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junho 28, 2007

um vício em extinção

O narcisismo é o vício mais mal compreendido do nosso tempo, e talvez o que esteja em estágio mais acelerado de decadência. Sempre confundem o coitado com a vaidade, que é como a sua prima feia do interior. Não que ele se importe, claro. Mas é que as semelhanças entre os dois escondem uma diferença fundamental, uma diferença de tempo: ambos querem causar efeito ao redor, mas enquanto a vaidade, como toda moça campônia, se julga a partir do veredicto dos outros, o narcisista já ouviu o veredicto que importava: o dele mesmo. O que ele busca em volta é simplesmente o reconhecimento de como foi justa a sentença . A vaidade, quando elogiam a sua roupa nova, se empertiga toda e diz "É mesmo?"; o narcisismo, "Eu sei".

Daí existir um heroísmo tanto no narcisismo puro quanto na pura abnegação, e os dois serem tão raros.

Posted by Rodrigo de Lemos at 12:17 PM | Comments (4)

junho 24, 2007

a morte lhe cai bem

O que me preocupa não é saber se haverá vida para mim depois da morte, é saber que haverá vida para os outros depois da minha. Morrer em si já deve ser um saco - ficar lá parado numa sala cheia de gelo seco, fazendo sala para uns parentes mortos que a gente já tinha até esquecido. Aí vem um amigo e resolve fazer uma comunidade no Orkut: "Rodrigo de Lemos, 1 Estrela!", "Amizade além da vida!!!" e aquela foto da época em que tu resolveste imitar o penteado do guitarrista do Roxette. E o que ele escreveria na descrição? Comunidade para lembrar "momentos eternos de companheirismo", "um cara que era diversão garantida", "baladas, jantinhas e muitas polêmicas", quando na verdade a única coisa de que ele realmente lembra era de como eu debochava do vinho ruim que ele trazia para jantar na minha casa. Por isso a importância de selecionar bem a quem deixar os espólios da nossa intimidade. O segredo é escolher os inimigos pela inteligência, os conhecidos pela generosidade e os amigos por o que eles escreveriam em comunidades no Orkut depois que a gente morrer. Sempre sobra um idiota sortudo para viver mais tempo e lembrar por pura ingenuidade o nosso gosto musical em 1995.

Posted by Rodrigo de Lemos at 05:13 PM | Comments (10)

junho 20, 2007

anúncio

Cheguei à triste conclusão a esta altura da minha vida de que não sei escrever. Não, isso não é um espasmo de auto-piedade. Também não estou dizendo que não sei coordenar frases ou que não tenho idéias cretinas o suficiente para acabarem nuns textos razoáveis e tal. O que não consigo é ficar sistematicamente colocando uma letrinha depois da outra segundo alguma regra ortográfica. Já quase rodei num exame de grego por ter acertado todas as construções e errado a grafia de quase todas as palavras. No blog, então: em mais de dois anos, não fui capaz de escrever sequer um post sem erro de digitação (mentira, teve este aqui). Revirando os arquivos, só fui notar agora dois "explciar" em vez de "explicar". No post passado, escrevi ridiculamente "ho polloì" e não "hoì polloì", e isso que revisei várias vezes - tiveram que me avisar da gafe nos comentários. Ou seja, não apenas não sei escrever no sentido literal, como também não sei ler o que escrevi. Compra-se negra saudável-boa dentição-leite abundante com habilidades de revisão em grego, inglês, francês e português para serviços em casa de família.

Posted by Rodrigo de Lemos at 10:24 AM | Comments (2)

