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maio 03, 2007

lobo de houaiss

A minha única façanha intelectual de que tenho algum orgulho (isso supondo que houve outras) foi ter explicado com clareza a uma platéia de psicanalistas o que é foraclusão em Lacan. Até hoje as pessoas que estiveram naquele seminário quando me encontram dizem que nunca tinham ouvido uma explicação tão clara. A maioria delas são psicanalistas lacanianos, óbvio, que cobram tão bem quanto não entendem o que é foraclusão em Lacan, mas além de um motivo para me vangloriar, aquela palestra me deu a oportunidade de vislumbrar um Princípio Geral da Mente Humana: se um conceito tem quatro sílabas ou mais, não serve para quase nada. Vejam "Biopsicossocial", "Intertextualidade". Agora, se você consegue quebrar aquele conceito de quatro sílabas em um monte de conceitinhos de sílabas menores como proteínas em aminoácidos, o organismo humano os assimila facilmente, e pode mesmo cuspir de volta os que não consegue (ou seja, nos que achar algum defeito - é exatamente para mascarar os aminoácidos defeituosos que servem os de mais de quatro sílabas).

Mas a regra das palavras curtas não é só uma preocupação com clareza. O problema é a hipertrofia que conceitos com mais de quatro sílabas exercem no Lobo de Houaiss, a região do cérebro responsável pela função pedante da nossa mente. Palavras com duas sílabas passam em geral despercebidas por ele: quase sempre designam objetos prosaicos, e até pessoas que chegaram ao quinto ano do Ensino Fundamental as usam com desenvoltura ("pois é", "vixe!", "ai,ai", "sério?"). Pelos mesmos motivos, o Lobo de Houaiss também dificilmente detecta as de três sílabas: "cadeira", "janela", "ônibus" (apesar da origem latina, um dos inputs mais efetivos para a função pedante). Já a exposição regular a palavras de quatro sílabas ("análise", "histórico") permite um crescimento substancial da região. Os efeitos do tratamento intensivo com palavras de cinco ou mais ("dialética", "verbivocovisual") podem ser catastróficos, com o avanço do Lobo de Houaiss sobre os outros lobos e a exigência por parte do afetado de que o romance contemporâneo (5 sílabas) tenha obrigatoriamente jogos de metalinguagem (idem).

E agora, efeitos anatômicos chocantes do Princípio no cérebro de um falante de alemão:

brain bom.JPG

Posted by Rodrigo de Lemos at maio 3, 2007 12:30 PM

Comments

Hahahahaha. Extremamente (5 sílabas) elucidativo (6 incríveis sílabas) o seu texto.

Posted by: Gustavo at maio 3, 2007 04:23 PM

'Palavras com duas sílabas passam em geral desapercebidas por ele'? Ah, sim, entendo. Você quis dizer 'despercebido'. Ohne 'a', bitte.

Posted by: rapaz apercebido at maio 3, 2007 04:56 PM

pronto, tirei o "a". ah, mas que gente.=)

hello, gustavo.

Posted by: rodrigo de lemos at maio 3, 2007 10:04 PM

Os alemães desenvolveriam um Lobo de Houaiss enorme mesmo que só tivessem palavras de duas sílabas, porque eles usam o símbolo β como se ele fosse uma letra muito normal que faz parte do alfabeto. :)

Posted by: frost at maio 4, 2007 02:02 AM

posta a explicação de foraclusão aí, vai.

Posted by: curioso at maio 4, 2007 12:15 PM

frost: imagina então os gregos.

curioso: larguei essas drogas pesadas.

Posted by: rodrigo de lemos at maio 4, 2007 12:44 PM

Isso também vale para palavras inventadas?
E a licença poética, como fica?
Beijuca
Adorei o blog.

Posted by: VAN at maio 6, 2007 03:49 PM

E como ficam neologismos joyceanos na cabeça de um paulista que só sabe falar 'mano'?

Posted by: Ronald at maio 6, 2007 04:01 PM

Por isso economistas brasileiros são tão incompetentes. Se eles tivessem nascido na Alemanha jamais conseguiriam seguir uma profissão chamada Wirtschaftswissenschaft. :)

Küsses(um exemplar de 2 sílabas)

Posted by: evelyn at maio 7, 2007 11:50 PM

Poxa, eu também estava esperando a explicação sobre a foraclusão. Well...

Mas, se não for curiosidade demais, porque você aprendeu isso? Já pensou em ser psicanalista?

Posted by: Lucas Mafaldo at maio 13, 2007 07:55 PM

lucas: todo homem deve ter um segredo sujo.

Posted by: rodrigo de lemos at maio 14, 2007 04:45 PM

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