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abril 11, 2007
da minha relação estritamente profissional com a vida
(Há exatos dois anos, eu levantava num fim de manhã chuvosa levemente entediado, com vontade de fazer alguma coisa de que eu me arrependesse depois. Entre pôr pátina azul bebê no meu armário e tatuar no antebraço "O caminho conduz à Paz Celestial" em japonês - na verdade, "Caiu uma garrafa de saquê no meu dedão do pé" porque certamente faltaria um pontinho num dos caracteres -, resolvi começar um blog. Como todas as coisas feitas para você se arrepender depois, era fácil e barato; só entrar num site, inventar um título esperto e pronto, não tinha como errar. Só que não deu certo; até agora não tenho do que lamentar e posso mesmo me considerar com algum embaraço um blogueiro feliz. O único porém foi ter deixado essa coisa de escrever em prosa crescer desordenadamente desde então. Logo eu, que passava tardes deitado rimando "angu" com "mauvais goût", "vixe!" com "haxixe", comecei a passar tardes sentado em frente ao computador, no trabalho bruto e um tanto rebaixante de escrever textos com parágrafo. Poder escrever deitado, essa é a grande superioridade da poesia frente à prosa.
Portanto, como um trabalhador que fica em casa no primeiro de maio, eu no aniversário do meu blog resolvi não trabalhar e ficar rimando francês com árabe. Durante os próximos dias vou repostar alguns dos textos que, se não chegam a ser bons, ao menos me deram prazer ao escrever. São em geral posts do primeiro ano do Chá das Cinco, ainda no blogspot, entes queridos que pouca gente conheceu e que trago de volta do Jardim da Paz dos Arquivos numa sessão mediúnica. Mas claro que nem durante as férias a formiga vira de todo cigarra. Prometo que os textos vão ser em boa parte reescritos. E agora pode parar de fazer beiço e me dá um abracinho.)
Cheers!
Eu gosto da Vida. Acho que é uma moça prendada, tem boa dentição, e todo dia a gente se cumprimenta, quando eu levanto e ela vem limpar meu quarto. Mas a Vida tem um problema: às vezes ela cresce demais. Em longitude, em latitude, e minha mãe tem de manter as garrafinhas de Biotônico Fontoura sempre lacradas para que a empregada não tome tudo escondido e fique ainda maior. Avisaram na carta de recomendação, mas minha mãe não deu bola quando assinou o contrato.
E quanto maior a Vida fica, mais ares de patroa ela assume. Escolhe horários para tudo. Ler com ela em casa, por exemplo: impossível. É começar uma página, que a Vida bate na porta do meu quarto; quer passar cera no chão, diz que vai limpar os vidros. Escrever, então. Eu ainda na primeira frase, e ela vem tirar pó do teclado. Resolve passar álcool no monitor. E começa a me contar histórias de irmãos assaltantes e vizinhos lobisomens enquanto concebo metáforas geniais relacionando uma receita de omelete com a dissolução do império carolíngeo.
É por isso que recuso polidamente quando me desejam uma Vida "cheia de amor". Questão de maquiavelismo: é o temor, não o amor, que garante a fidelidade - principalmente nas criadas. Além disso, é bom manter com a Vida uma relação estritamente profissional; "amor pela Vida" dá muita confiança, faz ela se sentir da família. A Vida é uma empregadinha atrevida e meio incompetente, a quem a gente deve mostrar o seu devido lugar quando ela começa a escutar rádio Caiçara muito alto. E não, não é por esnobismo, não. É que, de outro jeito, ela não nos deixa escrever.
(29/07/2005)
Posted by Rodrigo de Lemos at abril 11, 2007 12:39 PM
Comments
O povo (a elite, na verdade) exige mais Macaca Olga.
Posted by: Pedro Sette Câmara at abril 11, 2007 12:59 PM
ela vem para o aniversário. :-)
Posted by: rodrigo de lemos at abril 11, 2007 01:20 PM
Cheers, caríssimo! Longa vida à "wit and wisdom" do Chá das Cinco. Abraço goiabal.
(Erguendo minha flûte imaginária de Taittinger em vez da habitual caneca de Sidra Cereser.)
Posted by: Ruy at abril 11, 2007 01:39 PM
É pique, é pique, épiquepiquepique! É hora, é hora, éhoréhoréhora! Ra-Tchim- BUM!
(Muita festinha de criança faz isso com a gente, sorry. Mas que o blog tenha vida longa e próspera!) (E isso já é efeito de muita jornada nas estrelas, sorry de novo)).
Posted by: mauro at abril 11, 2007 04:16 PM
Parabéns! E espero a publicação em breve do primeiro livro de poemas de Rodrigo de Lemos. Rimar vixe com haxixe é para poucos :).
Um abraço,
Marcos
Posted by: Marcos Matamoros at abril 11, 2007 07:23 PM
Parabéns, Rodrigo. Esse texto chega a ser bom, e até passa. É bom pros seus leitores mais novos (há apenas um ano leio seu blog) conhecerem um pouco do seu começo.
E, bem, pareci meio piegas, fui meio piegas, mas é que datas comemorativas me emocionam.
Cheers!
P.s.: Sempre achei a prosa infinitamente superior à poesia - e também consigo escrever prosa deitado.
Posted by: Gustavo at abril 11, 2007 09:37 PM
[atrasado, entra disfarçando]
Ho, ho, parabéns e tal e coisa.
Posted by: Luciano at abril 13, 2007 12:36 AM
grazie, grazie a vocês. passei meio afastado da internet os últimos dias, mas recebi vossos votos com muita satisfação. volto em breve.
abraços
Posted by: rodrigo de lemos at abril 15, 2007 08:03 PM