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agosto 31, 2007

o boulevard do crime

O filme com mais personagens interessantes por enquadramento da História deve ser Les Enfants du paradis, de Marcel Carné (no Brasil, O Boulevard do crime). Está passando no Santander Cultural; quem estiver em Porto Alegre, por favor vá assistir. Claro, reserve uma noite: o filme tem três horas. E Trabalho de Sopro dá os ares; um dos personagens diz: "Je me bats demain à l'aube" (Tenho um duelo amanhã ao amanhecer), devidamente traduzido por "Tenho um duelo amanhã com um lobo". Aliás, se é sempre um pouco torturante comparar o que está nas legendas com o que os personagens dizem no original, mais ainda aqui: o roteiro é de Jacques Prévert. As falas são cheias de nuances e toques de wit que a legenda corta a facão. Mas vale pelos personagens: o ator ambicioso que quer fazer Paris, o mímico romântico - e um pouco chato, é verdade -, a ex-prostituta tornada grande dame, o conde espirituoso que fala mal de Shakespeare o tempo todo, o bandido artista, na linha do excelente Vautrin do Balzac. A época em que a história se passa deve ser um dos motivos para tantos personagens de que eu gostaria de ter réplicas junto com a minha coleção de Smurfs; Paris dos 1830 devia ser realmente uma estufa de excêntricos.

A primeira coisa que pensei da primeira vez em que assisti a Les Enfants du paradis, e que penso sempre que assisto, é: o que aconteceu com a cultura francesa depois dos anos 40? Porque sou mais ou menos francófilo até a Segunda Guerra. Podem dizer o que for sobre a superioridade da cultura anglófona sobre a francesa no século XX, mas no século XIX quem criou os melhores romances e a melhor poesia e a melhor pintura foram os franceses. A Inglaterra pode ter tido Jane Austen e Dickens e Thackeray, mas a França teve Balzac, Stendhal, Flaubert, Zola, Huysmans, Barbey d'Aurevilly. Só Balzac já chegava. Em poesia os americanos tiveram Poe e Emily Dickinson; os ingleses, Keats. Mas os franceses tiveram o maior lírico do século, Baudelaire, e ainda Hugo e Gautier e Verlaine, isso sem contar Corbière e Laforgue. Em pintura, então; comparar chega a ser covardia. Mas depois da Segunda Guerra a decadência veio e veio rápido. Otto Maria Carpeaux tinha detectado esse esmorecimento da cultura já em 1946, num pequeno artigo para a Revista Província de São Pedro. Que francês escreveu poesia melhor que Eliot e Wallace Stevens? E no romance? Proust ocupa para mim no romance o lugar que Baudelaire ocupa na poesia, mas Proust é um fato isolado, e pertence tanto ao século XIX quanto ao XX. Depois de Proust, que escritor de talento teve a França no século XX? O vesgueta? O homem revoltado? O fato é que a França não teve no século XX nenhum Somerset Maughan, nenhum Evelyn Waugh.

É difícil entender direito o que aconteceu. Foi orgulho ferido pela derrota na Segunda Guerra? Foi o resultado de alguma tendência auto-destrutiva da própria cultura? Talvez, e muito provavelmente. Uma espécie de vírus resmungão que começou a tomar conta da França no século XVIII, encontrou alguma resistência no século XIX, mas depois da década de 30 destruiu as últimas barreiras e infectou o corpo inteiro; daí o existencialismo e o nouveau roman. O fato é que o traço cultural mais típico da França tradicional, a joie de vivre , que é a alegria com coisas puramente sensórias e efêmeras e irresponsavelmente prazerosas como um bom camembert ou uma bela aliteração, essa joie de vivre foi sendo preterida por tarefas mais urgentes como libertar o Homem dos grilhões da Sociedade ou reinventar a arte a partir de alguma teoria genial. Voltando a Les Enfants du paradis para acabar o post como comecei e agradar a professora de redação, esse e alguns outros filmes do Marcel Carné são a lembrança feliz de um tempo em que os franceses sonhavam com a Lua em vez de um Outro Mundo Possível.

