“Estudo de caso do menino L., moreno, cor branca, estatura mediana, 23 cm:
1) Com cinco anos, deu a todos os seus cachorros títulos de nobreza. De akitas a vira-latas, todos descendiam dos últimos Duques de Borgonha e formavam uma grande família principesca que casava entre si. Principalmente sobrinhos com tias; eram cachorros, afinal.
Segundo o paciente, foi uma maneira de nivelar seus vira-latas com cães de raça. ‘Aquela magreza, aquele aspecto cansado, aquelas costelas aparecendo, tudo o que antes parecia coisa de nordestino em filme do Glauber Rocha, adquiriu outro significado pra mim depois de eles terem ganhado títulos. Lembrava agora a elegância esbelta dos chefes guerreiros francos. Bom, ao menos era nisso que eu queria acreditar, que o Carlos Temerário, depois de apanhar do Luís XI, devia parecer com um dos meus vira-latas. Pelo jeito, uma cadela tetuda (ri histericamente e começa a cantar ‘Charles le Téméraire est mort’.) ‘
2) Nesta mesma época, no ano de 87 (o paciente tinha seis anos), recorda-se ele de estar assisitindo TV cercado pela família. De repente, aparece ‘uma atriz gordinha, de ombreira, brincos de acrílico verde-limão e aquela maquiagem que dá às mulheres um sex appeal de Vovó Mafalda.’ O paciente se recorda de haver olhado em volta; sua mãe estava vestida da mesma forma; sua tia, idem. E então perguntou a elas ‘por que todo mundo usa blaser de manga virada e penteado com permanente, se pode estar de corpete e blaser de veludo?’
Conforme o paciente, ‘isso prova que é besteira essa história da Idéia da Elegância ser relativa, depende da época, blá-blá-blá. Eu, com seis anos, e no meio dos anos 80, sabia que aquelas roupas eram muito, mas muito feias, comparando com os vestidos da Glenn Close nas Ligações Perigosas.’
(No que o estudado tem razão, pois, pelas minhas observações, a Idéia da Elegância Ancien Régime está latente no psiquismo humano. É claro que sim, e não se faz necessário diálogo socrático algum para tirar a prova. Basta lembrar que nos contos de fada os reis e rainhas são sempre supercool e que meus filhos com oito anos adoravam ‘Que rei sou eu?’.)
3) Com 10 anos, passava o dia todo desenhando as roupas da Família Real. A sua, claro.
O paciente reforça, entretanto, que seu ‘direitismo era moderado. Na verdade, era quase, quase populista, tanto que eu elegi como juge de goût a Vitalina, minha empregada de Viamão. Era ela quem me dizia se o decote da rainha (que não, não era eu) estava de bom tamanho ou se o culote do príncipe-cadete devia ser mais apertado. Mas o mais incrível é que, com uma assistente assim, nenhum dos meus modelos ficou parecido com as batinas do Padinho Padi Cíço (e faz uma careta de velho desdentado, babando pelos cantos da boca).’
4) Ainda com 10 anos, ele diz lembrar que ria ‘civilizadamente das besteiras dos outros. Ou seja, pelas costas. Pela frente, a gente mostra piedade dos infelizes, como o La Rochefoucald recomenda naquele Auto-retrato maravilhoso.’
Esse é um dos sintomas mais comuns e mais prazerosos de monarquismo crônico, e que talvez alargue o círculo dos seus prováveis contaminados. Segundo D’Alençon (1664), em Traité sur la maladie baise-le-cul-du-roy, ‘Só gente chata, só republicanos, acha um absurdo as pessoas rirem uma das outras. Quando isso faz a gente se sentir vivo, cheio de alegria, exatamente como naquele jogo de computador em que um motorista ganha pontos se atropela velhinhas atravessando a rua. Com a diferença de ser uma maldade bem mais sutil, é claro. No final, rir dos estronchos é um esporte tão cruel quanto a caça – e tão fundamental quanto para divertir o rei.’
Segue o mesmo autor (1664): ‘Porque a monarquia não é só um desfile de modas permanente. É muito melhor que isso. É um desfile de modas permanente em que uma das diversões principais dos convidados é fazer as modelos escorregarem ou queimar com cigarro as roupas do Paco Rabane. Mas fazer tudo isso parecendo achar o máximo, e escondendo o cigarro atrás do Blue Lagoon.’
