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agosto 23, 2007

é hora de escrever meu testamento

Não tenho opinião sobre Caetano Veloso. Nem quando ele usou saia. Nem quando ele disse que Osama Bin Laden era bonito. Mas não ter opinião sobre Caetano Veloso por si só já é uma ofensa ao Caetano Veloso. Caetano Veloso me parece aquele tipo de bicha que pensa que todos ou o amam ou o odeiam, que é impossível ser-lhe indiferente. Tinha um amigo assim, e claro que estava cheio de gente que não estava nem aí para ele. Comigo é a mesma coisa: a importância de Caetano Veloso na minha vida é a mesma da cômoda da minha avó, com a diferença que Caetano Veloso range mais ao cantar. Ou a do Piauí, para usar a metáfora de irrelevância do momento.

Já a caetanice, a abstração das propriedades do objeto Caetano Veloso e a sua transfiguração em Espírito do Tempo, isso sim é um ideal negativo para a vida. Nem disso posso dizer que é culpa do Caetano Veloso lui-même. Todo homem tem o direito sagrado - e amplamente desfrutado - de ser idiota como bem decidir; já se o resto do Brasil resolveu imitar... Mas o fato é que meu respeito por alguém aumenta à medida que a pessoa num continuum se afasta do extremo Caetano Veloso de existência. No plano individual, essas propriedades se manifestam em: homens usando sandálias e tiaras, ambigüidade sexual induzida, excesso de palavras para pouco significado, violão e a atitude "tudo é divino maravilhoso"; no plano coletivo, auto-indulgência cultural. Claro que as duas manifestações de caetanice estão relacionadas, mas é a caetanice coletiva que mais me causa chair de poule. Quer dizer que brasileiros são pobres, sujos, salafrários, estúpidos, incompetentes e tudo isso não passa de peculiaridades nacionais? E eu pensando que os alemães é que tinham dado certo.

(Bom, talvez até sejam. Mas, escuta, nós não devemos reforçar as particularidades nacionais. Toda vez que tentamos reforçar as particularidades nacionais acabamos escrevendo "Macunaíma", nos vestindo que nem a Regina Duarte, causando desastres de avião. Brasileiro bom é brasileiro entreguista.)

Digo isso porque sou alguém que teve a vida arruinada pelo Caetano Veloso. Eu vi os homens da minha geração serem eivados pela caetanice. Tinha o Marcos, meu único conhecido que admirava tanto "Os Nibelungos" de Fritz Lang quanto eu, que teve uma revelação ouvindo "Transa" e reapareceu usando umas calças de cânhamo. Tinha o Roberto Simões, que tocava o melhor deep house em Porto Alegre nos anos 90, mas que depois começou a mixar vocais de "Odara" entre as músicas e hoje em dia toca som lounge em raves neohippies. Tantos amigos afastados, tantos entes perdidos...

Os outros sobrevivem à caetanice geral como podem. Mas, acreditem, quando a próxima geração florescer, ela será anti-caetânica como a piada mais cretina de Evelyn Waugh. Os anti-caetânicos de hoje, que ainda estão mais ou menos em clandestinidade cultural, já são mais cretinos, entreguistas e traidores da brasilidade do que os de ontem. Vejam como Paulo Francis e Bruno Tolentino (só para citar dois dos que aparecem mais nos blogs da Resistência Anti-Caetano) soavam às vezes sentimentais, orgulhosos da cultura brasileira. Mas os dois eram mais ou menos jovens nos anos 50, época em que o Brasil pareceu que ia ser alguma coisa. Eu, que me criei nos anos 90, o que eu podia esperar? Revelação estética em "Carlota Joaquina", num disco da Nação Zumbi? Por isso espero mais da geração vindoura de jovens entreguistas: "I choose young upstanding men that climb the streams until the fountain leap..." São eles que vão nos ajudar a transformar o Brasil num estacionamento. Já ouço os ventos da revolução nas porcarias nacionais que eles ouvem atualmente: na minha adolescência era mistura de rock com música regionalista; agora é Cansei de Ser Sexy, banda que tem uma japonesa nos vocais, toca elctro-thrash e canta em (mau) inglês. "I choose young upstanding men that climb the streams until the fountain leap..."

Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 23, 2007 01:56 PM

Comments

Tudo certo como dois e dois NÃO são cinco.
A coxice intelectual do Brasil se explica com Caetano, Jô Soares e Turma da Mônica.
Abraços,
(E ah, estou terminando de preparar meu pretensioso livro de poesia, que se chamará "um fevereiro". Distribuido de graça, na Internet. Só pensei que te interessaria saber).

Posted by: igor at agosto 23, 2007 04:08 PM

salve! avise quando estiver pronto.

Posted by: rodrigo de lemos at agosto 23, 2007 08:43 PM

Ei, Igor, Turma da Mônica não é ruim. Depois eu procuro algumas histórias geniais da Turma da Mônica, agora tô com sono.

E, ah, ainda pior que Caetano é o Gil (sempre digo isso quando falam mal do Caetano, já deve ter dito por aqui), que fez uma música cuja letra é "Batmakumbayeye Batmakumbaobá" e vai reduzindo as sílabas e aumentando, até formar um coisa mais idiota do que meu cérebro cansado é capaz de descrever.

Posted by: Gustavo at agosto 24, 2007 01:14 AM

Avisarei.
Gustavo, gosto de várias histórias da Turma da Mônica. Mas há uma estrutura de trouxice na coisa toda. Imagino se eu tivesse crescido só com a Turma da Mônica, sem Pato Donald e Recruta Zero. Não permitirei isso ao meu filho, está claro. Educação de qualidade é tudo.
Abraços,

Posted by: Igor at agosto 24, 2007 09:01 AM

Ótimo, Rodrigo.

Eu também sofri com Caetano. Já precisei fazer trabalhos sobre a tropocália, etc. Bah.

Mas você viu a capa da Rolling Stone deste mês? Quem tem coragem de andar com aquilo na rua?

Posted by: Ed at agosto 24, 2007 11:21 AM

Bom, Recruta Zero até vai, mas Pato Donald. Aquilo sim tinha uma estrutura trouxa...eca.

Quanto a capa do Caetano na Roling Stone, só perde pra de um long play(alguém sabe sainda o que é isso?) que ganhei, no qual a Maria Bethania está de perfil na capa. Tem que ter coragem pra certas coisas e estômago.

Coisas do povo "tropicaliente" da Bahia...

Posted by: Bebel at agosto 24, 2007 11:41 AM

"Tinha o Marcos, meu único conhecido que admirava tanto "Os Nibelungos" de Fritz Lang quanto eu, que teve uma revelação ouvindo "Transa" e reapareceu usando umas calças de cânhamo"

Ai Jesus, você não faz idéia do tanto que eu ri disso. Vc deve ter uma vida muito interessante, Rodrigo.

Posted by: evelyn at agosto 24, 2007 02:06 PM

Libera logo esses poemas aí, Igor!

Posted by: Pedro Sette Câmara at agosto 24, 2007 02:39 PM

O quê? Eu cito Yeats todo errado e ninguém me corrige?

Posted by: rodrigo de lemos at agosto 24, 2007 04:08 PM

Sei lá, Rodrigo, seria deselegante da nossa parte.

Posted by: tiago a. at agosto 24, 2007 10:59 PM

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