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setembro 30, 2007

lista de presentes

Uma mesma obrigação não nos atormenta do mesmo jeito em duas fases diferentes da vida. Acabo de fazer pela terceira vez 23 anos, e montar a lista de convidados foi tão trabalhoso quanto no meu aniversário de 16. Mas se no segundo grau o que me incomodava era saber quantos viriam, o problema agora era ter uma idéia precisa de exatamente quem. Uma questão de qualidade, não mais de quantidade: sabia que dezesseis pessoas iam aparecer, mas eram dezesseis pessoas muito diferentes entre si. Só haveria portanto uns três de cada grupo que freqüento; precisava calcular com sutileza quem chamar com quem. No segundo grau é fácil: as criaturas do colégio, as do clube. Mais tarde nós começamos a freqüentar gente tão diferente entre si que uma lista de convidados dá tanto trabalho quanto um menu de jantar na embaixada. E então se só uma das meninas arty de bom gosto aparecesse, com quem ela ia falar mal da Bienal? Certamente não com o hipster de clubinho que, como toda pessoa frívola quando deparada com alguma coisa pretensamente séria, devia olhar para aquelas instalações com o respeito de índios por trabucos. E literatos? Com quem misturar literatos senão entre eles mesmos?

No fim, o problema qualitativo foi resolvido pelo de quantidade: não só todas pessoas de todos os grupos estavam presentes, como também gente que nem convidei. No todo consegui juntar ao redor de uma tábua de frios alguns elementos decorativos fundamentais para uma festa divertida:

- ao menos 01 (uma) garota excessivamente bonita;

- um casal gay (de preferência inter-racial);

- um casal heterossexual com alguma profissão bem suburbana - tipo, ele representante comercial, ela professora primária. Geralmente o casal heterossexual com alguma profissão bem suburbana vai embora cedo e vira motivo de riso pela cara dele ao ver o casal gay se acariciando ou pela dela ao perceber o marido admirando a garota excessivamente bonita;

- 02 (dois) jovenzinhos de pretensões literárias, um espirituoso mas sem talento, outro talentoso mas chato. O ideal seria uma arena para ficar apreciando os dois invejarem um no outro os dotes que não têm;

- outra garota excessivamente bonita, mas estranha;

- total ausência de um violão;

- um blogueiro fofoqueiro para contar tudo depois sob o nome de observação psicológica - no caso, eu mesmo - e a certeza de que nenhum deles vai ler este blog depois.

Queria também agradecer espiritualmente pelos presentes que me deram os amigos que conhecem meu gosto e aos que não conhecem pelos presentes que esqueceram. Deviam entender que não sou tão difícil de presentear assim; é só me dar uma coisa velha, que nem numa Campanha do Agasalho. "Les objets neufs font peur avec leur hardiesse criarde", como dizia Mallarmé. Este ano ganhei: um bule antigo de porcelana; uma caneca inglesa para chá; fumo para cachimbo; um reloginho alemão do início do século (parado, evidentemente); um vinil da Grace Jones; uma camisa de marinheiro - essa bem novinha, mas com um ar de San Remo-1959. E que todo o ano seja assim, os antiquários de Porto Alegre se desembuchando das bugigangas todo ano no fim de setembro.

Ganhei também muito chá. Os brasileiros ainda estão se acostumando com a cultura do vinho, mas a do chá ainda é totalmente estrangeira por aqui. Percebi isso pela quantidade de chás exóticos que recebi: chá descafeinado do Burundi misturado com caramelo; chá com rosas, chá com jasmim; chá defumado da China, chá frisante do Ceilão. Quando na verdade os únicos chás realmente chás são o preto ou o verde (oolong e branco são variações). Mas presentear com chá preto ou chá verde ainda parece deselegante para brasileiro; tem que ter "algo a mais", alguma mistura. Podem acreditar, dar um saco de puro Darjeeling Castleton Segunda Colheita não é a mesma coisa que dar uma caixa de Chá Prenda Minha, verdade mesmo...

Só que tantos bons presentes não aplacaram minhas desconfianças. Todos chegaram com no mínimo uma hora de atraso. Uns disseram que foi por causa do trabalho; outros que tinham ido ao teatro. Não sei, mas a festa tendo sido sexta, acho que se atrasaram para descobrir quem matou a Taís.

Posted by Rodrigo de Lemos at setembro 30, 2007 05:59 PM

Comments

E, por fim, quem matou a Taís?

Posted by: Badá at outubro 1, 2007 10:40 AM

A total ausência de um violão é uma coisa muito boa, né?

Posted by: Ed at outubro 2, 2007 09:02 AM

faltou a traveca.

Posted by: k at outubro 7, 2007 09:51 PM

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