. Mas era eu chegar em casa, que pronto, não me dava vontade de usar nada do que eu tinha comprado. Abria o armário dele e ficava lá, olhando as roupas; gravata vermelha, terno creme, sapato marrom, camisa de jogar tênis, e até aquela sandália fransciscana que ele usa na piscina e eu odeio. Aí, eu não resistia: ia pro banheiro e pintava um bigodinho de cajal. Ficava horrível, parecia cruza de K.D. Lang com caipira de festa junina. Só que era irresistível, doutora, irresisitível. Bah, e que vergonha admitir isso pra senhora, que vergonha! Mas tem uma coisa que eu nunca fiz: colocar bolinha de tênis no meio das pernas pra fazer volume e poder coçar o saco. Isso eu acho de última, coisa de gente baixa, sapata, machorrão, juro que nunca fiz. Tá, tirando uma vez, que…. (e não consegue segurar as lágrimas).”
Ele (quarta-feira 16:15) “Acontece que um dia a Gabriela percebeu. Quer dizer, dessa vez ainda foi de leve; ela reparou que um vestido de lycra tava meio esgaçado bem na barriga. Como eu, já dois anos de casado, andava meio fora de forma, não era difícil… E não é que ela chegou mesmo a me perguntar o que tinha acontecido com o vestido! Eu tremi nas bases, mas respondi que, sei lá, que era tudo culpa da lavanderia, que estragava também as minhas meias. Ela me olhou estranho, mas não falou nada. O problema foi de noite. Não consegui pregar o olho um minuto! Ela tava dormindo profundo, mas também super agitada, e se virava de um lado pro outro. Até que numa dessas ela me abraçou por trás e, fazendo movimentos de penetração, murmurou: “Ai, minha potranca”. Aí que eu não consegui mais dormir mesmo. ”
Ela (sexta-feira 18:20) “Eu já tava desesperada. Meu Deus, nem pra Fabi, minha amigona, eu falei disso. Afinal, sabe-se lá o que não ia passar pela cabeça dela. Mas quanto ao Carlos, eu tinha certeza de que ele sabia. Por exemplo, um dia eu percebi que o meu vestido de lycra tava esgaçado. E, como eu adorava aquele vestido, perguntei se ele sabia por que tava daquele jeito. Doutora, ele me olhou com uma cara tão estranha, tão desconfiada, cara de “me engana que eu gosto”, que eu tremi! E eu tive certeza de que ele tinha descoberto tudo, talvez pelo meu perfume numa camisa, ou pela bagunça que eu deixava no armário. Mas o pior é que ele só resmungou alguma coisa sobre a lavanderia; ou seja, não quis tocar no assunto – e só Deus sabia por quê. De qualquer jeito, fui dormir ressabiada, e a gente mal se falou antes de deitar. Quando eu acordei, então, dava pra ver que a noite tinha sido ruim, e nem me olhar direito ele podia.”
Ele (quarta-feira 16:20) “Mas o pior aconteceu na semana passada. Como ela sempre chegava às seis, eu tirava tudo às cinco, cinco e meia, pra não dar galho. Mas nesse dia ela chegou…”
Ela (sexta-feira 18:30) “…às quatro e vinte, quatro e meia, que eu não tava conseguindo trabalhar. Tava super ansiosa, queria conversar sobre a outra noite. Me senti mal, tri culpada. Mas de boba, doutora, de boba. Porque, ao abrir a porta, ai, que eu não quero nem lembrar!, ao abrir a porta, foi trash: tava ele vendo Aimoré X Juventude, com o meu top azul-turquesa, uma peruca black power cor-de-rosa, e calçando a minha Melissinha da Wanessa Camargo! Ele me viu e ficou paralisado. E que ódio que eu fiquei vendo a minha Melissinha 38 naquele pé 42! É por isso que ela já tava um bagaço! A Wanessa Camargo já era mais a Glória Menezes, de tão esticada! Ai, que raiva.
Fiquei uns cinco minutos em choque. E ele todo nervoso, trazendo água-com-açúcar, um pé com sandália, outro sem, tentando se equilibrar. Foi aí que eu aproveitei para ser má: atirei o copo na cara dele. Aquela cara, já meio empaspalhada, ficou tão triste, tão patética com rímel borrado até o queixo! Começei a gargalhar, a chorar, a gritar, e ele, tonto, sem falar nada; ficamos a tarde inteira naquilo. Até que tomei fôlego e fiz o que precisava: pedi a separação. Ele levou dos dias pra acreditar que eu falava sério.
Só que eu também não acreditava. Fiquei me lembrando daquele armário, daqueles terninhos, daquela regata de propaganda de cimento, das samba-canção; e mesmo a sandália franciscana me deu um aperto no peito. Não sabia o que fazer. Até que me lembrei do frou-frou de bailarina que eu tinha guardado da minha época de adolescente – e me lembrei também do nosso marasmo sexual, de como eu gostava de me vestir com as roupas dele, de como ele gostava de se vestir com as minhas, e aquele frou-frou de bailarina me deixou tão excitada! Porque juntar roupa com frou-frou, dois ou três legumes elétricos e o meu Carlinhos numa mesma fantasia seria o máximo! E eu de bigodinho! O problema é saber se ele topa, se não vai se ofender. Tu entende a minha dúvida, né? Ao mesmo tempo, vale arriscar; isso pode salvar o nosso casamento. Mas o que tu acha, doutora? Será que eu tô louca? Será que é demais? E será que vai dar certo? O que tu acha, diz aí, doutora, o que tu acha, que conselho tu me dá, o que eu faço, doutora Rogéria?”
Doutora (sexta-feira 18:38)”Eu dou a maiorr forrça. E não é Rogéria, meu bem, é Astolfo.”

