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abril 30, 2008
títulos e títulos
Claro que o título de uma peça ou de um filme serve menos para exprimir o conteúdo do que para te dizer veladamente se vale a pena assistir ou não. Os próprios artistas têm a gentileza de nos avisar antes de entrarmos no museu ou no teatro que estamos fazendo besteira, e o jeito de eles nos avisarem é o título. É então delicado da nossa parte ouvir. Eu, pelo menos, não assisto a filmes que tenham títulos que lembrem taras sexuais escatológicas ("Água Negra" e mais uns tantos) ou peças de teatro que justaponham um nome de personagem clássico a um conceito acadêmico ("Fausto Sincrético", em que em vez de um sábio Fausto é um pai-de-santo; "Tirésias Contemporâneo" com um travesti tetudo e não-operado no papel principal. Quer dizer, esse seria legal). Livros então com títulos poéticos/preciosos - "Pensar é + verbo afrescalhado", "A Elegância do Porquinho-da-Índia" -, distância.
O mesmo com palestras. Tenho pouca experiência com palestras, e o pouco que tenho peço a Deus que pouco continue. Mas já é o suficiente para deixar aos meus descendentes uma regra dourada: nunca ir a palestras que tenham no título a palavra "cultura". Pode ser do Zimbabwe. Economia do Zimbabwe, pintura do Zimbabwe, cinema do Zimbabwe, história do Zimbabwe, culinária do Zimbabwe (um tópico que teria pouco a desenvolver, ao menos pelas fotos de um campo de refugiados que eu vi na internet), disso com sorte se pode tirar alguma coisa. Já cultura do Zimbabwe significa um monte de generalizações senso-comum sobre os zimbabwenses ditas com ar de grande cientificidade. Além disso, via de regra os palestrantes sobre cultura são muito pouco cultos para te dizerem claramente o que é uma.
E títulos de blog, então? Por exemplo -
Posted by Rodrigo de Lemos at abril 30, 2008 11:23 AM
Comments
:D
e que tal corrigir uma proposta de redação com o tema: a indústria cultural e suas relações com a sociedade contemporânea.
né.
mas essa do teatro é tão a mais pura verdade, que eu já fugia dessas coisas sem nem saber por quê.
Posted by: Olivia at abril 30, 2008 06:52 PM
Olivia é uma moça de sorte, virou corretora num Santa Cruz em que os temas eram esses. Na minha época, isso é, ano retrasado, as propóstas de redação eram conforme o exemplo real: "discorra sobre a função e o sentido de ser jovem nos dias de hoje".
Pra botar uma azeitona na empada do Rodrigo: artigos de filosofia. Fique longe de qualquer coisa que se autodenomine "ensaio ontológico". Ontologia é o tipo de coisa que você tem vergonha de fazer em público --- ou faz sem admitir que está fazendo.
Outra: " na pós-modernidade", ou "{Derrida, Deleuze, Lyotard} e o ", ou ainda qualquer coisa do tipo: "Discursos do Absurdo: Narrativa pós-cultural nos trabalhos de Madonna". Veja bem, eu gosto do Derrida e uso alguns conceitos do Lyotard (tosse, tosse, diferendos) em quase toda a crítica que escrevo. Mas artigo pós-modernista é furada.
Qualquer coisa com palavras em alemão no título (Weltanschauung, Ur Eine, Geist, Übermensch). Qualquer coisa relacionada a Espinosa. Qualquer análise que caracterize um autor como "anticartesiano". Qualquer coisa em cujo título constem neologismos formados pela afixação de "pós-", "neo-", "sub-" ou qualquer prefixo grego com mais de quatro letras ("hiper-texto"). Fuja.
Posted by: Bruno ( ) at maio 1, 2008 12:33 AM
Não fosse a mania de zapear tv, teria perdido de ver preciosidades por causa do título...
Posted by: dleine at maio 1, 2008 05:51 PM
Bruno:
O problema maior não está no prefixo, mas no hífen. É ali naquele minúsculo tracinho que eles vão colocar milhares de subsignificações (acho que errei umas trinta vezes ao tentar digitar essa palavra).
Posted by: Adriano at junho 11, 2008 12:55 AM