junho 18, 2007

des gens comme des vaudevilles, qu'on ne chante qu'un certain temps

Tudo o que é clássico tem um defeito fundamental, tomado pelos hoì polloì como maior qualidade: o defeito de durar para sempre. O que é clássico não tem o charme do que se foi, das coisas esquecidas. As versões de Anita O'Day ou de Frank Sinatra para músicas de Cole Porter têm todos os méritos artísticos que o meu ouvido ignorantão pode discernir, mas exatamente por serem sempre tão atuais elas também se adaptam a contextos meio vulgares, viram trilha de gente tomando uisquinho ou pegando avião em propaganda de cartão de crédito. Nenhum publicitário seria louco de fazer o mesmo com Paul Whiteman cantando "I'm in Love Again", com Jack Hylton em "They All Fall in Love". Amar quem ou o que já se viu no topo e depois decaído (Paul Whiteman, Jack Hylton, Al Bowly, Banjo Buddy, Leslie Hutchinson, o Rod Stewart não, que daí já é sacanagem) é um prazer mais triste mas muito mais privado - talvez por impulso indie, talvez porque naturezas nostálgicas só se satisfaçam assim. Além disso, existe uma beleza filosófica em amar uma moda que passou. Uma pintura que tenha o mesmo valor por anos é uma lembrança feliz de que a glória de um indivíduo pode sobreviver a ele. Descobrir num fundo de sebo um pacote com gravuras de um artista celebrado e logo depois esquecido nos traz uma lembrança mais melancólica mas não menos bonita, a dos indivíduos que sobrevivem à própria glória.

Posted by Rodrigo de Lemos at 06:07 PM | Comments (5)

junho 14, 2007

a hundred years from today

Não consigo ver prazer nenhum nestes autores contemporâneos que ficam falando de gente que podia ser o meu gerente de banco, o meu vizinho. Eu evitando conversa de elevador com o paizão do 204 e depois me trancando no quarto para ler 200 páginas do Philp Roth sobre o que o paizão do 204 pensa, sobre o que ele sente. Se romances são só uma maneira mais fantasiosa e mais egocêntrica de escolher companhia, prefiro a Eugenia Young em "The Europeans".

Claro, vão lembrar que "The Europeans", assim como quase todos os romances do Henry James, é também sobre o que pensava e sentia gente que você poderia encontrar no elevador. Primeiro: tenho o preconceito, fundamentado pelas Memórias de Madame de Récamier, de que o papo de elevador no século XIX era um pouco melhor, pelo menos nuns círculos um pouco mais numerosos. Segundo: mesmo que não fosse, o que era corriqueiro a 100 anos atrás já é exótico, causa o prazer da estranheza. O que quer dizer que talvez um dia eu leia algo bem cotidiano escrito na nossa época, daqui a uns 100 anos.

Posted by Rodrigo de Lemos at 12:36 PM | Comments (10)

junho 12, 2007

um dístico de hipônax de éfeso

Um homem só é feliz com a mulher duas vezes:
Conduzindo-a pro altar e levando-a pro túmulo.

Posted by Rodrigo de Lemos at 05:57 PM | Comments (5)

junho 08, 2007

adivinhe quem vem para jantar

Sempre acreditei na importância civilizitória de romances cheios de descrições poéticas. Sem eles, o que fariam artistas plásticos fracassados como Claude Simon? O sujeito tem um jeitinho com as palavras, mas não a ponto de criar uma boa história; tem um penchant por paisagens, mas é incapaz de reproduzir um por-do-sol numa aquarela. Qual é a última saída? Pintar, ao longo de 200 páginas, um por-do-sol com palavras.

Daí a tentativa eternamente frustrada de misturar romance e poesia. Frustrada porque o melhor lugar para encontrar poesia continua a ser onde sempre foi, no poema. Primeiro porque a poesia é como uma visita extravagante que pode ser divertida no começo, mas que depois da primeira hora vira só uma inconveniência. Existe um limite temporal para o quanto uma pessoa consegue ler poesia, que coincide com o tempo em que seria divertido alguém com roupas do século XVIII fazendo malabarismo com o próprio olho de vidro na sua sala de estar. A vantagem do poema sobre o romance é que, pela sua própria duração menor (quantas páginas têm os poemas mais longos hoje? 20? 30?), chega uma hora em que ele dá boa-noite e nos deixa descansar. Um romance poético é como perder uma tarde inteira com uma visita de Liberace.

E disso a própria poesia sai beneficiada. Se a visita dura pouco, cada calembour, cada metáfora de Liberace fica na memória. Já depois duma tarde inteira, tudo o que você lembra é uma bicha velha vestida à Luis XV sentada no living.

É uma massa assim amorfa de excentricidades que fica na minha memória depois que leio Kawabata - aliás, outro pintor frustrado, está aí o meu ponto. Claro que existe uma poesia delicada em romances como "Snow Country": a casa com a varanda tomada de mariposa, o personagem que passava os dias se deliciando com a agonia dos insetos queimados pelas lâmpadas. Mas o valor de pequenas jóias assim se perde no meio duma decoração barroca cheia de frontões misturados com colunas gregas e seres mitológicos e outras jóias menos perfeitas - o que é o caso de "Snow Country": um parágrafo de história contra três de descrições poéticas de paisagens. Cada página é um pequeno poema, o que, acreditem, não é um elogio.