Posted by Rodrigo de Lemos at agosto 31, 2007 12:30 PM

Comments

Do baixo da minha ignorância, uma teoria para a decadência francesa. Não teria sido influência alemã, a metafísica pesadona e niilista do Heidegger infectando o Sartre e adjacências, a escola de Frankfurt disseminando-se como uma uma praga da Bíblia na calada da noite intelectual? Aliás, a escola de Frankfurt é o antípoda do joie de vivre, seria algo mais para vie de merde

Não vou elogiar o post para não ser repetitivo

Posted by: F. Arranhaponte at agosto 31, 2007 01:25 PM

da joie de vivre, s'il te plaît

Posted by: F. Arranhaponte at agosto 31, 2007 01:28 PM

Uma espécie de vírus resmungão que começou a tomar conta da França no século XVIII, encontrou alguma resistência no século XIX, mas depois da década de 30 destruiu as últimas barreiras e infectou o corpo inteiro; daí o existencialismo e o nouveau roman.

Et le Structuralisme, Rodrigus? T'as oublié de parler du Structuralisme. ;)

Posted by: tiago a. at setembro 1, 2007 09:58 AM

Diga-se de passagem que era ainda época de bons cineastas franceses como Rene Clair, Renoir, Robert Bresson, além de Carné (do qual sou louca para assistir "As portas da noite"), que sabiam reproduzir a elegância da volátil atmosfera burguesa e suas dramáticas intrigas amorosas.

O meu favorito é "As Damas do bois de Boulogne". Filme elegante, roteiro primoroso, cheio de escandalos amorosos (foi baseado no Jacques o fatalista de Diderot). Pelo visto Godart é a representação no cinema da decadência da cultura francesa :)

Posted by: evelyn at setembro 3, 2007 03:00 PM

Em "O Demônio da Teoria", Compagnon lembra que até meados do século XX praticamente não havia teoria literária na França. Até 1971, por exemplo, ainda não havia sequer uma tradução de "Teoria Literária" do Welleck, enquanto na Inglaterra e nos EUA já definhavam os novos críticos, na Rússia já saía de moda o formalismo e a Alemanha já ia pela terceira reviravolta crítica, com a teoria da recepção. Na França, apenas o Valéry. Acho que, aparentemente, os franceses passaram a primeira metade do século XX terminando de ler "Em Busca do Tempo Perdido" e, quando terminaram, de tão civilizados, resolveram voltar-se para atividades mais bárbaras - manifestações na rua, barricadas, o grupo Tel Quel.

Posted by: ludovico at setembro 3, 2007 07:45 PM

Falou de Enfants du Paradis, falou minha língua. Já vi provavelmente mais de dez vezes e li o roteiro pelo menos umas três. Te invejo por poder vê-lo no cinema - sei lá quando ele volta pra SP.

Informação útil: muitos personagens (Frederick Lemaître e seu ótimo Robert Macaire, Lacenaire e seu capanga Avril, Baptiste Debureau...) existiram de verdade - uma das razões para Prévert ter escrito o roteiro foi poder trabalhar com aquelas personalidades fascinantes e reuni-las naquele filme mais-que-magnífico.
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Pra você que gosta do witticism francês pré-segunda guerra, já tentou Sacha Guitry? Sugiro "Les Perles de la Couronne" (um passeio pela história da França e da Inglaterra desde Francisco I e Henrique VIII), com o delicioso diálogo em que Sacha permite à sua esposa "apenas os advérbios" ao tratar com seu sedutor - sem falar na Arletty pintada de preto representando uma rainha africana!; e "Faisons un rêve", um filme composto de witticisms. Tem pra baixar no eMule, mas legenda num achei não.

Tá dado o recado. Parabéns pelo post etc.

Posted by: Linha at setembro 14, 2007 08:41 PM

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