5) O garoto apresenta sinais precoces de homossexualismo. O que é altamente indicativo: monarquismo vem nos genes dos gays, sendo par obrigatório com aqueles que determinam o gosto por design, música rebolativa e bíceps com mais de 50 cm.
Segundo a literatura existente – Menghele (1935); Kinsey (1948); Marlene Mattos (1979) – republicanismo é sintoma de veadagem degenerada. Geralmente o monarquismo se manifesta nesses casos de forma desviante – e, conforme Rorô (1984), ‘eles ou viram drag queens, ou viram Freddie Mercurys, dublando Bohemian Rapsody em frente ao espelho com bigode, batom e coroa. Uma merda. Mas o mais foda é quando estas bichinhas começam a pregar democracia nos microfones do videokê. Aí, sim. E agora vê se me paga mais um drink, porra!’
O caso chegou ao se ápice quando L. teve a sua crise mais forte, aos 20 anos. Viajou de Porto Alegre a Brasília – ’sem pagar passagem; onde se viu uma Maria Antonieta na fila da Unesul?!’, subiu a rampa do Palácio do Planalto vestido de Rainha de Copas e gritou para os turistas: ‘Cortem a cabeça dele! Cortem a cabeça dele!’, se referindo ao então presidente. Um pequeno grupo de populares se entusiasmou com a cena (‘É golpe! É os militar!’) e já aclamou L. como Imperatriz. Entretanto, um turista alemão, pensando tratar-se de um travesti, passou-lhe a mão na bunda. L., indignado(a) pela falta de decoro com Sua Pessoa Real, investiu contra ele empunhando uma guilhotina de cortar charutos e conseguiu arrancar-lhe um pedaço do dedo. Neste momento, foi imobilizado(a) por cinco Dragões da República e levado(a) ao sanatório de Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde passa os dias sentado(a), ‘esperando a decisão dos jacobinos na Convenção’.”
(LEMOS Rodrigo de, Política e outros distúrbios de personalidade , Porto Alegre: Artes Médicas, 2004. Fora do prelo, por decisão do TSE.)
Arquivo de maio de 2005
alguns sintomas precoces de monarquismo congênito
fala o agnóstico
(Claro, claro que há exceções. Tenho certeza de que não existem nem vendedoras de Avon com menos de 50 anos, nem feministas depiladas.
Mas ainda assim, isso é pura dedução: quem sabe um dia, passeando pelo bosque, não me sai de trás dum arbusto uma garotinha vendendo perfumes enjoativos ou uma leitora de Betty Friedman sem buço?)
Isso prova que o agnosticismo é melhor que o ateísmo, mas não consegue superar a crença. O que é um problema de macheza. Onde o agnóstico treme com a mão no gatilho, o deísta assume os riscos: “Existem cervos de cinco pernas”. E atira neles, mesmo que não passem de ilusão de ótica.
nota fúnebre em homenagem ao palhaço chuvisco gouveia
Verdadeiro mito para a geração que hoje beira os 60 anos, Chuvisco foi o primeiro palhaço existencialista do país. No passado, fez fama ao divulgar Sartre e Camus no Brasil, mas na década de 80 perdeu popularidade. Tudo por causa da influência de concorrentes mais novos – entre eles, Bozo, o palhaço junkie, e Vovó Mafalda, o palhaço travesti (sinal dos tempos). Nos últimos anos, jazia esquecido entre as árvores do Parque Farroupilha, cercado por bolas coloridas e balões do Bob Esponja, repetindo mecanicamente falas de “Huis-Clos”. E, enquanto as crianças corriam atrás do Pimpão e da Véia Flor para pegar brinquedos, Chuvisco ficava sozinho. Sua única companhia era um casal indie que o visitava de quando em quando para ganhar livros, conselhos amorosos e duas ou três tripas de bala Xaxá, sabor abacaxi.
“Seja marginal; seja herói, cara.” – Chuvisco não fazia propaganda da própria rebeldia. Era um dos poucos outsiders legítimos na cidade. Não parava em circo algum, por exemplo. Porque o público não o entendia, e porque as crianças deixavam o espetáculo na metade da única piada que contava – sempre a mesma piada, envolvendo dois potes de marmelada, uma buzina d’água e o mito da condenação de Sísifo no Hades. Na década de 70, houve uma que gritou bem alto “alienado pequeno-burguês”, ou algo do tipo. Porém Chuvisco, num golpe memorável, respondeu que também queria a libertação do proletariado, mas que essa só se daria se antes houvesse a libertação do indivíduo. Foi sua fase marxista-sartriana.
