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julho 02, 2007
medéia, um recital inaudível e um grand seigneur desoeuvré
Como desde o meio da semana não havia mais lugar para o Balé Real da Dinamarca na sexta, me consolei vendo Medéia sábado no Teatro São Pedro. Um pouco depois de ter comprado o ingresso antecipado, descobri que estava no currículo do diretor uma Antígona com música eletrônica e um Hamlet Sincrético. Tomei a precaução de levar dinheiro o suficiente para encher a cara de vinho no foyer caso me entediasse, mas surpresa!: saí do teatro limpo, a trilha sonora não tinha sequer uma música dos Beatles e também não conheci as partes íntimas dos atores. A última vez que assisti a uma peça assim foi aos 5 anos, uma montagem dos Três Porquinhos no Teatro de Câmara. Pensando bem, nem aí: uma hora apareceu o cofrinho de um dos atores.
Já quanto à peça, saí do teatro mais disposto a admitir que gostei do que o normal. Claro, há coisinhas. Principalmente essa mania de achar que uma emoção parece tão mais real quanto mais sem dignidade ela é mostrada. O ator que fazia Jasão, por exemplo. Um grego de tragédia jamais sairia pelo palco gritando, correndo daquele jeito, se atirando no chão com a mão na barriga como se tivesse tomado muito Chá Jamaiquinha. Também, brasileiro é capaz de exagerar na pieguice até em arte conceitual, que dirá em Eurípides. Já Sandra Dani, a atriz que faz Medéia, estava excelente. Um rosto de Malvina Cruela que fecha muito bem com o papel, e ninguém erra o texto como ela. Enfim, todos os atributos de um diva - pelo menos foi esse o comentário de uns gays no camarote ao lado. No fim, os únicos senões da noite: o Jasão com problemas gástricos e os capeletes da sopa no foyer, que deviam estar mais durinhos.
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No domingo, recital barroco com Nicolau de Figueiredo na Sala de Concertos Leopoldina. Me pareceu excelente, se tivesse dado para ouvir. Apesar daquele luxo todo da Sala Leopoldina - os lustres de cristal, os trabalhos em estuco, tudo tão bonito; como não seria Porto Alegre uns setenta anos atrás? - a acústica é péssima. Aliás, é exatamente por causa daquele luxo todo que a acústica da sala é péssima. O som se dispersa no pé-direito triplo, se prende nas cortinas, suspeito que nos casacos de pele das senhoras da primeira fila também. Apesar disso, esse cravista, Nicolau de Figueiredo, justifica a fama. Tem uma interpretação muito própria de Bach e de Haendel e de Vivaldi, e que sempre achei a mais adequada: tocar Bach e Haendel e Vivaldi dançando. O sujeito faz caretas, mexe os ombros, levanta e dá uma reboladinha, o que acaba sendo a única maneira de saber se a música está boa num recital inaudível. Pela animação, estava vendo a hora em que entraria a Imperadores do Samba com uma versão samba-enredo da Paixão de São Mateus: "Desde os tempos mais primórdios..." E o melhor é que Nicolau de Figueiredo está certo, os Concertos de Brandemburgo são uma espécie de "Hot Stuff" da Donna Summer no repertório erudito. É realmente dançável. O problema é que cinco concertos barrocos formam uma seqüência enérgica demais para os meus ouvidos devagarzões, acostumados a Debussy; depois do segundo Haendel minha atenção se dirigiu em parte para um velhinho com uma pose triste de grand seigneur desoeuvré uma fila atrás e que se tornou a partir de então meu ideal de beleza na velhice.
Posted by Rodrigo de Lemos at julho 2, 2007 03:50 PM
Comments
Fico feliz pela peça. E fico feliz pelo velhinho e pela dança no recital. Que final de semana bom que você teve, Rodrigo. ;D
Posted by: Gustavo at julho 2, 2007 10:39 PM
Oi Rodrigo, autor lá é o George Steiner e o livrinho "No castelo do barba azul - algumas notas para redefinição de cultura". Ele cita o Eliot só umas três vezes, para reclamar que ele deveria ter falado mais sobre os horrores da guerra em 'notes'. É interessantezinho, se vc ignorar alguma partes em que pede pra ser esmurrado e se vc esquecer que o pior ensaio de Eliot é muito superior a qq coisa que o Steiner escreveu :)
Posted by: evelyn at julho 3, 2007 01:02 PM