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maio 08, 2007
le pitre chatié
O Tiago A., nosso novo Apostos, dedicou com muito amor no coração um post a mim, que nas artes não vejo graça nenhuma em metalinguagem. Não é só não ver graça; é um certo desprezinho mesmo. Metalinguagem é hoje o que na tragédia a Regra das Três Unidades foi para os pedantes do século XVII. Está tudo lá: a incapacidade de gostar duma obra irresponsavelmente, sem teorias; a crença em algum tipo de evolução nas artes - na época de Racine, Aristóteles que ia polir os últimos traços de medievalismo e civilizar o teatro; hoje, o romance que, só porque uns sujeitos autistas decidiram passar as suas vidas inúteis escrevendo que estão escrevendo, tem de se preocupar mais em ser meta-something do que propriamente bom, sob pena de levar a (falsa) acusação de naïf. Dois aspectos do mesmo filistinismo: o sujeito é totalmente insensivel às artes e precisa de algum critério que não a própria insensibilidade inexistente para julgar um livro, uma peça.
Isso da parte dos críticos e dos leitores. Do lado dos artistas, a asneira vem de uma preocupação maior com a Arte assim, em letras maiúsculas, do que com as próprias obras. Pensar muito em Arte, escrever páginas e páginas sobre Arte, mas fazer bem pouquinho, que cansa. Enfim, o Artista como Filósofo. Só que o lugar do Artista na corte é mais o de Bobo mesmo. E Bobos, quando querem fingir não serem Bobos, só conseguem más pantomimas. O artista metalingüístico é isso. Um Bobo flácido e incompetente faisant le Philosophe, lendo tratados de meta-cambalhota, meta-equilíbrio-de-bola-no-nariz, enquanto os convidados do banquete bocejam e vão embora.
O consolo do Bobo Grave é que tem sempre outros bobos que ficam.
Posted by Rodrigo de Lemos at maio 8, 2007 05:27 PM
Comments
É por isso que, mesmo achando palavrão uma coisinha muito da feia, só consigo chamar metalinguagem de merdalinguagem.
Posted by: Rolf Lima at maio 8, 2007 06:57 PM
Um, não sabia que o Tiago tinha ido pros apostos (pro apostos?); dois, metalinguagem é geralmente chato na medida da chatice do autor metalingüístico (o que não seria necessário dizer, mas eu quis dizer mesmo assim, pra reforçar a idéia).
Posted by: Gustavo at maio 8, 2007 08:59 PM
Eu tendo a concordar, mas aí lembro do Ficciones e, damn. Mas, também é só (e, tá bom, nem tão metalingüístico assim).
Posted by: mauro at maio 9, 2007 10:43 AM
À dolorosa luz das Três Unidades, tenho febre e escrevo. Se o artifício metalinguístico funciona no sentido de potencializar o efeito dramático - como em Reparação, de Ian McEwan -, ou, mais ou menos no mesmo sentido, se é parte essencial de um projeto muito bem pensado e levado a cabo do modo mais fabuloso possível - como nas Ficções, de Jorge Luis Borges -, o artifício então se justifica e é até muito bem-vindo. O caso é que essas duas situações citadas são extremamente raras e o que se vê é um monte de livros chatos sobre escritores que estão dentro dos livros chatos escrevendo invariavelmente outros livros chatos. Nesses casos, a coisa toda metalinguística é só uma brincadeirinha, um charminho meio falso. Outras vezes, é só um esforço imaturo para soar "cool". Mas, claro, coisa boa pode sair daí, nas mãos de um bom escritor. Além dos exemplos citados, basta ler Se um viajante numa noite de inverno, do Ítalo Calvino.
Posted by: ludovico at maio 9, 2007 03:17 PM
À dolorosa luz das Três Unidades, tenho febre e escrevo. Se o artifício metalinguístico funciona no sentido de potencializar o efeito dramático - como em Reparação, de Ian McEwan -, ou, mais ou menos no mesmo sentido, se é parte essencial de um projeto muito bem pensado e levado a cabo do modo mais fabuloso possível - como nas Ficções, de Jorge Luis Borges -, o artifício então se justifica e é até muito bem-vindo. O caso é que essas duas situações citadas são extremamente raras e o que se vê é um monte de livros chatos sobre escritores que estão dentro dos livros chatos escrevendo invariavelmente outros livros chatos. Nesses casos, a coisa toda metalinguística é só uma brincadeirinha, um charminho meio falso. Outras vezes, é só um esforço imaturo para soar "cool". Mas, claro, coisa boa pode sair daí, nas mãos de um bom escritor. Além dos exemplos citados, basta ler Se um viajante numa noite de inverno, do Ítalo Calvino.
Posted by: ludovico at maio 9, 2007 03:18 PM
O demônio é forte, porque aí está ele de novo; e o Rodrigo fazendo metal'gem.
Posted by: }:o exorcista }:o at maio 10, 2007 06:09 AM
calma, santos cavaleiros da metalinguagem. não sei se gosto ou desgosto da metalinguagem em si - qualquer coisa que me faça rir fora piada de fanho me agrada. lembro de ter gostado muito do "triunfo da morte" e nunca ter gostado de borges, e a metalinguagem não teve muito a ver com nenhum dos casos. desprezivelzinho é ver a pobrezinha virar critério de qualidade. a metalinguagem é o máximo! a metalinguagem vai salvar a literaura!
enfim, vocês entenderam.
Posted by: rodrigo de lemos at maio 14, 2007 04:40 PM