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junho 02, 2008

la dolce vita

Nenhum dos meus artistas preferidos teve uma vida interessante. Fiquei aliviado em saber. De Watteau nenhum escândalo, nenhum crime bárbaro. Proust e Waugh até tiveram juventudes mundanas, mas logo foram para o quarto escrever. O mesmo com Valéry, o mesmo com Debussy. Segundo a minha lista dos melhores, quanto mais interessante é a vida, menos o sujeito tem o que dizer.

Me surpreende como pouca gente tem a mesma opinião. Todo mundo elogia Hemingway porque ele caçava tigres e trata Pollock como herói por causa do alcoolismo, mesmo que Hemingway seja superficial e que boa parte do que Pollock pintou tente ser lírico e não passe de decorativo. Talvez isso aconteça por causa dessa obsessão pela biografia dos artistas a que as pessoas sucumbiram no século XX - e que, junto com comunismo, jeans com camiseta e outras banalidades, não está com cara de desaparecer no XXI. Mas pode ser também que a idéia das pessoas sobre o que seja uma vida interessante esteja simplesmente errada. Quando me dizem que alguém teve uma vida interessante, logo sei que a criatura ou freqüentava festas na Riviera ou saía com celebridades ou se drogava até babar na camisa ou sofria de alguma doença mental ou (melhor ainda) tinha taras sexuais aberrantes - se preencher mais de duas das condições acima, ou é o Fitzgerald ou o Serguei.

Me parece que uma vida interessante nesses termos até pode dar conteúdo para um romance, só que se não houver uma sensibilidade certa para perceber as nuances morais da orgia ou do suicídio, o romance será algo como um Bukowski nos piores momentos. O problema é que geralmente os que têm essa sensibilidade são os caras que ficam de pantufa sábado à noite. Não nego que os garotos de programa tenham sido importantes como tema para "À la Recherche du Temps Perdu". Mas Proust só conseguiu transformar a visita ao prostíbulo masculino num dos episódios mais estranhamente bonitos do livro porque tinha uma sensibilidade treinada por horas de ascese estética solitária e nada glamourosa, coisas tipo ficar olhando fixamente para uma xícara ou um prendedor de roupa.

Meu artista ideal seria alguém que perderia muito tempo com esses exercícios meio inúteis, meio sem sentido. Seriam a rodinha na gaiola do hamster para a sua sensibilidade. O que não daria muita fofoca, é claro. Para mim, quanto melhor é a obra, mais chata a biografia.

Posted by Rodrigo de Lemos at junho 2, 2008 02:23 PM

Comments

oh, nunca comento, mas hoje não resisto. gostei do post, me fez sentir melhor por ter passado quase uma hora olhando pra minha xícara hoje de manhã...

Posted by: guilherme m. at junho 2, 2008 02:46 PM

"Quando me dizem que alguém teve uma vida interessante, logo sei que a criatura ou freqüentava festas na Riviera ou saía com celebridades ou se drogava até babar na camisa ou sofria de alguma doença mental ou (melhor ainda) tinha taras sexuais aberrantes - se preencher mais de duas das condições acima, ou é o Fitzgerald ou o Serguei."

Muito bom, e um exemplo típico do consagrado estilo Rodrigo Lemos. E eu concordo com quase tudo no post - o meu único reparo é quando você escreve que o "romance será algo como um Bukowski nos piores momentos". Dizer isso pressupõe, ainda que apenas retoricamente, que há momentos em Bukowski melhores que os outros, o que me parece uma impossibilidade
Um abraço,
Marcos

Posted by: Marcos Matamoros at junho 2, 2008 04:11 PM

Rodrigo "de" Lemos

Posted by: Marcos Matamoros at junho 2, 2008 04:12 PM

Mais um post seu que eu gostaria de ter escrito, Rodrigo. :) Subscrevo inteiramente. Um abraço!

