« la dolce vita | Main | plaisirs d'occasion »
junho 09, 2008
roxo com vermelho e a existência
Esses dias vi um filósofo existencialista explicando a diferença entre contingente e necessário, dizendo que usar roupas na nossa sociedade é necessário, mas se vai ser verde com cinza ou azul com amarelo, isso é contingente, e que se você vai à padaria, necessário mesmo é fazer com que o padeiro te dê pão, mas se você vai conseguir isso indicando o pão com sons guturais ou pedindo por favor, isso é o contingente. Claro que ele estava de roxo com vermelho e que provavelmente não devia ser lá muito educado com padeiros.
Mas, sem querer, acho que ele deu uma boa definição daquilo que Boileau e a propaganda do Iguatemi chamam de "o estilo". Porque o estilo é exatamente o que ele explicou, só que ao contrário: o contingente transformado em necessário. Uma criatura só faz algo "com estilo" quando sente a força da necessidade em todos os detalhes, e sente com tanto que se recusa a escrever "sotoposto" ou a sair para a rua de roxo com vermelho. É isso que nós identificamos quando lemos um grande verso, uma grande frase. Dentre as várias maneiras de dizer a mesma coisa, só uma naquela hora tinha de ser. Sorte é que foi aquela.
Sempre aparece alguém com alguma nova idéia brilhante para completar a frase "O homem é o único animal__________". Alguns vão te dizer "político"; outros, "racional", "da linguagem", "que se sabe no tempo", "que come Polenguinho". Eu diria: "O homem é o único animal capaz de estilo". Segundo o narrador do Animal Planet, poucas coisas são tão bonitas quanto um guepardo no momento em que ele vai avançar sobre a presa. Mas trezentos guepardos avançando sobre a presa são trezentos guepardos avançando sobre a presa da mesma maneira (daí a monotonia daqueles documentários sobre bichinhos). Já trezentos homens avançando sobre a presa seriam trezentos homens avançando cada um de jeito: uns agarrariam ela direto pelo pescoço, outros ficariam só em volta, lendo Drummond até ela pegar no sono. Tem ainda os que acabariam eles mesmos presa da gazela indefesa, os que no caminho tropeçariam num arbusto. De ser definido pelo contingente ninguém escapa, para preocupação do filósofo existencialista que eu vi esses dias de roxo e vermelho.
Posted by Rodrigo de Lemos at junho 9, 2008 02:03 PM
Comments
As imagens me vieram imediatamente. Não adianta: prefiro a elegância uniforme de trezentos leopardos à estronchice singular de cada um de nós.
Posted by: Adriano at junho 10, 2008 03:26 PM
Adriano darling, quanto tempo!
Posted by: rodrigo de lemos at junho 10, 2008 10:46 PM
Só não concordo com o Adriano porque dentre tanta estronchice sempre haverá alguém mais elegante que os leopardos. A questão é virar os olhos pro lado certo (geralmente o oposto do que o existencialista de roxo e vermelho encara).
Posted by: Gustavo at junho 10, 2008 11:32 PM
Gustavo: bom, pode ser que eu esteja vendo muito existencialismo de roxo e vermelho... ou o Animal Planet, não sei.
Ultimamente, minhas vivências têm sido, basicamente: a faculdade de letras e a minha casa (diante da TV com o Animal Planet). Então, não me restam muitas escolhas.
(Aliás, desculpem-me o erro, eram guepardos, não leopardos.)
Rodrigo: eu desapareço por eras, mas nunca abandono.
Posted by: Adriano at junho 11, 2008 12:44 AM
Sempre odiei roxo com vermelho. Mas a gente vê tanto por aí, que achei que o mau gosto era meu.
É revoltante. Especialmente em velhotas que botam blusa roxa com batom e esmalte vermelhos.
Quanto ao estilo, bom... alguns o têm conscientemente, outros seguem seus instintos, o que não os diferencia muito dos leopardos e micos-sagüis.
Posted by: Badá at junho 13, 2008 10:05 AM
roxo, vermelho, existência... êpa, alguém falou em emo?
Posted by: dleine at junho 19, 2008 04:26 PM
Interessante notar essa dualidade entre o SUPÉRFLUO e o NECESSÁRIO, é exatamente isso, o foco no supérfluo, que faz o homem deixar de se empenhyar nas coisas que realmente importam.
O sistema cria um ciclo vicioso para justificar a perda de energia com questões como moda por exemplo.
Faz parte do jogo pra nos trancar na Matrix ; )
Ótimo blog, tomara que eu tenha a oportunidade de debate aqui... pq esperava que o pessoal desse mais importância pra um assunto tão sério.
Posted by: Pedro Henrique at julho 2, 2008 10:41 PM