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novembro 21, 2007
melhor de três
No fim da infância, gostava de Alberto Caeiro porque era o único dos três heterônimos famosos de Fernando Pessoa que eu entendia. Quando era adolescente, meu favorito era Álvaro de Campos porque ele agia como um. Depois, quando comecei a escrever poesia, passei a admirar o Fernando Pessoa de "Mensagem". Mas agora já acho que o heterônimo que me agrada mais profundamente é Ricardo Reis, o pagão resignado.
Lembro que era consenso entre meus professores de literatura no colégio - um consenso facilmente acordado, apesar dos graus variados de filistinismo dos sujeitos - que Ricardo Reis era o mais fraquinho dos heterônimos. Ainda na época li algumas odes e descobri que elas estavam bem acima do que os professores tinham julgado; difícil um adolescente que não seja compelido a cometer alguns excessos ao se ver definido como um "cadáver adiado que procria": já que a criatura é só um cadáver adiado mesmo, que pelo menos tenha o prazer de "procriar" (e preferencialmente sem as conseqüências esperadas). Quando comecei a ler no original alguma poesia lírica grega e latina, admirei ainda mais a qualidade dos poemas; os versos brancos realmente lembravam Safo e Propércio, mas com uma sonoridade muito própria, muito portuguesa (se em "As rosas amo dos jardins de Adônis" ele latiniza, "Sofro, Lídia, do medo do destino" é um belo exemplo dessa naturalidade). Mas atualmente acho que é a filosofia de Ricardo Reis que mais ecoa na minha sensibilidade. Tudo bem, tudo é um Mistério. Só que a tarde estão tão bonita para resolver ele que vale mais a pena a gente se vestir com umas cores pastel e sair por aí meio bêbados e ficar contemplando como o Mistério é gracinha.
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
Não que eu me orgulhe dessa indiferença. Talvez fosse divertido buscar a transcendência, Deus, o Nirvana - menos o Segredo que daí é sacanagem (e não me intriga, como Paulo Henriques Britto nesta entrevista para Pedro Sette Câmara, que outras pessoas busquem). O descrente lembra um pouco aquelas pessoas que passam a vida inteira pela na Rua da Praia sem reparar nos prédios antigos, uma sensibilidade amputada. Uma cegueira para o invisível, um limite para a imaginação. Mas assim como um amputado, mesmo fingindo ter duas pernas, vai ao chão se tentar andar sem muletas, seria uma tentativa ridícula eu sair por aí dizendo credo in unum Deum. Isso sim, uma ofensa ao Mistério. Mais respeitoso é o bordão de Ricardo Reis: "Circunda-te de rosas, ama, bebe/ E cala. O mais é nada". Calar eu não consigo, vejam por esse blog, mas espero com todo o coração que ao menos as rosas não sejam vermelhas, o amor seja correspondido e o vinho não seja nacional. Quando ao mais não ser nada, pode ser que sim, pode ser que não, mas já vou estar tão bêbado que não vai fazer a mínima diferença.
Posted by Rodrigo de Lemos at novembro 21, 2007 02:04 PM
Comments
Amei, posso? Ricardo Reis é charmoso demais. O mais é nada, os outros são também. Por que é que toda vez que visito seu blog me sinto em um ambiente tão fluido, tão agradável? Talvez porque você não passe o tempo apontando horríveis defeitos alheios, mas sim falando de assuntos interessantes e amenos? Meus parabéns. Não vá ficar muito vaidoso, que eu retiro o que disse.
Posted by: Badá at novembro 21, 2007 06:09 PM
Seus escritos são de fato agradabilíssimos. Quanto a Fernando Pessoa, que ótima escolha...
Posted by: Carla Cristina at novembro 21, 2007 09:33 PM
Eu gosto demais do Álvaro de Campos do "Nunca conheci quem tivesse levado porrada", que aliás, coincidentemente, postei por esses dias.
E assino o que as moças disseram aí em cima (Badá é uma moça, né?).
Abraço, Rodrigo.
Posted by: Ed at novembro 22, 2007 09:00 AM
Sim, Ed.
Posted by: Badá at novembro 22, 2007 09:35 AM
Meu contato com a poesia de Fernando Pessoa é bem recente. Li Alberto Caeiro há poucas semanas, mas gostei bastante. Li e reli. Esse post pode me ser muito útil. Dos heterônimos, Reis é o único que não tenho em casa, mas, se é como dizes, pretendo conhecê-lo em breve.
Abraços a todos.
Posted by: Nagel at novembro 22, 2007 10:13 AM
No começo gostava mais - e com um certo grau de fanatismo - do nervosismo frenético de Álvaro de Campos. Depois, quando passei a preferir Ricardo Reis fiquei até com aquela sensação de estar dando um ou dois passos atrás. Hoje Reis continua sendo o meu heterônimo favorito. E regar as próprias rosas, beber o vinho, calar-se, olhar (impotente, mas calmo) o fluir do rio e da vida, bem, talvez seja a a única paz possível.
Posted by: mississipi at novembro 22, 2007 05:08 PM
mudei umas coisinhas no post. pagão "tranqüilo" para ricardo reis não dá - troquei por "resignado". alberto caeiro seria bem mais o tranqüilo.
também exagerei na descrença do ricardo reis, mas tenho a desculpa de que foi só para falar da minha própria.
e um abraço bem agradável, bem fluido... :-)
Posted by: rodrigo de lemos at novembro 23, 2007 09:58 AM