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julho 24, 2008
arte adolescente
Gosto de adolescente por pintura se resume a surrealismo e a alguns expressionistas. Pelo menos é o que lembro de alguns colegas de segundo grau um pouco mais arty. Ao contrário de arte abstracionista, e como arte clássica, surrealismo e expressionismo dá para entender, tem figurinha. Mas ao contrário de arte clássica, e como arte abstracionista, surrealismo e expressionismo têm também aquele toque de transgressão que todo adolescente - sobretudo se for arty - tem de adorar. Isso sem falar da angústia em Munch ou James Ensor, tão apropriada numa idade em que as pessoas passam noites ouvindo The Killers, e daquela gente cheia de pena de avestruz que Max Ernst pintava e que serve à merveille para adolescente fazer o julgamento mais elogioso de que é capaz ("Que viagem!") e seguir virando sem prestar muita atenção as páginas no catálogo da Taschen.
Passei os últimos dias em Buenos Aires - até por isso que não venho escrevendo - e, depois de uns cinco anos, voltei ao Museu de Belas Artes. Constatei com felicidade que o pouco que ainda havia de adolescente no meu coraçãozinho arty foi finalmente cauterizado. Ok, nem tanto - eu ainda gosto de Modigliani pelo talento individual e pelo charme da coisa. Mas a parte da arte moderna foi a mais tediosa da visita. A impressão que tive era de que quem viu um Modigliani viu todos os Modigliani, quem viu um Kandinsky viu todos os Kandinsky. Picasso, Morandi, tudo isso se reconhece de longe. Pela primeira vez, arte moderna me pareceu repetitiva, quase simplória. E me veio à cabeça uma frase que li num desses blogs portugueses, acho que o Estado Civil: "se parece um Mondrian então é um Mondrian".
Suspeito que o motivo para a arte moderna ser tão mais estereotipada individualmente do que a arte clássica (e arte clássica para mim aqui é qualquer coisa antes do impressionismo) é exatamente aquilo que faz a arte moderna, moderna e a arte clássica, clássica. Quando havia convenções de tema e de forma, o estilo individual tinha de achar uma brecha nesses temas e nessas formas escolhidas de fora, coletivamente, e acabava por aparecer de forma mais sutil. Daí ser mais difícil para um não-connoisseur dizer um Rafael de um Andrea del Sarto do que um Van Gogh de um Munch. Já quando essas convenções erodiram e os pintores se acreditaram livres, foi normal que a individualidade não encontrasse mais escolhas pré-determinadas com que se chocar e ansiasse por brilhar por inteiro, sem mais entraves. Mas ao invés de desenvolver um estilo, o que a sensibilidade individual finalmente liberada fez foi reproduzir ao infinito algumas obsessões. Quando essas obsessões mudaram ao longo da vida do pintor, tivemos essas fases diferentes de um mesmo artista: fase azul, fase cubista de Picasso; fases mais ou menos geométricas de Kandinsky. E quando essas obsessões não mudaram, a estereotipia foi ainda maior: Modigliani. O que a arte moderna fez foi substituir as convenções coletivas por certos tiques pessoais dos artistas. De maneira que conhecendo um pouco dos tiques e um pouco da técnica dos mestres modernistas, o sujeito já conhece os mestres modernistas. Não precisa nem ver. Daí eu não levar muito a sério quando dizem que arte moderna "é mais difícil" do que arte clássica. É a arte clássica a mais difícil como arte; arte moderna só é mais difícil enquanto representação.
Posted by Rodrigo de Lemos at julho 24, 2008 02:40 PM
Comments
Desculpe a provável chatice, mas o nome do pintor a que você se refere é Modigliani (talvez o único moderno de quem gosto).
E o post está ótimo.
Posted by: Igor at julho 24, 2008 05:29 PM
grazie, igor. é uma mania que eu tenho. escrevo uma vez osnomes próprios, copio e colo para não ter de revisar toda hora. problema é que se me descuido e a primeira sai errado, o resto vai junto.
mas preciso de revisor de texto urgente, isso é certo.
