« o pequeno wallace stevens | Main | do "manyoshu" »
maio 09, 2008
onde está o eliot?

Onde está o Wally?
Nunca consegui explicar direito de onde vinha esse desgosto quase fisiológico que sinto ao ler um crítico de arte ou muito sociológico ou muito psicanalista ou muito desconstrucionista, e minha simpatia distante por coisas meio fora de moda como New Criticism e até certo ponto Estruturalismo. Além dos argumentos mais ou menos óbvios (de que saber como Thackeray organizou "Vanity Fair" ensina alguma coisa a quem lê e a quem escreve sobre como estruturar romances, enquanto dizer que Rebecca Sharp é uma manifestação do Eterno Feminino, convenhamos, não ajuda muito), havia alguma coisa de mais irracional nesse desgosto. Mas ontem, depois da curta anamnese que sempre faço tomando Toddyinho, me veio o motivo, que chamarei muito psicanalisticamente de Cena Primordial.
Eu tinha 18 anos. Estava no Museu do Prado, eu e um monte de turistas que tiravam fotos com flash e mascavam chicletes barulhentos; na nossa frente, "O Jardim das Delícias". Foi um daqueles momentos em que entendi claramente o que é ver um quadro: apesar dos flashes e dos chicletes à minha volta, deixar o olho passear sobre a tela, gostando de um cena aqui, passando por cima de outra menos interessante logo depois, quase nunca me perguntando "Por quê? Por quê?", sempre prestando muita atenção nos "como": como Bosch tinha organizado a cenas, como o quadro agia sobre o meu olho. Mas não demorou muito para eu perceber uma perturbação ao meu redor. A alguns passos de mim, uma mulher com cara de mãe, sotaque de nova-iorquina, passou empurrando quem encontrava pelo caminho, falando alto até chegar bem na frente do quadro. E aí ela explicou para o marido - meio bolha, pelo que percebi - o porque daquele alvoroço: ela tinha lido numa revista que, em meio às figuras do "Jardim das Delícias", havia um diabo se masturbando, e que sem achar o diabo se masturbando não havia como entender "O Jardim das Delícias". E foi isso que ela fez durante os quase dez minutos que passou em frente ao quadro: procurar o tal diabo onanista como quem procura "Onde está o Wally?".
É isso que acho que um crítico ou muito sociológico ou muito psicanalista ou muito desconstrucionista faz: procurar o Wally. De um jeito muito sofisticado, cheio de método e de justificativas teóricas e de termos de mais de quatro sílabas, mas ainda assim é isso, procurar o Wally. Alguns até juram que estão prestando muita atenção no "Como?", que eles chamam de retórica ou aspectos formais ou qualquer outro nome deses, mas eles prestam atenção no "Como?" só para no fim achar o Wally. Não estou dizendo de antemão que num poema do Eliot eles não vão achar o Wally dando um cascudo num judeu; que numa pintura do Rubens o Wally não vai estar repetindo infinitamente o objeto de desejo por razões freudianas. Pode ser. Mas escrever um trabalho exclusivamente sobre isso não serve de nada se não responder a única pergunta que me interessa na crítica: qual o valor que aquela obra tem para aquele crítico? Ficar procurando o Wally sem falar na musicalidade do Eliot, no movimento em Rubens, não responde a essa pergunta. A não ser que o crítico pense que "Wasteland" vale menos porque tem traços de anti-semitismo, o que o levaria também a desvalorizar não sei quantas obras do passado (freqüentemente racistas ou elitistas ou xenófobas ou qualquer outro pecado do tipo.)
Sei que em faculdades a minha posição é chamada com desprezo de diletantismo elegante. Não tenho problema nem com diletantismo e, ao contrário dos professores universitários, nem com elegância. Mas é uma simplificação. Não acho que métodos mais rígidos sejam inúteis. Só que eu não excluiria deles um certo diletantismo. Apagar todo diletantismo da crítica significa apagar qualquer traço do prazer irresponsável que senti na Cena Primordial, quase nunca perguntando "Por quê? Por quê?", sempre prestando muita atenção no "Como". Talvez venha daí minha simpatia por métodos formalistas meio fora de moda. O meu crítico ideal leria de perto como um New Critic, e entenderia muito sobre estilo e foco narrativo e organização estrutural como um Estruturalista clássico, mas usaria todo esse maquinário meio feio, meio cinzento para responder uma única questão: de onde vem o prazer ou o desprazer que ele sente? E ele seria um diletante não só porque o prazer e o desprazer seriam a sua maior preocupação, mas também porque ele confiaria mais na inteligência do que em métodos. Por isso, nada impediria que às vezes ele procurasse o Wally se sentisse necessidade. O que a esperteza dele não permitiria é passar uma tarde inteira no Prado só para isso, ainda mais com visto de turista.
Posted by Rodrigo de Lemos at maio 9, 2008 12:22 PM
Comments
Mas tem o diabo onanista no quadro? E se pudesse escolher entre os procuradores de wally que mais me divertem, esses seriam os que procuram wally em Waugh, porque né? tudaver procurar wally em black mischief...
Posted by: Tiago Lopes at maio 9, 2008 01:43 PM
Lembrei de uma passagem interessante do Ezra Pound no seu ABC da Literatura que acredito resumir bem essa procura pelo Wally. No livro ele descreve o mau crítico como aquele que antes de mais nada prefere falar da biografia do autor ao invés de abordar a obra própriamente dita. O bom crítico, segundo Pound, faz uma escolha. "Sua escolha já denota a qualidade de seu trabalho. Opina diretamente sobre a obra. Revela a obra. Revela novos autores. Sem titubear."
Posted by: Felipe Silveira at maio 9, 2008 03:30 PM
Os piores procuradores de Wally são aqueles que procuram - e encontram - Golias onde tem meio Davi. Tipo os Wallies de Matrix, por exemplo (posso citar Matrix em texto sobre obras de arte? Posso, né? Meio de lado, assim, mas posso, né?.
Posted by: Gustavo at maio 9, 2008 08:47 PM
Uniformizei as mais ou menos 12 maneiras que consegui escrever Eliot no segundo parágrafo. Diletantismo tem limites (ainda mais sem elegância).
Posted by: rodrigo de lemos at maio 9, 2008 09:30 PM
O New Criticism é infinitamente superior a todos esses Derridas, Foucaults e Deleuzes da vida. É também infinitamente mais honesto. Que esteja fora de moda é indiferente para qualquer sujeito com bom senso.
Posted by: Nestor Magalhães at junho 2, 2008 05:53 PM
Rodrigo, é engraçado, mas eu tava justamente pensando sobre isso hoje, lembrando da tua avaliação dos métodos críticos e como tu dizes que o método, antes de tudo, deve ser a inteligência. Pois bem, para quem não tem a dita cuja (nem cultura ou gosto), um método rígido é uma beleza: ele também terá o direito de dizer o que não tem a dizer. Mestrandos e doutorandos que o digam. Uma verdadeira democracia intelectual.
Posted by: Adriano at junho 9, 2008 09:14 PM