sexta-feira, 17 de junho de 2005

blogueiros-showgirls

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A primeira coisa que blogueiros carreiristas fazem ao abrir blog novo é botar a faca no pescoço dos mais velhos. Para isso, chegam a absurdos. Saem por aí chamando a criatura de veado, de fascista (às vezes, os dois ao mesmo tempo), de chefe de torcida organizada. Trocam pó-de-arroz por pó-de-mico, bem na hora do show. E, se precisarem, rasgam o vestido da estrela principal durante a coreografia de “What a Feeling”.
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Escrevem já pedindo comentário. Porque blogueiro-showgirl, assim como prostituta, só pensa em caixa cheia. E não poupam nada para atrair clientes: botam um vestido decotado, fazem biquinho e estendem a mão, gemendo com a voz macia: “Vem, gostosão, vem dizer pra gatinha aqui o que cê acha de aborto em caso de estupro.”
Convém, entretanto, passar reto. Muita gente já pegou sífilis deste jeito.
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O que estas meninas ambiciosas não fazem por um comentário?
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No fim, algumas conseguem um papel principal. Ficam famosas. Papparazzi atrás das limosines, fãs na frente dos hotéis. Mas não dura muito tempo. Quando chegam ao topo, elas começam a beber Coca-cola, comer brigadeiro, não fazer exercício. A bunda cai; os peitos ficam pelo joelho, e logo elas estão no fundo do poço, ou em Las Vegas, como assistentes do David Lee Roth, ou escrevendo blogs confessionais, contando que viram no Saia Justa a história do mensalão e também ficaram indignadas.
Como dizia aquela cantora depressiva, o mundo é um moinho.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

arma virumque cano (ou a verruguinha da eneida)

Já tive uma professora chamada Eneida. Era bonita a Eneida, muito gentil e querida, só tinha uma verruga que ela penteava antes da aula – tomara que ela não me leia, mas é verdade, juro que sim.
Para mim, foi uma decepção. Imaginar que a Eneida era daquele jeito. Desde aquele ano, não pude mais ler que a Dido escondia as lágrimas no Hades sem ver a minha professora chorando de perna aberta no banheiro feminino. E era frustrante pensar que o Hades e o banheiro da minha escola não eram tão diferentes assim, a começar pelo cheiro.
Ainda mais que a Eneida deu a maior aula de arte clássica que já tive. Só entendi o que era o clássico quando li a morte da Dido. Todas as paixões violentas estão ali; os personagens altivos, com noção de honra e dever; as ações mais graves, mais desesperadas, e as conseqüências mais terríveis; mas tudo dito de uma forma tão discreta, tão contida, tão digna. Só se fica sabendo que a Dido, quando o Enéas vai abandona-la em Cartago, força a espada dele contra o corpo, e quando as criadas chegam, já a encontram morta. “Eis” (e nasce uma sinal peludo no nariz do blogueiro), eis um dos bons motivos para admirar a Eneida, apesar da verruga: é fácil fazer um dramalhão dum suicídio amoroso; é igualmente fácil manter a classe, e fazer uma cena gélida. Mas para conciliar as duas, il faut de l’art. Isso porque o clássico só é clássico quando o artista cria se desculpando pelo kitsch que é a emoção, mas não abre mão dela. E esconde a verruga cabeluda – o que a Eneida fez uns dois anos depois, passando no bisturi todas aquelas citações soporíferas de tribos minúsculas e desconhecidas.
Fiquei sabendo que com os retalhos da cirurgia fizeram os Lusíadas, a Françiada, as epopéias do Voltaire. Eu duvido; mas como foi a própria Eneida quem me contou…

terça-feira, 14 de junho de 2005

o jogo do “é, não e não sei”