Posted by: rodrigo de lemos at julho 24, 2008 05:36 PM
nos comentários a este post [http://rodrigodelemos.apostos.com//archives/2006/11/overwritten_and.html] eu me ofereci pra ser o revisor de que você precisa mas parece que você não levou a sério.
quanto a modigliani, eu também gosto--principalmente porque ele fez um retrato meu [href="http://www.mcs.csuhayward.edu/~malek/Modigliani4.html] (só errou o nariz, que é adunco, e a barba, que é um pouco mais falha).
agora que a viagem acabou, não tem mais desculpa: poste mais! :)
Posted by: tiago a. at julho 24, 2008 07:23 PM
Já aviso que vais sofrer. Sou tão burrinho escrevendo nomes próprios. Não sei de quantos jeitos diferentes escrevi Kandinsky.
Posted by: rodrigo de lemos at julho 24, 2008 08:55 PM
Eu tenho que te dizer que a diferença entre um Munch e um Van Gogh é tão, mas tão básica, que só sendo muito "adolescente revoltado" louco pra dizer "mas isto não é arte, tchê" pra não querer enxergar.
Outra, quem viu um Picasso viu todos? http://www.bcn.cat/museupicasso/ca/colleccio/mpb110-046.html . Isso aí pra você é uma demoiselle d'Avignon?
Ora.
Posted by: Paola at julho 25, 2008 01:02 AM
"Eu tenho que te dizer que a diferença entre um Munch e um Van Gogh é tão, mas tão básica, que só sendo muito "adolescente revoltado" louco pra dizer "mas isto não é arte, tchê" pra não querer enxergar."
? (Relê o post, s.v.p.)
Quanto ao exemplo do Picasso, já conhecia. Também existem dúzias de Mondrians em linguagem figurativa. O que não impede de tornar a obra principal dos dois - e pela qual eles entraram para a história da arte - meio óbvia e repetitiva se comparada `a dos Old Masters. Como eu disse no post, nesses mestres modernistas me parece que as mudanças de fase são mais mudanças de tiques do que de estilo propriamente dito.
Posted by: rodrigo de lemos at julho 25, 2008 01:53 AM
Eu ia dizer que não conheço muito de arte, mas quando era adolescente gostava de impressionismo. Quase consigo não ser moderno. ;D
Abraço.
Posted by: Gustavo at julho 25, 2008 08:59 AM
Uma obra que não é obra de arte.
Mostra Marcel Duchamp - MAM-Sp.
Sobre a mostra , por Mino Carta.
"Picasso, Matisse,Francis Bacon, são grandes artistas, mas ninguem poderá prever que daqui a 700 anos os mencionaremos como hoje falamos de Giotto. Mas provavel imaginar que a larga maioria dos supostos heróis da arte do nosso tempo acabará no lixo do esquecimento"
Posted by: Boutrbon Açuruá at julho 25, 2008 09:22 AM
Ok, tiraram seu blog da lista da página principal dos apostos. Quê que isso significa? Nunca mais posts novos? Assim, sem aviso? :(
Posted by: Gustavo at outubro 13, 2008 12:31 PM
Um dia volto. Mas ando meio diva.
Posted by: rodrigo de lemos at outubro 14, 2008 11:30 PM
Nós que aqui estamos por post novo esperamos! (that's change we can believe in)
Abraços,
Márcio Guilherme.
Posted by: Márcio Guilherme at novembro 7, 2008 08:00 AM
Eu gosto do Miró. Gosto de outros artistas também. Mas o único que eu bato no peito e digo que gosto é o Miró. Ode à Miró.
Posted by: Talita A. at novembro 18, 2008 07:19 PM
Regresse! Retorne! Volte!
Posted by: tiago a. at novembro 18, 2008 07:24 PM
Isso aqui fazia parte do meu ócio. Volta e meia venho aqui fingindo que tem post novo. Regresse, é uma súplica.
Posted by: lucas c. at dezembro 11, 2008 09:39 PM