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janeiro 16, 2008

ou "a culpa é do marido"

Ainda vou escrever um libelo defendendo os maridos traídos nos romances de adultério. Parece evidente, mas não é. Os grandes romances de adultério parecem sempre dizer: "foi corno porque foi bolha". Como se já não bastassem os risinhos das camareiras e as alusões dos amigos e as fofocas esquentando conversa em festinha desanimada, o coitado do marido traído ainda tem de agüentar o autor sussurrando o tempo todo no ouvido dele: "E a culpa é tua, panaca! Toda tua!". Por isso simpatia aos Alexei Karênin e aos Charles Bovary e aos Lord Chatterley. Só não digo mes semblables, mes frères porque ia pegar mau.

A ingenuidade desses romances é acreditar que podia ter sido diferente. Que se os maridos tivessem cuidado das esposas, dado atenção e afeto em vez de serem ausentes ou gélidos ou obcecados com as suas carreiras, elas não teriam traído. Acho bobagem. Um marido é um ser que se define enquanto tal exatamente por ser obcecado com a carreira. Pode nem ser casado, mas ficou obcecado pela carreira, pronto: é um marido. E em alguns casos é isso que permite que a mulher se divirta: se Alexei Karênin não pensasse só em ganhar dinheiro e triunfar, Ana seria pobrinha e não teria aqueles belos vestidos de veludo com que conquistou Vronski e a bela casa de campo em que se encontrava com ele. Uma coisa assim, taoísta: é a seriedade do marido que faz a alegria da adúltera, e ainda mais a do amante.

Até onde lembro, Balzac não caiu nessa de culpar o marido. O adultério na Comédia Humana parece uma fatalidade do casamento, e para Balzac esperar fidelidade feminina é oscilar entre o razoavelmente improvável - que uma mulher não deseja no fundo um amante - e o totalmente impossível - que um marido possa se comparar a um. Isso pode fazer o marido parecer um coitado, mas o que me chama atenção nos cornos de Balzac é que às vezes eles são muito dignos. Uma das minhas cenas favoritas ever é a do baile de Madame de Beauséant em Père Goriot: bem no dia da festa, Madame de Beauséant é deixada pelo Marquês de Ajuda-Pinto, seu amante de anos. Toda a sociedade está lá para vê-la arrasada, fazendo cena tipo "rímel borrado-copo de uísque-Elis Regina na vitrola", mas Madame de Beauséant para surpresa geral aparece impecável, sem demonstrar fraqueza. E no fim da festa, quando os convidados estão indo embora meio decepcionados por terem perdido o show, Madame Beauséant anuncia ao marido que vai se retirar para o campo e que nunca mais vai aparecer no monde por causa do marquês. O marido, muito digno, muito compreensivo, deseja boa sorte, e ela vai embora. Open marriage is kinda creepy.

Posted by Rodrigo de Lemos at janeiro 16, 2008 12:10 PM

Comments

minha tese é de que marido que se empenha em dar somente atenção e afeto à esposa vai ser um dia corno.

E olá, Rodrigo.

Posted by: Ed at janeiro 16, 2008 12:08 PM

E o marido da judia que o Ega comia (desculpa, carioca é desbocado mesmo)em Os Maias? Como se encaixa na sua análise?

Posted by: F. Arranhaponte at janeiro 16, 2008 01:29 PM

é, eu sempre simpatizei com Charles Bovary... não sei o que isso significa, mas nunca achei que ele mereceu ser corno. até que ele era um sujeito simpático.

Posted by: mississipi at janeiro 16, 2008 03:37 PM

Exatamente, Rodrigo. Também gosto de autores que não culpam os cornos por suas próprias cornices. Penso agora em "A Handful of Dust" e fico contente por Lady Brenda ter se ferrado na mão do John Beaver. Mas talvez o determinante no destino de Lady Brenda foi o fato do próprio Evelyn Waugh ter sido corno, creio eu.

Abraços,

Posted by: Gabriel Trigueiro at janeiro 16, 2008 06:20 PM

Lendo o meu nome, não há a menor possibilidade de comentário.;)

Posted by: marie tourvel at janeiro 20, 2008 09:04 AM

A expressão 'um corno digno' é o melhor desse post. Vai pro meu vocabulário.

Posted by: Ronald at janeiro 23, 2008 01:51 PM

Marriage is always creepy.

Posted by: dleine at janeiro 23, 2008 03:49 PM

Não sei se tudo isto não é uma bobagem dos escritores do passado. Todo bom romance tinha de ter uma taição, um corno, enfim. Tudo se resume em histórias de medíocres, pequenos burgueses que pareciam não trabalhar, não comer, não cagar, não mijar. Felizmente, parece que o conceito do bom romance se libertou destes cacoetes. Também acho que o conceito de cornice é uma invenção pequeno burguesa, calcada ainda na demonização da mulher pela igreja católica. A verdade é que a fidelidade conjugal é uma grande mentira,porque seria exigir do ser humano um sacrifício que ele é incapz de fazer. A fidelidade nunca existiu. É contra a natureza humana.Peço uma visita a meu blog. El Carmo. htt://el.carmo.blog.uol.com.br

Posted by: El Carmo at fevereiro 2, 2008 01:01 AM

Muito bom o texto Rodrigo!! Bravo!

Posted by: Ana Raquel Karkow at fevereiro 23, 2008 05:40 PM

E por que paraste de postar? Isso não se faz, assim sem mais nem menos

Posted by: F. Arranhaponte at fevereiro 25, 2008 04:18 PM

Atualiza aê!

Posted by: Tiago Lopes at março 4, 2008 06:33 PM

Acabei de excluir o seu blogue dos meus RSSsSorry.

Por favor, mande-me um e-mail quando atualizar.

Eu era um bambi intelectualóidezinho em formação aos 18 anos. Não me deixe órfão, my deer.

obs.
(odeio o cinismo da pós-Modernidade)

Posted by: Jorge at março 5, 2008 01:42 PM

Ótimo texto. Acho que, realmente, essa coisa de traição é porque a pessoa tava a fim e pronto. E casamento aberto é uma aberração.

Posted by: Vica at março 16, 2008 01:09 AM

jorge: 18 anos? hm. qual sua descrição?

estou voltando, estou voltando, minha gente.

Posted by: rodrigo de lemos at março 19, 2008 03:56 PM

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