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abril 23, 2007

la france profonde

Quando o Brasil melhora um povo em alguma coisa, melhora justamente aquilo que nem seria tão bom melhorar. A música popular francesa. Provavelmente a música mais engraçadamente kitsch do mundo. Aquele exagero todo, aquela pieguice. Fico vendo esses cantores dos anos 90/2000 (a lindíssima Coralie Clément, a não menos linda Keren-Ann, que não só pelo nome lembra Anna Karina), todo mundo cool, todo mundo bossa nova, cantando joãogilberticamente. Me vem uma nostalgia de Dalida, de Mireille Mathieu. Onde foram parar aqueles xilofones, aqueles tecladinhos chinfrins? E os erres roulés à Edith Piaf? Mais où sont les neiges d'antan? Nenhum homem ameaçando se matar em metáforas sub-baudelairianas, nenhuma mulher maquiada em excesso jurando vingança, atrás uma orquestra em black-tie com exatos 25 trambones, quatro percursionistas, 68 violinos, e ainda um maestro de suíça e smoking negativo. Algo me deixa inexplicavelmente triste quando um tipo de música que lembrava casal adúltero em capa de disco seventies passa a trilha sonora de vernissage minimalista em novela da Globo.

Nostalgia, claro. Música francesa na minha infância era música de concurso de transformista no programa do Sílvio Santos. "Parole Parole" e o verso imortal "Caramels, bonbons et chocolat" - quantas bocas masculinas atoladas de batom Boca Loca não tremeram dramaticamente durante os anos 80 para dublar Dalida com brio e ganhar a simpatia de Aracy de Almeida? E quantos afro-travecos não dublaram "La Vie en Rose" vestidos de Grace Jones? Minha bisavó se reunia sábado à tarde com as amigas da igreja só para ver qual dos bichonas - era assim que elas chamavam os transformistas, tudo bem GLBT - era "o mais bonito". Mas isso foi antes da invasão da coolness brasileira nas rádios deles. Certamente minha bisavó e as amigas receitariam hoje a um Henri Salvador, a um Benjamin Biolay o biotônico que receitavam para João Gilberto deixar de cantar para dentro.

(Só agora me dei conta de que a minha teoria tem um furo. Ouvindo com atenção, "Parole Parole" já era um sambinha.)

Posted by Rodrigo de Lemos at abril 23, 2007 06:26 PM

Comments

O post está excelente, Rodrigo -embora, acho eu, a tese tenha mais um furo. :) O Henri Salvador já era "cool" desse jeito há algumas décadas. Afinal, o cara está com 90 anos, e "Dans Mon Île" deve ser da década de 50.

Por falar em "Parole, Parole", você já ouviu a versão brasileira, com Maysa e... Raul Cortez? Não? Ah, você não faz idéia de a que alturas pode chegar o kitsch feito no Brasil. Se quiser, mando por e-mail. :) Abraços.

Posted by: Ruy at abril 23, 2007 11:26 PM

Ei ia comentar o post, mas depois de ler o comentário do Ruy só me resta pedir a música por e-mail também.

Abraço.

Posted by: Gustavo at abril 24, 2007 06:43 AM

Ruy, o povo exige: Maysa e Raul Cortez por email djá!

:-)

Posted by: rodrigo de lemos at abril 24, 2007 10:36 AM

Podeixá, pessoal. Assim que eu estiver em casa e com acesso aos meus MP3, mando a vocês. Espero que não deixem de falar comigo depois disso. :)

Posted by: Ruy at abril 24, 2007 06:37 PM

Mas qual foi mesmo a mocinha brasileira, bossanovista, que fez aquela versão demodé de Ne Me Quitte Pas?

Posted by: Ronald at abril 26, 2007 10:44 AM

"Parole Parole", um sambinha? Pensando bem...

Posted by: Ed at abril 26, 2007 05:23 PM

ronald: maysa, sempre a maysa.

ed, não vá fazer bobagem com isso.

Posted by: rodrigo de lemos at abril 27, 2007 02:58 PM

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