Estrela cadente- Com a ascensão de Bozo no SBT, sua carreira ficou comprometida.
Recebia poucos convites para a televisão, e menos ainda para animar aniversários de criança.
Nos últimos 20 anos, tinha crises de depressão freqüentes. Mas sua rebeldia era tanta que nem as clínicas psiquiátricas o aceitavam por muito tempo. Se recusava, por exemplo, a tirar o suspensório e o bambolê que usava como calça. Assim, quando as enfermeiras chegavam, viam aquele volume enorme embaixo dos lençóis e achavam que ele estava sempre de barraca armada. Pensavam que era um tarado, que podia estuprá-las, e houve uma que teve crises de choro, dizendo que 30 cm era demais para ela. Espalhava o caos por toda clínica que passava.
Mas era só libera-lo que, certo, atentava contra própria vida. Da primeira vez, tentou enforcar-se no chuveiro com uma bexiga em forma de lingüiça. Na segunda, comeu doze quilos de algodão doce. O que lhe valeu uma lavagem estomacal e cinco centímetros a mais na pança, afinal.
Fracassado até no suicídio, Chuvisco entrou, então, num lento processo de auto-destruição. Entregou-se às drogas. Amanhecia no meio-fio da Oswaldo Aranha, entre palhaços punks, headbangers e travestis – a desenfreada Vovó Mafalda entre eles, é claro. Chegou mesmo a aproximar-se de seu maior rival, o palhaço Bozo, que controlava o maior cartel do país na época, só para conseguir cocaína mais barata.
Mas tocou realmente o fundo do poço quando, para sustentar o vício, começou a se prostituir. Parava numa placa de ônibus na José Bonifácio, lançando olhares lânguidos aos passantes e esfregando entre as pernas uma bexiga roxa em forma de pênis. Fazia o maior sucesso com senhores mais velhos, os quais desejavam ter por uma noite o palhaço que, quando crianças, ouviam no rádio declamando passagens de “A peste” .
Morre uma estrela- Foi “animando” seu último aniversário de criança que Chuvisco morreu.
O aniversariante, um garoto de seis anos, chorava com medo da sua cara triste. O pai já queira demiti-lo, e Chuvisco, deseperado, resolveu soprar a primeira língua-de-sogra que encontrou sobre a mesa, só para acalmar o menino. Entretanto, nunca havia feito isso antes em sua longa carreira de palhaço e se atrapalhou: colocou a língua de sogra ao contrário na boca, e, ao invés de assoprar pra fora, assoprou pra dentro. Como era de esperar, o bringuedo se abriu na sua traquéia, bloqueando a entrada de ar, e Chuvisco morreu engasgado, com farrapos umedecidos da Pequena Sereia grudados na garganta. Morte brutal e estúpida, que comoveu a comunidade indie de Porto Alegre e do país inteiro.
O velório irá até amanhã, às 18 horas, no cemitério São Miguel e Almas, capela 16. Centenas de pessoas já se aglomeram às portas da capela para dar seu adeus ao palhaço mais profundo que o Brasil já conheceu.”
A partir da próxima semana, a sala P.F Gastal estará com uma programação exclusivamente dedicada ao palhaço Chuvisco Gouveia. Entre os filmes apresentados, estará uma filmagem da palestra que Chuvisco fez na USP em 1973 sobre “Construção de sentido na vida contemporânea”, em que borrifou água na cara da Marilena-Shall-We?, e a sua tournée dos anos 60 pela Europa, que culminou com um dueto de karaokê no lendário Café Deux Magots, de Paris, em companhia do filósofo francês Jean-Paul Sartre.
sessão mediúnica
- Ute Lemper está vindo! Ute Lemper está entre nós! – e a médium gorda começa a debater-se, tremendo o beiçinho e ganindo “Mack the Knife” em alemão.
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Ute Lemper está entre nós. Mas o ingresso acabou.
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Sei que esta noite eu podia estar no teatro. Mas vou ter de me contentar com meus mp3. O que é mais ou menos como ver a médium gorda mexendo as banhas, sabendo que o ghost da Ute Lemper está bem perto, talvez até sentada no seu colo. Só você não pode ver.
o romance que eu não vou escrever
Hoje de manhã, eu vi um casal se beijando em frente de casa. Pelo portão aberto, o cachorro latindo no jardim e o Style Council no som do carro, bem yuppie, presumo que alguém estivesse saindo pra trabalhar. E achei bonito, burguesmente bonito.
