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maio 14, 2007
vós que ledes esta postagem
Essa mania que têm de usar "vós" em traduções de textos clássicos. Escuta, vos e umeis não são "vós" em português de 2007. "Vocês", "cês", "ceis aí, mano", se for em Plauto ou no Satyricon. Mas é isto: tradutores de línguas clássicas querem ser tão fiéis à forma das palavras que acabam deformando os textos. Se São Paulo tivesse dito "vós que ouvis a palavra" (umeis akousantes ton logon) na frente de um monte de efésios raivosos e iletrados, o cristianismo jamais teria deixado de ser uma superstição obscura de algum ponto da Galiléia.
Professores tratam latim e grego com um respeito que é mais um respeito fúnebre, muito apropriado quando por parentes já falecidos, mas nem tanto quando por línguas mortas. Lembro de um ex-amigo helenista, especialmente depressivo e sem graça - o único traço de espírito detectado naquele cérebro cheio de desinências do optativo foi ter chamado o Presidente Geisel de Presidente Gástrico -, reclamando das traduções de Aristófanes pelo Millôr Fernandes: onde tinha um subjuntivo devia ter um futuro; no lugar de duas orações, uma só. Não sei o quanto Millôr Fernandes sabe de grego clássico, talvez menos do que meu ex-amigo. Mas fato é que se fosse ele traduzindo A greve do sexo provavelmente a greve nem sairia, com as mulheres não conseguindo se entender com aquele monte de "vós" e formas verbais tão feias. Teria a graça dum David Letterman Show apresentado por Napoleão Mendes de Almeida.
Já me perguntaram que problema eu via em ressuscitar formas arcaicas. Tentem contar uma piada só usando Vossa Mercê.
Posted by Rodrigo de Lemos at maio 14, 2007 04:32 PM
Comments
Gosto bastante das traduções do Millôr. Parece que estão sempre no tom certo, não ficam falando o tempo todo "oi, eu sou uma tradução" ou "oi, eu sou um texto antigo".
E vou tentar ler Rabelais. Tem algum livro dele em não-francês online? Inglês ou português, talvez. Grato.
Posted by: Gustavo at maio 14, 2007 09:43 PM
Vós lestes a tradução de Satyricon pelo Leminski? O que achou? Segundo ele, a "tradução procurou, sobretudo, preservar os valores orais e populares da linguagem de Petrônio", sempre "maquilada nas traduções para as línguas modernas". Não deixa de ser engraçado aqueles romanos falando "grana", "cara" e quejandos.
Posted by: Bródi Negão at maio 14, 2007 10:18 PM
Por esses dias tentei ler o canto IV da Eneida na tradução de Odorico Mendes. Eu confesso que me senti burro como nunca. Fui perdendo confiança a cada inversão incompreensível. E, no entanto, tinha bons momentos.
Posted by: ludovico at maio 15, 2007 09:09 PM
Ludovico, essa tradução do Odorico Mendes é uma das melhores que há. O sentido por vezes é turvo, mas sempre leve.
Posted by: Ronald at maio 16, 2007 09:59 PM
gustavo, não sei de nada. quizá, procura rabelais no projeto guttemberg.
bródi: não li ainda, mas a idéia tem minha simpatia. pensar que seminaristas traduziram o satyricon dói no meu coração.
ludovico e ronald, cuidado. tenho amigos que começaram no odorico mendes e terminaram no "galáxias". de qualquer jeito, se for para se sentir burro, melhor aprender latim e tentar o original.
abraços
Posted by: rodrigo de lemos at maio 17, 2007 01:26 PM