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agosto 11, 2007
o modernismo, esse malvadão
Toda a palestra de Peter Greenway em Porto Alegre foi sobre como o cinema deveria se concentrar nas imagens e deixar a narrativa para os romancistas. Mas aí lembrei de uma entrevista com um daqueles senhores divertidos do Nouveau Roman (Claude Simon, eu acho) na qual ele falava que o romancista devia se concentrar mais na descrição do que em contar histórias. Quem deveria então, para esse povo modernista/avant-garde, se dedicar à narração? Não poderiam ser os pintores; tenho sérias dúvidas quanto à possibilidade de se contar uma história atirando tinta na tela com o pinto ou desenhando quadradinhos milimetricamente irrelevantes e perfeitos. O teatro, talvez; mas minhas dúvidas aumentaram ainda mais lembrando que teatro é rito, o que quer dizer uma horda de bichas semi-nuas atirando carne crua e leite materno no público. A poesia, mais difícil ainda; há modernistas que chegam a ter dela só uma definição negativa: exatamente o que não é narrativa. A impressão que tenho é que, como só se conta uma história através de um meio (não existe narração no abstrato, sem a palavra escrita ou a imagem ou a encenação), e como cada arte segundo o modernismo devia se comprometer mais com o próprio meio do que com qualquer outro aspecto da obra, a presença de uma história não apenas é secundária como nociva para a criação do efeito estético mais elevado. Bobagem, claro. Levar as artes a esse nível de especialização (a pintura só deve investigar os meios da representação em duas dimensões; a poesia, os da "palavra" no sentido mais bobalhão da palavra), além de criar uma tirania intelectual totalmente arbitrária, não deixa lugar para a narração. Como os modernistas esperam (ou esperavam) que se conte uma história se eles mesmos consideram todos os meios materiais disponíveis (palavra, imagem, encenação) muito acima da tarefa mesquinha de trazer à vida Fausto ou Tristão e Isolda ou Hamlet? Por transmissão telepática de cadeias de ações? Uma platéia conectada por sondas mentais aos atores enquanto eles transmitem o Édipo Rei por simples atividade psíquica?
Mas a verdade é que tudo com o que esses artistas não se importam é a narração. E isso por - mau - elitismo estético, a idéia de que não ser compreendido coloca o sujeito automaticamente na galeria dos gênios, mesmo que na maior parte dos casos seja mais provável que numa turminha da APAE. A narrativa então é tudo o que se deve proscrir para ser devidamente incompreensível. Porque um bom enredo tende a tornar uma obra acessível. Ouvir histórias é o primeiro prazer artístico que a maioria das pessoas experimenta na vida, e em muitos casos o único. Qualquer integrante do U2 gosta de, e às vezes chega mesmo a entender, um conto dos Andersen. Mesmo o primitivo mais burro, burro de meter o dedo no ventilador para ver se corta, de usar clarinete como zarabatana, senta ao redor do fogo para escutar o velho da tribo contando as aventuras de um herói numa batalha mítica. Eu mesmo já testemunhei como uma boa história aproxima de obras sofisticadas o público mais desinteressado por arte. Assisti com um amigo highbrow, outro middlebrow, à Medéia do Costa-Gravas (errata: do Pasolini), com Maria Callas. Enquanto meu amigo highbrow ficou encantado com a beleza das paisagens e com a retórica da peça e aqueles detalhes que só a pretensão fazem perceber, o outro, o middlebrow, se deixou prender - e até mais do que qualquer um de nós - pelo lado Janete Clair de Eurípides.
Claro que admitir verdades simples assim não leva a qualquer tipo de populismo: a opinião do meu amigo highbrow, que conhece pintura e sabe grego e lê uns livros grossos e vive para isso, deve contar mesmo mais do que o outro que embarcou na alta cultura pulando a roleta (a não ser que o middlebrow seja naturalmente mais sensível à beleza, o que não é o caso). Mas o que me chama a atenção é que, de Sófocles a Balzac, se a beleza de um verso ou a profundidade de uma análise psicológica falavam a uma pequena elite capaz de perceber grandeza artística, uma boa história sabia atrair o povão, que às vezes podia mesmo levar para casa de brinde uma lembrancinha do Sublime. Com o modernismo, parece que as sensibilidades se dividem mais radicalmente: há a arte de massa - no geral somente uma história bem montada, sem beleza de estilo ou psicologia elaborada - e uma arte para especialistas, nas maioria das vezes somente com cenas bonitas e psicologias sutis, mas fraca de história. O resultado são de um lado os filmes de Peter Greenway, que só não são soníferos coletivos porque as salas estão quase sempre vazias, e de outro Homem Aranha e Missão Impossível, que eu prefiro porque são de alguma forma prazerosos, mas daquele tipo de prazer que se consegue também com uma hora de academia ou uma boa mordida de cheesecake. E tanto é assim que todas as tentativas de reunir os dois tipos de filme num só quase sempre deram com os burros n'água. Pensem em Matrix.
Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 11, 2007 02:42 PM
Comments
E inventar uma boa história não é muito fácil não, ou pelo menos não para mim. Até pouco tempo atrás eu contava histórias inventadas para as minhas filhas, sem nenhuma elaboração prévia, e sempre notava que os personagens eram muito melhores do que o enredo
Posted by: F. Arranhaponte at agosto 11, 2007 02:57 PM
O único filme de Peter Greenaway que eu já vi foi "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante", que tinha até umas coisas legais (mudava a cor das roupas dos personagens de acordo com o cenário), mas não era nada de que eu fosse me lembrar depois. (Ele nem usava closes. Além de desprezar o enredo, ele desprezava os personagens?)
Era o tipo de filme que você não acha exatamente ruim, mas depois de um tempo assistindo você fica com aquela dor de cabeça fraca e constante típica do tédio.
Posted by: frost at agosto 11, 2007 04:10 PM
"os filmes de Peter Greenway, que só não são soníferos coletivos porque as salas estão quase sempre vazias"
haha
e eu leio posts inteligentes querendo colher apenas as piadas. isso deve fazer de mim um low-brow.
Posted by: ludovico at agosto 11, 2007 09:06 PM
Já repararam que os amigos d'A Torre de Marfim não põem ponto final na maioria das coisas que escrevem? Nem em posts, nem em comentários (confiram esse de Arranhaponte aí de cima e dêem uma olhada no blog: no momento em que escrevo, cerca de 79% dos posts da página principal estão desprovidos de ponto final).
Seriam maçons? Seriam ninjas?
Juro que não sei por que sempre reparo nessas coisas. Oi, Rodrigo.
Posted by: tiago a. at agosto 11, 2007 11:14 PM
Já repararam que os amigos d'A Torre de Marfim não põem ponto final na maioria das coisas que escrevem? Nem em posts, nem em comentários - confiram esse de Arranhaponte aí de cima e dêem uma olhada no blog: no momento em que escrevo, cerca de 79% dos posts da página principal estão desprovidos de ponto final.
Seriam maçons? Seriam ninjas?
Juro que não sei por que reparo nessas coisas. Oi, Rodrigo*
*Sem ponto final, em homenagem
Posted by: tiago a. at agosto 11, 2007 11:17 PM
Já que você citou Matrix, é incrível como os fãs (fãzões) de Matrix são chatos, não? Toda aquela história de cyberpunk...
Posted by: Gustavo at agosto 11, 2007 11:24 PM
Ei, Rodrigo
Adorável texto! De fato uma boa narrativa prende a todos independente do que se seja.
Vivam as boas narrativas, dane-se o resto! :-)
Posted by: Carla Cristina at agosto 12, 2007 11:36 AM
Greenaway é o chato dos chatos. Na verdade eu acho que é meu medidor favorito de chatice alheia. Se eu perguntar pro sujeito se ele gostou de "O livro de cabeceira'ou o 'bebê santo de Macon (hahaha adoro esse título) e ele disse que sim, não tem erro, o cara é um pulha.
(confesso que eu gosto do Michael Nyman que escreveu musicas para os filmes de Greenaway, mas aí é outra coisa :)
Posted by: evelyn at agosto 12, 2007 01:08 PM
"(...)a idéia de que não ser compreendido coloca o sujeito automaticamente na galeria dos gênios(...). O Calvin, aquele gurizinho criado pelo Bill Watterson, já sabia disso, né?
Muito bom o texto.
Posted by: Edson Junior at agosto 13, 2007 08:59 AM
A palavra que define Matrix é..."pretensão". Um outro filme -- ainda na mesma seara de ficção científica -- que é muito melhor é o Minority Report. Mas, heresia das heresias!, foi dirigido por Steven Spielberg. E, mais uma heresia!, estrelado por Tom Cruise. Não sei exatamente se o mérito do filme foi ter sido baseado numa obra do Philip K. Dick ou a competência do Spielberg é que deu a diferença. Sei lá. Mas sei, contudo, que não despertou um décimo da babação que Matrix e nenhum aluninho da USP escreveu um tratado de semiótica a respeito. E isso tudo porque ele é... compreensível!
Posted by: Gabriel Trigueiro at agosto 14, 2007 09:46 AM