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maio 17, 2007

paint it black

Percebo que uma pessoa não entende nada de cores quando ela diz que preto combina com tudo. Preto só combina com preto. Com o resto, preto só não incomoda - o que é diferente de combinar, o sentido de harmonia que existe na palavra.

Mas mesmo quanto a não incomodar preto nem sempre é eficiente. Vi esses tempos um homem com cara de representante comercial, de camisa rosa-bebê e calça preta. Do outro lado da rua, vinha outro de camisa verde água e calça também preta. Representantes comerciais et allii têm mania de apelar ao preto para evitar erros, e é aí que eu tenho medo. A parte de cima clara e a parte de baixo escura, fiquei imaginando que relação poderia haver. Parecia uma colagem com metades de duas pessoas diferentes. Um problema que poderia ser tão facilmente resolvido com uma calça também clara - cáqui, cinza, bege cru -, em contraponto sapatos marrom-pinhão, e os dois homens com cara de representantes comerciais continuariam com cara de representantes comerciais, mas pelo menos fazendo algum esporte elegante, golfe ou hipismo - o que é um dos truques para se vestir bem em dias quentes, mas isso fica para outro post.

Na verdade o preto é como algumas secretárias e profissionais do sexo, que só ficam bem como os terceiros da relação. Um visual todo em azul escuro e verde musgo é um horror à minha imaginação, coisa de figurante em clipe de Sympathy For the Devil com a Claudia Ohana. Já com o preto como base, azul escuro e verde musgo se respondem à merveille, o equilíbrio certo entre cor e austeridade. O mesmo para a mistura entre bordeau e cinza (sem preto, coisa de modelo da Bergamaschi) marinho e vermelho (se faziam enxovais de bebê só com essas duas cores nos anos setenta, imaginem).

Mas a verdade é que este post é movido por meu ressentimento contra a idéia de que o preto é o coringa para quem não sabe se vestir. Uma idéia duplamente bárbara: ofereceu uma desculpa para quem não sabe se vestir continuar sem aprender; serviu de tábua de salvação para os desprovidos de gosto não caírem no ridículo, o que tira boa parte da graça do mundo: rir de tentativas frustradas de elegância. Além disso, sou admirador de pastéis e tons bebês, uma espécie de Monsieur de Pompadour favorito de corte nenhuma, que gostaria de ver - sobretudo no verão - mulheres de vestidos de algodão com echarpes floreadas e homens de camisas claras para dentro de calças em bege ou cinza, casuais e gatsbiescas. Nada de preto, tão monótono e as pessoas se vestindo mal sem saber.

Vejam Maria Antonieta, por exemplo. Claro que a grande importância do filme não é histórica, mas estilística (o que desagradou certos intelectuais com sensibilidade de lata, mas enfim). E não pelos motivos que agradam fashionistas, mas por uma lição mais durável: mostrar o que é se vestir bem em tons bebê, à Louis XVI - a cena da rainha numa tarde quente no Petit Trianon de camisola creme, em volta as paredes azul claro e os músicos de branco tocando uma canção saltitante, e um leque vai e volta lentamente no ar morno do quarto, a própria imagem da nonchalance. Carregando no preto ou em qualquer outra cor escura, a composição se estragaria. Se fashionistas imitassem aqueles tons, aquela leveza, poderiam dispensar as perucas de dois andares que aparecem nos editoriais de moda desde que Sofia Coppola lançou o filme.

De resto, o preto é como o silêncio na máxima de La Rochefoucauld: o partido mais seguro de quem não tem nada a dizer.

Posted by Rodrigo de Lemos at maio 17, 2007 01:22 PM

Comments

Vou sair hoje, Rodrigo. Me dá uma consultoria? Quero usar uma camisa rosa claro sem manga de botões. Que calça usar?

Posted by: Gustavo at maio 18, 2007 12:13 PM

É, eu estou com o Gustavo. O Rodrigo bem podia começar uma série de posts explicando como um homem deve se vestir nos dias de hoje se não quiser ser um artefato ambulante do mau gosto.

Posted by: ludovico at maio 18, 2007 05:32 PM

gustavo: marrom ou bege ou cinza (depende do corte). tudo menos preto, surtout pas.

ludovico: aguarde que O Verbo virá. ;-)

Posted by: cristina franco at maio 18, 2007 08:50 PM

Só hoje tô vendo a resposta. Fui de cinza; acertei. \o/

Posted by: Gustavo at maio 19, 2007 08:27 AM

mas a melhor peça do guarda-roupa da rainha é o allstar q aparece na cena em que ela escolhe seus sapatos fru-fru. e não, não dá pra jogar golfe de allstar.

Posted by: k. at maio 21, 2007 07:36 AM

allstar? não vi nenhum.

mulheres são bloody observadoras.

Posted by: rodrigo de lemos at maio 21, 2007 02:18 PM

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