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abril 10, 2008
ópera de pequim
Ano passado um amigo voltou da França dizendo que tinha visto um grupo de Ópera de Pequim assim, num cassininho em Paris. Foi o suficiente para ativar a região "Ó como odeio meu país" no meu cérebro e eu ficar sussurrando "Stranger in a strange land!" pensando que essas coisas não acontecem no Brasil. Nem seis meses depois tenho de engolir os meus resmungos vendo num outdoor uma apresentação da Ópera de Pequim no Teatro do SESI.
Quanto ao espetáculo? Nos primeiros minutos já percebi que não tinha muito como julgar o que estava acontecendo no palco e que a única coisa a fazer era me divertir (o que não achei difícil, d'ailleurs). Às vezes acontece comigo: se conheço mais ou menos uma arte, tendo a ficar ultra-vigilante para não deixar passar uma falha ou um grande achado. Numa ópera ocidental, por exemplo, não é muito difícil notar quando a soprano desafina, quando o tenor dá um dó de peito. Temos mais ou menos um parâmetro de comparação. Mas comparar com o quê um cantor de ópera chinesa? Gatas no cio ou portas rangendo, talvez. E, acreditem, essa ignorância é libertadora.
Fiquei com a impressão de que ópera chinesa é teatro modernista que deu certo. Como no teatro modernista, tem poucos elementos cênicos. Como no teatro modernista, tem distanciamento crítico. Como no teatro modernista, a estilização é escancarada, evidente. Mas ao contrário de boa parte do teatro modernista, não houve excesso de intelectualismo, e um gesto tinha de ser belo só por ser belo, um fraseado valia por si. Também ninguém nos chamou para participar no palco.
No mais, minha ida à Ópera de Pequim foi uma das realizações de um projeto (projeto não, que bobagem: digamos curiosidade diletante) de conhecer mais sobre essas culturas meio bizarras que aparecem em filme do Indiana Jones. Se a Fortuna não nos permitiu nascer num país cheio de guetos em que se come quebabe sujo ou se sacrificam vítimas humanas a Moloch, que ao menos as nossas estantes de livros sejam cosmopolitas. Já formei uma coleçãozinha de mitos celtas e hindus, poesia chinesa, poesia árabe pré-islâmica, filosofia e poemas sufistas, alguma coisa japonesa (além de Haikai, meio óbvio, um pouco de Manyoshu e de mitologia). Estou comprando o que mais aparecer de arte e literatura oriental. Menos "O Livreiro de Kabul", qua daí já é sacanagem.
Posted by Rodrigo de Lemos at abril 10, 2008 10:33 AM
Comments
Projeto...hahaha!!!
Posted by: dleine at abril 16, 2008 12:26 AM