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julho 30, 2007
mad professor
"[Sobre a poesia brasileira no início dos anos 30] Era essa época de uma maciça importação francesa. Aquela poesia caudalosa, idealista, literária que se fazia na França e se importava por todos os lados nos países latinos - na Espanha não, que espanhol não compra produto francês - mas que vinha parar aqui: Portugal, Brasil. Isso não é um dos aspectos mais simpáticos da influência francesa no Brasil. Na época esse tipo de coisa que Claudel, Péguy, o próprio Saint-John-Perse e outras pessoas faziam muito bem chegava aqui de uma maneira meio aguada. O que Vinícius de Moraes está fazendo aí [num dos poemas lidos] é muito parecido com o que o Augusto Frederico Schmidt também fazia - Canto do Brasileiro, Canto da Noite, O Pássaro Cego - um negócio que nunca mais acabava, esses versetos bíblicos, etc. Francamente aquilo era sufocante. De resto, quando acertava em cheio com um verso ou outro, imediatamente começava a esvaziar no segundo verso."
"Dona Cecília [Miereles], que era uma deusa olímpica, era uma pessoa que tinha uma comunicação extraordinária, como os cariocas têm. Ela falava com gente no elevador, onde fosse. Nunca começava uma conversa, claro. Olhavam para ela, aquela Minerva entrando no elevador. Aí ela sorria; e a pessoa dizia 'Boa tarde.' 'Boa tarde, como vai a senhora, tudo bem?' E a pessoa: 'Ah, a estátutua fala...'"
"[Os paulistas] perderam a Revolução Constitucionalista e resolveram fundar a USP com a expressa intenção de colonizar o país culturalmente. Não podiam mandar no país; então 'vamos acabar com a cabeça de todo mundo, vamos lavar a cabeça de todo mundo, de maneira que ninguém consiga escrever coisa nenhuma e tenha de nos ler'. Esse plano hegemônico paulista passou a ser um plano meramente intelectual; eles iam agora ler o Brasil e explicar o Brasil para nós. Não estou desfazendo da importância de São Paulo. É quem sabe fazer dinheiro; costuraram o Brasil. Tem uma função de umbigo, onde tudo converge. Mas umbigo está ligado a tripa e tripa está ligado à merda."
(Trechos da divertidíssima palestra sobre Vinícius de Moraes que Bruno Tolentino proferiu em 2003 na Ufrj e que Pedro Sette Câmara mui gentilmente enviou por email.)
*
Até ano passado, minha relação com a poesia do Bruno Tolentino era de indiferença desinteressada. Tinha lido há muito tempo uma entrevista com ele - não, não a da Veja - e fiquei com a impressão de que ele sofria de classicolatria, aquela doença do gosto que acomete autores muito cultos de citar como influência todos os clássicos da literatura universal em ordem alfabética. De alguma forma não me convencia. É impossível ser influenciado ao mesmo tempo e na mesma intensidade por Dante e Auden, Baudelaire e Homero: o verdadeiro gosto é idiossincrático demais para se satisfazer da mesma forma com todos os nomes numa lista de autores importantes. Fora as vezes em que o gosto nos faz preferir um poeta secundário a outro de primeira linha. O que nos faz amar tanto um poeta a ponto de escrever como aquele poeta é mais a importância que ele tem para nós individualmente do que a relevância dele para a cultura em geral.
Também o pouco que conhecia da poesia do Bruno Tolentino me deixava frio. Era obviamente bem feita, mas todos os poemas que li misturavam dois elementos que, se sozinhos podem ser agradáveis, juntos me afastam instintivamente: obscuridade na expressão e conteúdo metafísico. De John Donne a Fernando Pessoa, toda a grande poesia metafísica usa metáforas claras e concretas para demonstrar relações intelectuais, de maneira que os pensamentos mais abstratos se tornam perceptíveis pelos sentidos, quase tangíveis. Por azar, os poucos poemas do Bruno Tolentino que me tinham caído nas mãos eram jogos com palavras abstratas - "loucura", "morte", "palavra" -, apresentavam poucas das características que realmente me agradam na poesia desse tipo.
"Fica a alma curvada
sobre o esfarelamento
das palavras. Algumas
lhe hão de ser devolvidas
ao final. Quanto ao pão
que seria o alimento
e ficou sendo a fome,
mal fora dado ao homem
vertiginoso instante."
Cada metáfora dessas é belíssima em si, mas para mim é um mistério a relação entre o pão e a alma "curvada sobre o esfarelamento das palavras." Pode haver aí um caso de simbologia religiosa, ou quem sabe de simbologia privada do autor, à Mallarmé. Em todo caso, o significado dessa passagem é turvo como não acho que o significado em poesia deva ser.
Até que uma vez, numa livraria, abri "A Balada do Cárcere" (de onde veio o poema acima) exatamente na parte que descreve a prisão de Dartmoor:
"Seis formidáveis frontões
de uma era já distante:
cinco andares, seis portões,
o nada mais adiante
e a angústia de gerações
como inquilina constante."