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No dia 30 de agosto de 1828, o aspirante a pintor Pierre Jules Théophile Gautier era apresentado a Victor Hugo, o que o levaria a abandonar qualquer pretensão a artista plástico. Trinta anos depois, Theophile Gautier estava publicando poemas deste nível:

Affinités secrètes

Madrigal panthéiste

Dans le fronton d'un temple antique,
Deux blocs de marbre ont, trois mille ans,
Sur le fond bleu du ciel attique,
Juxtaposé leurs rêves blancs;

Dans la même nacre figées,
Larmes des flots pleurant Vénus,
Deux perles au gouffre plongées
Se sont dit des mots inconnus;

Au frais Généralife écloses,
Sous le jet d'eau toujours en pleurs,
Du temps de Boabdil, deux roses
Ensemble ont fait jaser leurs fleurs;

Sur les coupoles de Venise
Deux ramiers blancs aux pieds rosés,
Au nid où l'amour s'éternise,
Un soir de mai se sont posés.

Marbre, perle, rose, colombe,
Tout se dissout, tout se détruit;
La perle fond, le marbre tombe,
La fleur se fane et l'oiseau fuit.

En se quittant, chaque parcelle
S'en va dans le creuset profond
Grossir la pâte universelle
Faite des formes que Dieu fond.

Par de lentes métamorphoses,
Les marbres blancs en blanches chairs,
Les fleurs roses en lèvres roses
Se refont dans des corps divers.

Les ramiers de nouveau roucoulent
Au coeur de deux jeunes amants,
Et les perles en dents se moulent
Pour l'écrin des rires charmants.

De là naissent ces sympathies
Aux impérieuses douceurs,
Par qui les âmes averties
Partout se reconnaissent soeurs.

Docile à l'appel d'un arome
D'un rayon ou d'une couleur,
L'atome vole vers l'atome
Comme l'abeille vers la fleur.

L'on se souvient des rêveries
Sur le fronton ou dans la mer,
Des conversations fleuries
Près de la fontaine au flot clair,

Des baisers et des frissons d'ailes
Sur les dômes aux boules d'or,
Et les molécules fidèles
Se cherchent et s'aiment encor.

L'amour oublié se réveille,
Le passé vaguement renaît,
La fleur sur la bouche vermeille
Se respire et se reconnaît.

Dans la nacre où le rire brille,
La perle revoit sa blancheur
Sur une peau de jeune fille,
Le marbre ému sent sa fraîcheur.

Le ramier trouve une voix douce,
Écho de son gémissement,
Toute résistance s'émousse,
Et l'inconnu devient l'amant.

Vous devant qui je brûle et tremble,
Quel flot, quel fronton, quel rosier,
Quel dôme nous connut ensemble,
Perle ou marbre, fleur ou ramier?

Posted by Rodrigo de Lemos at 12:01 PM | Comments (4)

junho 04, 2007

pequeno-burguês mas limpinho

Muita gente volta da Europa intrigada pela contradição aparente entre a beleza dos prédios e a falta de higiene dos europeus. É que a sujeira de lá vai no sentido contrário à da América Latina. Para entender o fênomeno, é preciso imaginar um continuum que começa na rua e acaba na axila dos habitantes. Se o cheiro for piorando à medida que se aproxima do sovaco dos cidadãos, estamos na Europa; se piorar na direção da rua, é a América Latina. Aquelas índias bolivianas que levantam o saião e fazem tudo na calçada, assépticas como uma broca de dentista.

windsor.bmp

No mais, a mistura de beleza com porquice foi o apanágio das raças dominantes na Europa. Vejam na Inglaterra; quanto piores os dentes, melhor a família - o que explica o contraste entre os ternos do Duque de Windsor, talvez o homem mais elegante desde Beau Brummel, e aqueles dentes assustadores. Higiene por higiene é uma invenção da classe média, também conhecida como "sou pequeno-burguês mas sou limpinho".

Posted by Rodrigo de Lemos at 04:31 PM | Comments (10)