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novembro 28, 2007
a virtude que não ousa dizer o nome
É uma verdade universalmente reconhecida que onde quer que haja um intelectual dionisíaco haverá sempre um órgão de fomento à pesquisa bem apolíneo para sustentá-lo. Foi disso que lembrei ao ler Juremir Machado da Silva numa entrevista dizendo que gosta de ser maldito, mas com salário no fim do mês. Já deve ser triste pregar na igreja do Baudrillard. Mais triste ainda deve ser a contradição de pregar na igreja do Baudrillard tendo de praticar na de Aristóteles como todo cidadão pacatinho.
Isso já percebi em muita gente que se diz maldita. Saem por aí publicamente botando banca, mas no cantinho, dois a dois, você descobre que são professores exigentíssimos, que são casados há anos com fidelidade imaculada. Disso concluo que a prática da virtude, sendo um problema mais de temperamento do que de razão, não vai evaporar do sujeito simplesmente porque ele lê Foucault. Mas é certo que, numa época - como diz o Juremir Machado da Silva - "dionisíaca", a virtude vira uma qualidade clandestina, algo que você confessa a meia-voz como um vitoriano confessaria um gosto sexual aberrante: a virtude que não ousa dizer o nome.
Imagino agora Juremir Machado da Silva lendo isso aqui e perguntando com a voz fininha "Mas qual o problema em ser contraditório?". Diante de problemas de raciocínio evidentes, relativistas sempre te perguntam com a voz fininha "Mas qual o problema em (inserir aqui problema de raciocínio)?". Ora, se a contradição for só um momento, um pedaço do caminho pelo qual a criatura tem de passar até chegar a uma verdadeira resolução, o problema não é tão grande. Eu mesmo escrevo como um articulista de gravata borboleta da New Criterion mas talvez tenha uma vida bem mais dissoluta do que gosto de pregar. Só que isso, além de me filhar à charmosa velha escola de hipocrisia (que consistia em ser menos virtuoso do que se prega, ao contrário da escola de hipocrisia mais moderna, que ensina a mascarar o quanto de virtude se tem), me dá uma vantagem: ao menos tenho claro o que é bom e o que não é e, se vivo em contradição com essa diferença, espero que não passe de uma imperfeição momentânea, logo superada. Já encarar a contradição como coisa em si, como ideal de existência, é uma modalidade intelectualmente legitimada de fraqueza. Se a criatura pensa de um modo e vive de outro sem buscar saída para o impasse só pode ser ou porque não percebe a contradição, seja por falta de inteligência ou de honestidade consigo mesmo, ou porque receia que aquilo em que acredita não pegue bem para seu grupinho. Também existe a possibilidade La Rochefoucauld, a de que "não temos força o bastante para seguirmos nossa razão". Se a nossa razão diz, portanto, que o legal é trairmos nossas esposas ou enganarmos nossos sócios, talvez sejamos fracos o suficiente para sermos fiéis e bons amigos. Imperdoável.
Posted by Rodrigo de Lemos at 12:33 PM | Comments (11)
novembro 21, 2007
melhor de três
No fim da infância, gostava de Alberto Caeiro porque era o único dos três heterônimos famosos de Fernando Pessoa que eu entendia. Quando era adolescente, meu favorito era Álvaro de Campos porque ele agia como um. Depois, quando comecei a escrever poesia, passei a admirar o Fernando Pessoa de "Mensagem". Mas agora já acho que o heterônimo que me agrada mais profundamente é Ricardo Reis, o pagão resignado.
Lembro que era consenso entre meus professores de literatura no colégio - um consenso facilmente acordado, apesar dos graus variados de filistinismo dos sujeitos - que Ricardo Reis era o mais fraquinho dos heterônimos. Ainda na época li algumas odes e descobri que elas estavam bem acima do que os professores tinham julgado; difícil um adolescente que não seja compelido a cometer alguns excessos ao se ver definido como um "cadáver adiado que procria": já que a criatura é só um cadáver adiado mesmo, que pelo menos tenha o prazer de "procriar" (e preferencialmente sem as conseqüências esperadas). Quando comecei a ler no original alguma poesia lírica grega e latina, admirei ainda mais a qualidade dos poemas; os versos brancos realmente lembravam Safo e Propércio, mas com uma sonoridade muito própria, muito portuguesa (se em "As rosas amo dos jardins de Adônis" ele latiniza, "Sofro, Lídia, do medo do destino" é um belo exemplo dessa naturalidade). Mas atualmente acho que é a filosofia de Ricardo Reis que mais ecoa na minha sensibilidade. Tudo bem, tudo é um Mistério. Só que a tarde estão tão bonita para resolver ele que vale mais a pena a gente se vestir com umas cores pastel e sair por aí meio bêbados e ficar contemplando como o Mistério é gracinha.
