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junho 08, 2007

adivinhe quem vem para jantar

Sempre acreditei na importância civilizitória de romances cheios de descrições poéticas. Sem eles, o que fariam artistas plásticos fracassados como Claude Simon? O sujeito tem um jeitinho com as palavras, mas não a ponto de criar uma boa história; tem um penchant por paisagens, mas é incapaz de reproduzir um por-do-sol numa aquarela. Qual é a última saída? Pintar, ao longo de 200 páginas, um por-do-sol com palavras.

Daí a tentativa eternamente frustrada de misturar romance e poesia. Frustrada porque o melhor lugar para encontrar poesia continua a ser onde sempre foi, no poema. Primeiro porque a poesia é como uma visita extravagante que pode ser divertida no começo, mas que depois da primeira hora vira só uma inconveniência. Existe um limite temporal para o quanto uma pessoa consegue ler poesia, que coincide com o tempo em que seria divertido alguém com roupas do século XVIII fazendo malabarismo com o próprio olho de vidro na sua sala de estar. A vantagem do poema sobre o romance é que, pela sua própria duração menor (quantas páginas têm os poemas mais longos hoje? 20? 30?), chega uma hora em que ele dá boa-noite e nos deixa descansar. Um romance poético é como perder uma tarde inteira com uma visita de Liberace.

E disso a própria poesia sai beneficiada. Se a visita dura pouco, cada calembour, cada metáfora de Liberace fica na memória. Já depois duma tarde inteira, tudo o que você lembra é uma bicha velha vestida à Luis XV sentada no living.

É uma massa assim amorfa de excentricidades que fica na minha memória depois que leio Kawabata - aliás, outro pintor frustrado, está aí o meu ponto. Claro que existe uma poesia delicada em romances como "Snow Country": a casa com a varanda tomada de mariposa, o personagem que passava os dias se deliciando com a agonia dos insetos queimados pelas lâmpadas. Mas o valor de pequenas jóias assim se perde no meio duma decoração barroca cheia de frontões misturados com colunas gregas e seres mitológicos e outras jóias menos perfeitas - o que é o caso de "Snow Country": um parágrafo de história contra três de descrições poéticas de paisagens. Cada página é um pequeno poema, o que, acreditem, não é um elogio.

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No dia 30 de agosto de 1828, o aspirante a pintor Pierre Jules Théophile Gautier era apresentado a Victor Hugo, o que o levaria a abandonar qualquer pretensão a artista plástico. Trinta anos depois, Theophile Gautier estava publicando poemas deste nível:

Affinités secrètes

Madrigal panthéiste

Dans le fronton d'un temple antique,
Deux blocs de marbre ont, trois mille ans,
Sur le fond bleu du ciel attique,
Juxtaposé leurs rêves blancs;

Dans la même nacre figées,
Larmes des flots pleurant Vénus,
Deux perles au gouffre plongées
Se sont dit des mots inconnus;

Au frais Généralife écloses,
Sous le jet d'eau toujours en pleurs,
Du temps de Boabdil, deux roses
Ensemble ont fait jaser leurs fleurs;

Sur les coupoles de Venise
Deux ramiers blancs aux pieds rosés,
Au nid où l'amour s'éternise,
Un soir de mai se sont posés.

Marbre, perle, rose, colombe,
Tout se dissout, tout se détruit;
La perle fond, le marbre tombe,
La fleur se fane et l'oiseau fuit.

En se quittant, chaque parcelle
S'en va dans le creuset profond
Grossir la pâte universelle
Faite des formes que Dieu fond.

Par de lentes métamorphoses,
Les marbres blancs en blanches chairs,
Les fleurs roses en lèvres roses
Se refont dans des corps divers.

Les ramiers de nouveau roucoulent
Au coeur de deux jeunes amants,
Et les perles en dents se moulent
Pour l'écrin des rires charmants.

De là naissent ces sympathies
Aux impérieuses douceurs,
Par qui les âmes averties
Partout se reconnaissent soeurs.

Docile à l'appel d'un arome
D'un rayon ou d'une couleur,
L'atome vole vers l'atome
Comme l'abeille vers la fleur.

L'on se souvient des rêveries
Sur le fronton ou dans la mer,
Des conversations fleuries
Près de la fontaine au flot clair,

Des baisers et des frissons d'ailes
Sur les dômes aux boules d'or,
Et les molécules fidèles
Se cherchent et s'aiment encor.

L'amour oublié se réveille,
Le passé vaguement renaît,
La fleur sur la bouche vermeille
Se respire et se reconnaît.

Dans la nacre où le rire brille,
La perle revoit sa blancheur
Sur une peau de jeune fille,
Le marbre ému sent sa fraîcheur.

Le ramier trouve une voix douce,
Écho de son gémissement,
Toute résistance s'émousse,
Et l'inconnu devient l'amant.

Vous devant qui je brûle et tremble,
Quel flot, quel fronton, quel rosier,
Quel dôme nous connut ensemble,
Perle ou marbre, fleur ou ramier?

Posted by Rodrigo de Lemos at junho 8, 2007 12:01 PM

Comments

Ao que parece, Nabokov também era um pintor frustrado, mas o caso dele não me parece ser o de um sujeito que tem um jeitinho com as palavras etc.

(E, minha gente, vejam o bem que feriados fazem ao Rodrigo.)

Posted by: tiago a. at junho 8, 2007 12:38 PM

quase cantei "holiday" agora. :-)

Posted by: rodrigo de lemos at junho 8, 2007 12:40 PM

Sempre achei poesia inferior à prosa, aí vêm uns trambiqueiros que querem me vender uma pela outra? Não compro.

Obrigado por me avisar desses livros travestis, Rodrigo, que se fantasiam de prosa pra parecer bons.

Posted by: Gustavo at junho 8, 2007 02:15 PM

Goethe foi aspirante à pintor, mas desenhava mal pra caramba. Aquelas silhuetas das cúpulas das basílicas até eu com meu pé faria melhor.


Posted by: evelyn at junho 9, 2007 11:22 AM

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