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agosto 16, 2007
o filistinismo com boa consciência
"O gosto se faz de mil desgostos.
Em tudo o que é inútil, deve-se ser divino. Ou não se envolver.
A música me entedia ao fim de pouco tempo, e tão mais curto quanto mais intenso foi o efeito que teve sobre mim. É que ela atrapalha o que acabou de engendrar, pensamentos, clarões, tipos e premissas.
Rara é a música que não deixa de ser o que foi; que não deteriora ou atropela ou que criou, mas que nutre o que acabou de pôr no mundo, em mim.
Disso concluí que o verdadeiro connaisseur dessa arte é necessariamente aquele a quem ela nada sugere." (Paul Valéry)
Partilhar um defeito com um homem superior pode não ser uma alegria, mas já serve como consolo: se você não sabe como é ter o seu gênio, está íntimo aos menos das suas deficiências. Digo isso porque, como para Paul Valéry, o prazer da música sempre me pareceu um tanto escorregadio. Foram poucas as vezes em que consegui apreciar todos os movimentos de uma peça estando plenamente consciente, sem algum torpor espontâneo ou induzido. A mais intensa, não faz muitos anos, foi pela manhã bem cedo; conversava com um amigo ouvindo um concerto para violino e piano de Mozart depois de uma festa e, no vértice do sono, quando o pensamento relaxa e as conexões entre as idéias se afrouxam, tive uma sensação súbita de que o ambiente tinha se dissolvido no concerto e os sons cresceram desmedidamente na minha cabeça. Cresceram porque encontraram ela vazia, claro. Já compararam a música com uma torrente, e me parece que para ela correr sem obstáculos é preciso que outra torrente cesse: o pensamento. Outras artes criam uma relação mais equilibrada com ele. A pintura, por estar fora do tempo, permite que eu passe no ritmo que quiser do sensorial à signifcação; a literatura, além de deixar livres idas e vindas no texto, sendo uma arte da palavra é também uma arte essencialmente do pensar. Já música e pensamento são duas sucessões e, correndo ao mesmo tempo, uma tende a se chocar com a outra: ou eu silencio a mente para escutar os ouvidos, ou não ouço bem nem um nem outro. Essa me parece a dificuldade que tipos muito literatos como Valéry têm com a música (Evelyn Waugh também não conseguia apreciar por muito tempo), a dificuldade de calar as palavras para deixar ecoarem os sons. Não que isso faça dela uma arte burra, mas é preciso mais racionalidade para criar uma sonata do que para ouvir uma sonata. Literatura já não é assim - menos a moderna, que se assemelha à música mas no sentido contrário: é preciso menos racionalidade por parte do escritor, que não faz mais do que lançar fragmentos de idéias, do que do leitor, obrigado a depois ficar colando os caquinhos.
Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 16, 2007 12:47 PM
Comments
Isso não é ser filisteu. Talvez ficar analisando métrica e matematicamente a música seja.
Ou pior, pensar na morte da bezerra enquanto a ouve, e ser incapaz de distinguir É o Tchan de Vivaldi porque está "ocupado". Isso sim é ser inepto.
Eu não sei apreciar jóias porque quero ver todas, acho todas lindas e usá-las todas ao mesmo tempo. Isso é filistinismo.
Posted by: Badá at agosto 16, 2007 04:55 PM
Eu às vezes desligo o rádio do carro porque está me atrapalhando a pensar, confesso. E não é porque a música seja ruim nem porque o pensamento seja grande coisa. É doença mesmo. Aliás, belo post
Posted by: F. Arranhaponte at agosto 16, 2007 05:50 PM
Sim, de fato belo post!
Acredito que o concentrar-se numa música talvez seja menos "natural" que numa boa leitura, ou seja, aquela requer certo "esforço", mais do que esta, até que se conclua.
Bom, se é assim, não me importo de fazê-lo, por exemplo, ao ouvir a nona sinfonia de Beethoven até os últimos acordes..:-)
Posted by: Carla Cristina at agosto 17, 2007 09:09 PM
Carpeaux explica isso quando diz que música é a única arte que não tem nada a ver como mimesis ;~
Posted by: Ronald at agosto 18, 2007 11:33 AM
*com
Posted by: Ronald at agosto 18, 2007 11:35 AM