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
Não que eu me orgulhe dessa indiferença. Talvez fosse divertido buscar a transcendência, Deus, o Nirvana - menos o Segredo que daí é sacanagem (e não me intriga, como Paulo Henriques Britto nesta entrevista para Pedro Sette Câmara, que outras pessoas busquem). O descrente lembra um pouco aquelas pessoas que passam a vida inteira pela na Rua da Praia sem reparar nos prédios antigos, uma sensibilidade amputada. Uma cegueira para o invisível, um limite para a imaginação. Mas assim como um amputado, mesmo fingindo ter duas pernas, vai ao chão se tentar andar sem muletas, seria uma tentativa ridícula eu sair por aí dizendo credo in unum Deum. Isso sim, uma ofensa ao Mistério. Mais respeitoso é o bordão de Ricardo Reis: "Circunda-te de rosas, ama, bebe/ E cala. O mais é nada". Calar eu não consigo, vejam por esse blog, mas espero com todo o coração que ao menos as rosas não sejam vermelhas, o amor seja correspondido e o vinho não seja nacional. Quando ao mais não ser nada, pode ser que sim, pode ser que não, mas já vou estar tão bêbado que não vai fazer a mínima diferença.
Posted by Rodrigo de Lemos at 02:04 PM | Comments (7)
novembro 13, 2007
cada época tem o brideshead revisited que merece
Vão filmar Brideshead Revisited com dois atores com cara de working-class e sem Aloysius, o ursinho de Sebastian Flyte. Vai ser um desastre, mas não me surpreende. Cada época tem o Brideshead Revisited que merece. A série da BBC com Jeremy Irons, que é de 1981, deu tão certo porque a década tinha um pouco do clima do livro. Digamos que a cultura popular dos early 80's ecoava como caricatura o tipo de elegância que o livro apresentava como ideal - aqueles grupos de tecnopop com inglesinhos cloróticos e efeminados, ostentando nomes pretensamente cool (Spandau Ballet, Soft Cell), sendo uma descendência espúria do Edwardiano de echarpe e calças de flanela. Já nesta década de hip-hop, de machismo suburbano com clipes de mulheres duvidosas se esfregando em negões com cara de asssaltante ao redor de piscinas (a pior cultura de imagem desde o grunge e a Alanis Morrissette, sem dúvida), só poderia ser impossível filmar como tal um livro sobre a amizade entre um pintor e um rapaz bonito que anda agarrado num ursinho.
Posted by Rodrigo de Lemos at 11:09 AM | Comments (4)
novembro 07, 2007
my own private camille paglia
Não tenho muita vergonha de admitir que gosto de música disco. Claro que existe algo de embaraçoso em imaginar Celebration tocando em festinha de fim de ano de empresa, aquela "animação" toda enquanto a trintona encalhada dá em cima do gerente de camisa pólo para dentro da calça jeans. Mas para mim há uma nuance que escapa a quem afeta desprezo por hits de Donna Summer et allii (vocês sabem, o povo tomate-seco-com-rúcula da música pop): o contraste entre as letras todas românticas das músicas e o clima bem menos romântico das discos. Grace Jones chorando por um homem em I Need A Man e as pessoas em volta agindo como se quisessem bem mais que um.
Mas o uso de disco em festa requer certos cuidados. Lembro que nos anos 90, quando as pessoas subitamente ficaram nostálgicas de ABBA e meias de lurex e ficaram meio gays também, se fazia uso indiscriminado de Hot Stuff e etc. Nada mais errado. "Disco music em início de festa non funziona", já dizia Ezra Pound. Fica parecendo noitada no Chip's ou em qualquer outro lugar temático em que pessoas desquitadas de 50 anos saem para arranjar novas incomodações. Nos anos 2000, ao menos no Ocidente, já descobriram que o ideal é depois das 4 da manhã, quando todo mundo está meio bêbado e já fez a digestão do tomate seco com rúcula.
Posted by Rodrigo de Lemos at 04:40 PM | Comments (3)