(Digo “burguesmente” porque se fosse a Kriemhild beijando o Siegfrid nas portas do castelo antes da caçada a um javali, daí seria nobremente, aristocraticamente bonito. E bonito estaria com letra maiúscula, for sure.)
O que não quer dizer que eu ia chatear todo mundo escrevendo um romance de 500 páginas em que só houvesse isso. Um casal se beijando ao som de “You’re the best thing” e uma média de oito epifanias por lauda. Hell, I mean, hell, don’t you think? Outras coisas no mundo valem um romance muito mais do que o cotidiano, do que um casal se beijando, do que um menino que se descobre gay num banco de bicicleta ou do que uma garota tomando banho com um sabonete anti-sarna – “E Wandinha, ao abrir a embalagem de Protex, viu-se iluminada por uma luz divina e disse: ‘Somos todos ácaros de escabiose na pele do Supremo Ser…’ “. Acredite, leitora amiga, um beijo do namorado não é nada. Perto do César conquistando a Gália, do Luís XVI sendo decaptado ou duma viagem à lua em engenhocas voadoras, o cotidiano não é nada, nem muito divertido é.
Quer dizer, não é que o cotidiano não seja nada. É que depende de onde você passa a maior parte dos seus dias. Por exemplo, chegou a primeira televisão a cores no interior de Sapiranga; em Porto Alegre, isso não quer dizer absolutamente nada. Mas em Sapiranga, com certeza, muitos vão se salvar do suicídio. E tão menos a abertura de um bar de strip-tease em Porto Alegre vai fazer alguma diferença na vida sexual dos executivos de São Paulo ou de Buenos Aires, ou mais uma montagem de “Esperando Godot” com drag-queens caolhas em São Paulo vai causar frisson em Londres ou Nova York. E agora imaginem o impacto dum casal porto-alegrense se beijando em frente de casa na vida dos londrinos. É mais ou menos como comparar a nossa vidinha pessoal com a invasão do norte da África pelos vândalos. Ou seja, só escreve livros sobre o cotidiano quem passa a maior parte do tempo vivendo em Sapiranga (a própria pele) e nunca viu um arranha-céu (a Grécia antiga, a China, Marte com vida). Falta ou de imaginação, ou de conhecimento.
Porque, leitora amiga, existe uma hierarquia nas coisas. E a nossa vida pessoal (brigas, festa, família, emprego), tudo isso está no último nível. Pode valer um miniconto, mas não segura um romance. Ao ver os dois se beijando no portão de casa, me dei conta de que escrever um livro sobre o cotidano é como escrever sobre uma guerra feita só com cabos de vassoura: pode até ser engraçadinho no começo, mas depois enche o saco. Uma hora, a gente tem que ver sangue. E disso tudo, me veio a conclusão: “Vou escrever uma epopéia”.
i have a dream (II)
Outra causa nobre pela qual eu lutaria: o fechamento de todos os cursos de Educação que se encontram em território brasileiro. E o conseqüente expurgo de todos os piagetianos para uma colônia de trabalhos forçados no interior do Piauí, em que catariam os piolhos de índias tetudas e antopófogas. Queria ver uma professora da Educação sendo assada com uma maçã na boca ao tentar explicar aos índios “A Construção do real na criança.” E os outros acadêmicos na fila, com camisetas do PT e os olhos arregalados por trás dos óculos. Na verdade, eu só poupava o próprio Piaget, e só porque ele já morreu. Ok, ok, e porque o meu império, infelizmente, não chegaria até a Suíça (nos primeiros anos). Aliás, vocês já leram Piaget? A bore. Piaget é tão chato, mas tão chato, que neste momento deve estar no círculo do inferno destinado aos maçantes e aos pedantescos, sendo atazanado para o resto da eternidade pelo chato das “Casas Bahia”.
(Sinto um breakdown iminente. Já é o segundo post consecutivo em que cito as “Casas Bahia” – viu? De novo. Só quebrem meu teclado quando eu postar letras de música pop, please.)