Conversar com gente escorregadia ou que fala como livro técnico. E gente que fala com pompa, então. Não sei por quê, mas eu começo logo a sangrar pelo nariz. Me dá vontade de, ham, voltar no tempo e colocar o sujeito naquele jogo que tinha no programa da Xuxa; é claro que vocês lembram; quem tem mais de 25, talvez não; mas era o jogo do “é, não e não sei” *. Para lembrar: a Xuxa fazia perguntas capciosas, e a criança podia responder o que quisesse, desde que não falasse “é, não e não sei”. Eu mesmo já tive de tomar muito Quick de morango por perder neste jogo. Mas a minha versão funcionaria ao contrário: eu faço à criatura uma pergunta bem direta (“Clarice Lispector é melhor que Maracujina?”; “O Saramago escrevendo é mais afetado que o Clodovil?”), e o cara tem 3 segundos para responder, só que sem sair do “é, não e não sei”. Passando disso…
Passando disso, aí sim teria a maior e melhor diferença: se a criança errava com a Xuxa, ela saía de mãos vazias – ou ganhava um beijo do Praga, no máximo. Já na minha versão, as medidas seriam mais extremas; as luzes piscariam; tocaria uma sirene de ambulância; o Russo jogaria fumaça de extintor no palco, e uma daquelas macacas peludas que tinha no programa do Sérgio Malandro, na verdade o Nelson Rubens fantasiado de Chita, viria de trás das câmeras, urrando, dando cambalhotas e jogando os braços pra cima, e levaria o candidato to the darkest depths of the abyss, onde já se atazanam por toda a eternidade os espíritos do Sartre, do Jakobson e de alguns poetas românticos, que eu ouvi falar que sim.
* Eu sei, eu sei que era “é, não e porquê”. Mas eu me permiti mudar. Já imaginaram em quantos caquinhos estouraria o meu medidor de paciência se eu tivesse que ouvir um pusilâmine explicar alguma coisa? Non, merci, l’ennui n’est pas mon amour.

domingo, 12 de junho de 2005

borrifada

Quando me falam em cultura, eu saco o meu Chanel no. 5.