Posted by: Ruy at junho 2, 2008 05:45 PM

Rodrigo, meu caro, há um trecho interessante de um livro chamado "Beijar o Céu", escrito por um crítico chamado Simon Reynolds, sobre o quão superestimada é a biografia "vida louca" dos artistas de música pop. O trecho na verdade é um pedaço de uma entrevista com o Radiohead (na imensa maioria da vezes muito chata e ativista e politicamente correta e esquerdinha, mas até que aqui os caras estão extremamente lúcidos).


"Uma das coisas que gosto no Radiohead, porém, é que eles parecem confortáveis com sua origem classe média: não orgulhosos, conscientes que são da questão do privilégio, mas também sem adotar falsos sotaques populares e sem esconder o fato de que lêem livros ( o título de Amnesiac, por exemplo, foi inspirado por algo que Yorke leu num livro sobre gnosticismo). Mesmo o fato de que Greenwood não apareceu na entrevista oficial no escritório da Courtyard para assistir ao primeiro dia de críquete em Lords parece parte da sua autenticidade (isso me lembra como costumavam gozar Lloyd Cole na imprensa musical por ele gostar de golfe, enquanto Robert Smith, do Cure, podia falar sobre Camus porque adorava futebol e, portanto, era um "cara gente boa").
" As pessoas não confiam em estudo, não é?", reflete Greenwood. "Não querendo nos comparar a ele, obviamente, mas tem várias histórias sobre Miles Davis indo na academia Juillard e estudando partituras clássicas na biblioteca. Meio que se evita falar desse lado dele para favorecer o lado "vida louca". Mas isso só me faz adorá-lo ainda mais, a idéia de buscar inspiração musical de tudo e de toda parte". De sua parte, Yorke ataca o que ele chama de "a idéia do bom selvagem criativo" como "um mito realmente destrutivo" e "uma armadilha" para o artista.
"Teve uma hora em que eu comecei a acreditar que, se você senta e analisa o que está fazendo, preocupando-se com isso, você não está sendo você mesmo. Mas, por exemplo, Mark E. Smith não é um bom selvagem - ele é um intelectual, cacete. Mas com a gente existe essa suspeita, de que calculamos tudo o que fazemos. De onde vem isso, a idéia de que sentar e pensar sobre algo não pode ser, de forma alguma, emocional? Talvez é um tipo de nóia punk mal resolvida." O punk foi de fato a grande era do "sou mais proletário que você", e de gente forçando gírias para parecer mais povão do que era. Mas aí pense em Glen Matlock - para sempre ridicularizado por ser de classe média, filhinho de mamãe, fã dos Beatles - e pense que merda que os Pistols viraram depois que ele e sua habilidade de compor foram expulsos. Jerry Dammers era filho de um vigário! Então vamos ouvir o que a burguesia tem a dizer - perpetuamente rejeitada, mas sempre tendo um papel na história do rock.

Posted by: Gabriel Trigueiro at junho 2, 2008 07:23 PM

Desculpe o tamanho absurdo do comentário, rapazola. :-)

Posted by: Gabriel Trigueiro at junho 2, 2008 08:25 PM

Acho que se pode abrir uma exceção a Jean Genet..:-) A vida dele talvez não tenha sido tão interessante a nós (Ou talvez você não goste dele), mas que usou dos recursos oriundos dela, isso lá Genet usou, e muito bem: a obra é boa e a biografia nada chata.

Posted by: Carla Cristina at junho 2, 2008 08:39 PM

Olá, Rodrigo. Post mesmo muito bom. Ia também dizer que não consigo pensar num Bukowski em forma, mas o Marcos já disse algo parecido. Abraço.

Posted by: ed at junho 4, 2008 08:21 PM

"Para mim, quanto melhor é a obra, mais chata a biografia."
Faz sentido. Li 'O Mago' que o Fernando Moraes escreveu, contando a vida do Paulo Coelho. É ótimo.

Posted by: Ricardo at julho 21, 2008 03:34 AM

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