Mas, voltando ao nível telúrico, além do expurgo “piagetiano”, tenho outros projetos. Minhas milícias (sim, sim, e já tenho até um nome: Milícias Negras dos Jovens Musculosos e Pederastas) organizariam a implosão simultânea de todos os prédios em que já funcionaram faculdades de Educação no país. Depois, polvilhariam tudo com cal. Pra que nada mais nascesse entre os escombros, nem erva daninha. Não duvido que até a erva-de-passarinho que brotasse naquele meio já nasceria falando em “sujeitos interagindo” e “co-construção”.*
* Dia desses, me perguntaram o que é “co-construção”. Respondi que devia ser algum neologismo dos irmãos Campos para “ir ao banheiro”. Mais que isso ignoro, senhores, ignoro.
i have a dream (I)
Existem causas nobres. Estão ouvindo?: existem causas nobres! (Repeat after me.) E eu me dedicaria a elas, sem problema. Por exemplo, a lei dos 40 cm. Proibir que os letreiros de loja em Porto Alegre ultrapassem 40 cm de largura. Um coisa muito mais urgente que o casamento gay, que a adoção gay, que o aborto gay, ou que a expansão do Fome Zero até o Congo norueguês, for sure.
Sob meu governo, seria fácil. Já consigo ver milícias de meninos magrinhos, de terno preto, cabelo lambido e óculos de aros grossos, atirando placas de botequim patrocinadas pelo Limão Brahma numa fogueira gigantesca (em que já arderiam, claro, letreiros das “Farmácias Capilé” e do “Bonzão Eletrodomésticos”). Eu sei, os botequeiros não gostariam, iam protestar, “aquela praca de Fanta Uva que eu penei anos pra istalá”; eu sei, eu sei. Mas, veja bem, meu barbudo leitor, nada de novo sob so sol; é só lembrar a Revolta da Vacina. Esta gente não sabe o que é bom pra si. Acham que vacina dá doença; acham que Limão Brahma é coisa fina. E é por isso que eu os deixaria amarrados num canto, entupidos de ovos roxos e música do Zeca Pagodinho, ao mesmo tempo em que os meus garotinhos das milícias da juventude (todos pederastas, comme il faut) fariam uma limpa nos letreiros. Doeria na hora, mas no fim eles iam até gostar. E enquanto isso, eu ficaria em cima dum palanque, tocando a Cavalgada das Valquírias de trás pra diante e gritando palavrões em alemão por um megafone.
Depois, a reconstrução. O Estado patrocinaria novas placas para as lojas. Todas padronizadas: dourado fosco, 30X40, fonte Times New Roman, bem discretas. Só de pensar, sinto tremores de emoção: uma pobrinha lendo numa dessas placas “Casas Bahia”, entrando na loja (um prédio art déco, claro) e comprando o seu sonhado refrigerador de 24X 29,90. Sim, a Redenção da Humanidade; a libertação dos grilhões do “Lojão Oba-Oba”! (levanta da cadeira, e toca um vinili empoeirado da Olga Benario cantando “Bandera Rossa”) .
o rosto e a voz por trás do politicamente correto
Preconceito -
Não faz bem a ninguém
E sem ele
Penso o que seria do poder
Preconceito -
Já causou muito mal
Quem são eles?
Seres que decidem o que normal?
Sim, sim, Via Negromonte, a one hit wonder dos 80’s. E este é seu hit pós-estruturalista. Agora (felizmente) esquecida, Via Negromonte fez sucesso na época. Ia toda semana ao programa da Xuxa. Tinha música em trilha de novela. Chegou até a posar nua para a Playboy.
Mas nem tudo era glamour. Via Negromonte tinha um problema: era irmã da Marlene Mattos.
O que só confirma aquela idéia do Nietzche, de que é o ressentimento contra o mundo que nos impele ao democraticismo. Imagina, você é irmão da Marlene Mattos, o que pode fazer? Só pode ter raiva de tudo e compor músicas contra qualquer forma de desigualdade e de preconceito. Afinal, você é irmão da Marlene Mattos, não é mesmo?