sexta-feira, 10 de junho de 2005

la rochefoucauld: the best of

La Rochefoucauld é um dos prazeres da vida (ok, isto soa meio lascivo, eu sei). Um prazer um pouco amargo, é verdade, mas por isso mesmo… Enfim, sou supeito: um adepto de bondage intelectual não pode sair por aí dando conselhos pra todo mundo; sempre dá para topar com uns estômagos mais fracos.
Antes de passar à tradução das “Máximas” (ali, senhores, depois da porta à direita…), só algumas informações sobre o duque. Primeiro, ele foi um grande chefe militar que, lá por 1650, se rebelou contra o Luís XIV. Entrou na Fronda, aquela revolta aristocrática que expulsou o rei de Paris. Teve ferimentos; perdeu a guerra; e, no fim, se exilou no interior da França, no seu ducado. Só saiu de lá quando Luís XIV lhe deu perdão e decidiu pagar a ele uma pensão. Vendo a aristocracia virar classe secundária e o rei se apoiar cada vez mais nos gradnes burgueses para financiar o Estado, La Rochefoucauld se decepcionou e virou um libertino. Passou a freqüentar os grandes salões literários da segunda metade do século XVII: Mme de la Fayette, Mme. de Scudéry, Mme de Sablé (aquela dos biscoitos). Teve inúmeras de amantes, amizades ilustres (tanto quanto ele), escreveu muito também. Foi nessa fase que publicou as Maximes (1664), das quais estou traduzindo algumas. Virou uma espécie de filósofo mundano pessimista – tanto é assim que foi Mme de Sevigné, se não me engano, quem disse que quando ela, La Fayette e La Rochefoucauld conversavam, tinha vontade de se enterrar viva, tão terrível era a visão que eles tinham da vida. É que, ao contrário do que muita gente pensa, o século XVII não foi o ápice da aristocracia na França; foi nesta época que a nobreza realmente deixou de ser o sal da terra e, para manter o bem-bom, passou a depender do rei. La Rochefoucauld tentou resistir, mas acabou derrotado.
Morreu em 1680, cercado por Mme. de La Fayette e Bossuet.
Ah, as traduções são minhas. Oh, não, por favor, don’t shoot the piano player…
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-Se há um homem que parece não ter nada de ridículo, é porque não procuraram direito.
(S’il y a des hommes dont le ridicule n’ait jamais paru, c’est qu’on ne l’a pas bien cherché.)
-As virtudes se perdem no interesse como os rios se perdem no mar.
(Les vertus se perdent dans l’intérêt, comme les fleuves se perdent dans la mer.)
-É difícil definir o amor: o que se pode dizer é que, na alma, ele é uma paixão por reinar; nos espíritos, uma simpatia; e, no corpo, que ele não passa de um desejo delicado e escondido de possuir o que se ama depois de muitos mistérios.
(Il est difficile de définir l’amour: ce qu’on peut dire est que, dans l’âme, c’est une passion de régner; dans les esprits, c’est une sympathie; et dans le corps, ce n’est q’une envie cachée et délicate de posséder ce que l’on aime après beaucoup de mystères.)
-Fazer mal à maioria dos homens é tão perigoso quanto lhes fazer bem demais.
(Il n’est pas si dangereux de faire du mal à la plupart des hommes que de leur faire trop de bien.)
-As pessoas não se consolam de serem enganadas por seus inimigos e traídas por seus amigos – mas ficam felizes de serem por si mesmas.
(On ne peut se consoler d’être trompé par ses ennemis, et trahi par ses amis; et l’on est souvent satisfait de l’être par soi-même.)
-Todo mundo tem força o bastante para suportar os males dos outros.
(Nous avons tous assez de force pour supporter les maux d’autrui.)
-O amor, assim como o fogo, não pode subsistir sem um movimento contínuo, e ele deixa de viver quando deixa de esperar ou de temer.
(L’amour aussi bien que le feu ne peut subsister sans un mouvement continuel; et il cesse de vivre dès qu’il cesse d’espérer ou de craindre.)
- O que nos impede de afundarmos num único vício é que nós temos vários.
(Ce qui nous empêche souvent de nous abandonner à un seul vice est que nous en avons plusieurs.)
-Por mais que já se tenha explorado o país do amor-próprio, ainda restam muitas terras a conhecer.
(Quelque découverte que l’on ait faite dans le pays de l’amour-propre, il y reste encore bien des terres inconnues.)
- A duração das nossas paixões não depende mais de nós que a duração da nossa vida.
(La durée de nos passions ne dépend pas plus de nous que la durée de notre vie.)
-O interesse fala todas as línguas e encarna todos os personagens, até o de desinteressado.
(L’intérêt parle toute sorte de langues et joue toute sorte de personnage, même celui de desintéressé.)
-Os jovens, em sua maioria, se acham naturais, quando não são mais que pouco polidos e grosseiros.
(La plupart des jeunes gens croient être naturels, lorsqu’ils ne sont que mal polis et grossiers.)
-O que o mundo chama de virtude não é mais que um fantasma criado pelas nossas paixões, ao qual se dá um nome honesto para fazer impunemente o que se quer.
(Ce que le monde nomme vertu n’est d’ordinaire qu’un fantôme formé par nos passions, à qui on donne un nom honnêt pour faire impunément ce qu’on veut.)
-Nós sempre gostamos de quem nos admira, mas nem sempre de quem nós admiramos.
(Nous aimons toujours ceux qui nous admirent; et nous n’aimons pas toujours ceux que nous admirons.)
-Por mais que se fale bem de nós, ninguém nos diz nada de novo.
(Quelque bien qu’on dise de nous, on ne nous apprend rien de nouveau.)
-É mais vergonhoso desconfiar de seus amigos do que ser traído por eles.
(Il est plus honteux de se défier de ses amis que d’en être trompé.)
-Os vícios entram na composição das virtudes como os venenos na composição dos remédios. A prudência os reúne e os tempera, e se serve deles contra os males da vida.
(Les vices entrent dans la composition des vertus comme les poisons entrent dans la composition des remèdes. La prudence les assemble et les tempère, et elle s’en sert utilement contre les maux de la vie.)
-Ninguém deve ser elogiado por sua bondade se não tem força para se mau. Qualquer outra bondade não passa, no mais das vezes, de preguiça ou de fraqueza de vontade.
(Nul ne mérite d’être loué de bonté, s’il n’a pas la force d’être méchant; toute autre bonté n’est le plus souvent qu’une paresse ou une impuissance de volonté.
-Nem para o sol, nem para a morte se pode olhar fixamente.
(Ni le soleil ni la mort on ne peut regarder fixement.)