E, pronto, ali havia poesia de primeira grandeza. Comprei o livro na hora. A maneira com que Bruno Tolentino nessa estrofe consegue passar uma idéia estritamente física da prisão - os "seis formidáveis frontões", os "cinco andares, seis portões" -, ao mesmo tempo em que descreve a atmosfera psicológica do lugar ("a angústia das gerações", "o nada mais adiante") faz o que eu espero de qualquer coisa que mereça o nome de "grande poesia": apresentar para o leitor um objeto, uma idéia, uma sensação de forma que ele consiga apreender esse objeto, essa idéia, essa sensação como algo imediatamente presente. Isso não quer dizer poesia fácil, claro; dificilmente alguém lendo essa estrofe pode pensar no tatibitate que às vezes aflora nas antologias do Manuel Bandeira ou do Ferreira Gullar. O fato é que, com toda a complexidade de linguagem do Bruno Tolentino, essa descrição imprime na sensibilidade do leitor uma sensação vívida. Lendo o restante do poema consegui imaginar perfeitamente o clima lúgubre, austero da prisão, os homens que vagavam por lá, a decrepitude do Numeropata (o personagem principal do livro, para quem ainda não leu).
Quanto à classicolatria, desfiz minha impressão. Classicólatras terminais preferem morrer a chamar de "porre" poema de autor famoso como faz o Bruno Tolentino com a "Ariana, a mulher" do Vinícius de Moraes na palestra da Ufrj.
*
De resto, pena que só fui ler com mais cuidado a poesia do Bruno Tolentino um ano antes de ele morrer. É um detalhe potencialmente embaraçoso: lembra aquelas criaturas que só lêem um autor depois de morto ou quase, de forma que é o coitado entrar na UTI que as vendas dos livros já aumentam. Mas, acreditem, juro que eu não sabia. O Bruno Tolentino, também; podia ter esperado mais um ano e me poupado de dar explicações.
Posted by Rodrigo de Lemos at julho 30, 2007 03:45 PM
Comments
Ótimo post, Rodrigo. O antepenúltimo parágrafo é bem eliotiano. :) (Concordo com ele, aliás.)
Abraços.
Posted by: Ruy at julho 30, 2007 07:55 PM
Vc tem esta palestra na íntegra Rodrigo? Poderia me mandar, please? :)
Posted by: evelyn at julho 30, 2007 11:53 PM
Poderia, Rodrigo?
=)
Posted by: Ronald at julho 31, 2007 08:34 AM
Poderia? Poderia? :)
Posted by: tiago a. at julho 31, 2007 08:36 AM
Do Bruno Tolentino li umas entrevistas com ele realizadas, e só. Não leio poesia, não posso dizer muito mais.
E eu moro em BH, veja só=]
Posted by: Edson Junior at julho 31, 2007 11:37 AM
Por sorte, a primeira coisa que li dele foi a balada. Gostei logo. Vi o livro na livraria e pensei que era o poema do Wilde, eu tava procurando uma tradução dele na época. Mas por hora só li a balada e outros poemas esparsos. Anyways. Pode mandar esse texto pra mim tb, Rodrigo? Abração,
Posted by: ludovico at julho 31, 2007 04:37 PM
Acho que todo mundo decidiu pedir a palestra. Se não for grande demais pra enviar ou folgar demais pedir, pode passar pra mim também?
Posted by: Gustavo at julho 31, 2007 07:58 PM
Não é um texto... São 100 MB de mp3. Cliquem no meu nome.
Posted by: Pedro Sette Câmara at julho 31, 2007 08:26 PM
Obrigado, Pedro. Estou baixando, espero que valha a pena.
Posted by: Gustavo at julho 31, 2007 11:14 PM
Tentei deixar um comentário aqui ontem e não consegui.
Fantástico o texto do café da tarde de pobre!
Abraço!
Posted by: Raul at agosto 1, 2007 09:05 AM
vale, gustavo, e muito.
olá a todos, e obrigado, pedro, por me poupar de fazer upload de 100 mb. e agora vocês repassem para 10 das suas listas de email, senão vão ter uma morte horrível.
obrigado, raul, sinta-se convidado para um.
Posted by: rodrigo de lemos at agosto 1, 2007 10:13 AM
Hi, parece que eu fui a culpada pela confusão.
Agradeço ao Pedro por ter me poupado de ser amaldiçoada pelo Rodrigo enquanto ele fizesse o upload de 100Mg.
e Rodrigo, eu juro que nunca mais faço pedidos em aberto :)
Posted by: evelyn at agosto 1, 2007 08:43 PM
First and foremost, agradecer a Pedro por disponibilizar o arquivo: Valeu, valeu.
A palestra é mesmo muito divertida e vem dividida em arquivos de 15 minutos para facilitar a vida do ouvinte. Ri alto várias vezes. A coisa só fica um pouco chata quando uma mulher na platéia começa a querer dar uma palestra também, de modo que http://colorina.wunderblogs.com/archives/023042.html
Posted by: tiago a. at agosto 8, 2007 07:59 AM