(Talvez essa seja a explicação para a Revolução Francesa. Imagino sans-cullotes passeando com Marlenes Mattos encoleiradas enquanto aristocratas guardam akitas e sharpeis nos seus palácios. Não tinha como não ter inveja da nobreza e fazer uma baderninha só pra acabar com o bem-bom. )
Deixo vocês agora com um excerto da entrevista que Via Negromonte deu para a Plyboy ao posar nua em agosto de 1988:
VN – Olha, eu estava na casa do meu ex-namor, e ele fazia mestrado em antropologia social na UFMG. Aí, nós brigamos, e eu, pra mostrar que estava enfezada, comecei a ler o primeiro livro que achei na mesa de centro. Era “Microfísica do poder”, dum autor chamado Marcel, ou Michel, ou Miguel, só sei que era Foucault, conhece? Achei show de bola! Toda essa coisa de como as pessoas são excluídas pelo preconceito, tão barra, cara, tão barra. E aí, me veio a letra na cabeça, tudo a partir daquela parte: “penso o que seria do poder”, saca? Bom, não deu mais pra segurar, fiz a letra inteira e liguei pra Marlene (Mattos, sua irmã) na hora! Foi tudo assim (estala os dedos). Mas o mais engraçado foi que, naquela mesma semana, perdi o namorado, mas ganhei um hit! (risos)”
Smart that kid.
contra a naturalidade
Tia Luci: -Vem, vem cá, dá um beijo na titia, vem.
Fernanda: -Eu não, tu tem cheiro ruim na boca!
Sempre achei que a Fernanda, minha prima de oito anos, deve ser um exemplo de moral pra essas pessoas que defendem incondicionalmente a espontaneidade. São criaturas que falam sem parar no “natural”, e (pior) que estão sempre dispostas a juntar a palavra “natural” à pergunta “Qual o problema…” (pergunta, aliás, típica de gente meio burrinha). “Qual o problema em ver a tua mãe mijando de porta aberta? Não é natural? Não foi dali que tu saiu?”; quando a resposta é bem simples: foi dali que eu saí, o que não quer dizer que eu seja obrigado a ver o tempo todo. E o mesmo vale para “Qual o problema em cheirar feito um bode? Fica sete dias sem tomar banho; este é o teu cheiro natural. Então, que que tem?” ou “Qual o problema em fazer campeonato de arroto? Uma coisa tão natural; coisa do organismo!”. E notem as caras, o jeito de torcer a boca pro lado, afetando todo o desprezo que gente bem-pensante deve ter pelo arcaísmo de manter os maus odores dos outros a uma distância segura. Não duvido que, entre um arroto e outro (daqueles bem altos, porque eles são tão naturais, tão espontâneos…), falem verdades desagradáveis pra tias baforentas ou puxem as calças dos convidados de seus pais, exatamente como a Fernanda faz nos almoços de família. Tão espontânea, tão natural aquela menina.
Mas como esta gente está errada. Quem vale alguma coisa só vale porque venceu a própria natureza, essa tendência que humanos compartilham com macacos de comer, dormir, trepar e coçar a pança embaixo duma árvore. O cara que é espontâneo demais, natural demais, e que não corrige esse mau hábito, acaba se vestindo mal e metendo o dedo no nariz enquanto dirige (reparem: é quase um reflexo não condicionado em gente mal-vestida). Ou ficando gordo, careca e bebedor de cerveja – o que equivale, mais ou menos, a um macaco coçando a pança embaixo duma árvore. Senão pior: macacos geralmente têm silhuetas mais esguias.
É por isso que eu desconfio de artistas “naturais” ou “espontâneos”. Gente que cria com o coração, com o inconsciente, com “aquela coisa que vem, assim, e que não dá pra segurar”. Geralmente, o que eles fazem é amorfo, e amorfo quer dizer disforme, e disforme quer dizer sem forma, e o que é sem forma é fora de forma. É isso; o que me irrita neste tipo de arte são os pneuzinhos a mais. Quando eu abro um livro de poesia confessional, por exemplo, o que vejo é um velho gordo e preguiçoso, pingando Fanta Uva no seu abrigo de tec-tel. Já a boa poesia é atlética; beauty is a difficult thing, e só se chega lá com muito exercício (ou seja, muito artifício). A boa arte é sempre uma violência contra a natureza, quase tão grande como passar duas horas numa academia – ou, no caso da Fernanda, refrear o impulso de atirar salada de maionese no cabelo da avó. O que faz com que a grand art seja máscula, tenha pernas rijas e bíceps avantajado:

Momento histórico: Frank Loyd Wright (E) e Mies van der Rohe (D) num encontro de grandes artistas sarados em Leipzig, verão de 1957. Foi preciso 30 anos de exercício pros dois chegarem a estes corpinhos. Mas, como nada é perfeito, o cabelo deixa a desejar. Creme “Karina” pra eles, já!

