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dezembro 12, 2007

o nosso amigo cânone

O máximo de ruim que consigo pensar sobre o cânone é que para quem tem um mínimo de sensibilidade artística ele não atrapalha e para quem não tem a mínima ele até ajuda. Ninguém que realmente gosta de pintura vai passar a amar um quadro só porque a tradição disse que ele deve. Já quem não leva muito jeito com a coisa, se ler um pouquinho, tem menos chance de perguntar numa mesa de amigos arty se Cézanne é uma marca de louça para banheiro.

Mas me parece mais agradável amar o que está fora do cânone. Não porque está fora - o que seria tão filisteu quanto amar o que está no cânone só porque está no cânone - mas quando você descobre de repente que, tipo assim, um dos seus poetas favoritos hoje não recebe atenção nem na academia. É a sensação de estar sozinho com o ser amado, sem um monte de gente em volta elogiando o que você quer descobrir por si mesmo que é elogiável. Claro, sempre tem umas sensibilidades sutis para lembrar que isso talvez não seja tão importante, que mesmo se todos os seus colegas de escritório lerem o seu clássico preferido cada um vai criar mentalmente o seu próprio texto e blá-blá-blá, mas isso me soa convincente como o consolo de que não há muito problema em todos seus colegas de escritório cobiçarem sua namorada já que cada um vai ter uma versão diferente dela na cabeça depois de levá-la para a cama.

Há nem um ano, por exemplo, comecei a ler a poesia de Jean Cocteau, mas acabo de descobrir por este artigo excelente que ninguém mais lê "Plain-chant" ou "Um Ami dort" ou outros poemas que me fizeram colocá-lo na Galeria dos Homens Altamente Invejáveis. Primeiro me veio uma sensação de stranger-in-a-strange-land, de ó-tempora-ó-mores e tudo o mais que pensamos para inflar a nossa vaidade quando encontramos um descompasso entre o nosso gosto e o mundo. Mas depois senti um quase alívio. Se é tão raro assim achar alguém lendo Cocteau, dificilmente vão se formar em torno dele aquelas comunidades de gosto meio chatinhas que circundam Cortázar e Samuel Beckett, por exemplo.

Agora, por que Cocteau hoje é pouco lido como poeta? Talvez porque ele seja bom demais para a nossa época. Aconteceu com Paul Verlaine, com os irmãos Goncourt. Nossos contemporâneos preferem artistas de idéias, não tanto artistas de estilo. No caso de Cocteau, o caso é ainda mais grave. Boa parte do que se expõe ou escreve atualmente é influenciada pela arte de gente que pertenceu a movimentos e escreveu manifestos e aderiu a programas. Já Cocteau sempre se manteve um individualista orgulhoso de si, flertando com todos os movimentos, mas não aceitando por completo nenhum. Ele realmente achava que se um poema se impunha como um soneto, devia ser escrito como um soneto; se uma semana depois outro poema aparecesse em verso livre, devia ser feito em verso livre, e muitas vezes num verso livre bastante radical, quase Apollinaire. Numa época que confunde estética com teorema, um artista tão preocupado com a Obra e não com a Arte só pode ser desacreditado como "frivolous queen" mesmo.

Posted by Rodrigo de Lemos at dezembro 12, 2007 11:58 AM

Comments

Mas como você é indie, Rodrigo. :)

Posted by: Ruy at dezembro 12, 2007 12:05 PM

eu sei. não leio mais camões desde que ele se vendeu pro mainstream.

Posted by: rodrigo de lemos at dezembro 12, 2007 12:21 PM

Nesse caso, concordo. Ele era bom até aquele soneto da maminha -éo que dá assinar com uma major. Bom mesmo é o Sá de Miranda, que permaneceu indie.

Posted by: Ruy at dezembro 12, 2007 05:42 PM

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