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março 22, 2007

the gay twenties

Sempre fui vagamente interessado pelos roaring twenties no Brasil. Não porque devessem ter algo de original frente aos roaring twenties nos Estados Unidos ou na França ou na Inglaterra, mas por pura nostalgia do não-vivido e por uma certa curiosidade pelas baixarias da minha bisavó. Mesmo assim, além duns capítulos em novela das seis que assisti sem som e dum livrinho sobre os cabarés da época em Porto Alegre (parece que o Clube dos Caçadores era um dos maiores do país e o consumo de cocaína já era enorme na classe alta, vejam que pelo menos nisso a cidade não mudou), não encontrei muita coisa. Lembro de ter lido sobre um romance considerado "art déco" (como assim?) falando de três amigas ricas: uma meio lésbica, uma viciada em morfina e uma santinha-quero-casar. Não anotei título ou nome do autor e acabei perdendo a referência, mas devia ser um lixo. Só que eu não dispensaria esse lixo: dos anos 20 no Brasil só se fala em modernismo, e como os romances modernistas não eram exatamente documentais, um livro desses serviria de estepe pra quem não tem um Fitzgerald, uma Colette.

Até que um amigo me mandou esta crônica do Vinícius de Moraes. Tem a graça que se espera dum texto "de época": gírias ("do balacobaco", "carraspana", "chapa" para disco de vinil), grifes (cigarros Abdoula, perfumes de Caron). Faltou Vinícius de Moraes dar a receita do coquetel rose, o que vinha com uma pétala de rosa dentro do copo.

"A ALEGRE DÉCADA DE 20

"Suponhamos, leitor, que você acorde um dia quatro décadas atrás, no período entre 1920 e 1930 que sucedeu à Primeira Grande Guerra e onde a disponibilidade e falta de critério eram gerais: os “Gay Twenties”, como ficou conhecida nos Estados Unidos a era do jazz, tão fabulosamente vivida e narrada pelo romancista Scott Fitzgerald.

"Suponhamos que você tivesse uma amiga, ou melhor, uma “amiguinha” rica e quisesse fazer um programa com ela. Iria encontra-la em casa metida num peignoir de cetim ciré, sandálias de pompom, piteira em riste a queimar um Abdoula, envolta em ondas de Mistoukou ou Tabac Blond, do perfumista Caron. Ela estaria, naturalmente, num divã coberto de almofadas, e na testa da jovem “melindrosa”, você notaria um “pega-rapaz”, ou antes, uma “belezinha”, feita com uns poucos fios de cabelo.

"Você ficaria, leitor amigo, como é natural, entre surpreso e encantado, sobretudo quando notasse que, ao sorrir, a sua diva mordia a pontinha da língua num tique faceiro. E mais encantado ainda quando, ao pedir um uísque, visse a empregada voltar com um coquetel rose, delicada beberagem à tona da qual estaria boiando, qual leve batel, uma pétala de rosa...

"Depois de tomar uns oitenta desses, você ouviria a sua amiguinha adverti-lo contra os perigos de uma “carraspana”. Mas qual! Estando habituado ao uísque falsificado da maioria das nossas boates e bares, você nem estaria sentindo o anunciado “pifão”. Pelo contrário. Animadíssimo, colocaria uma “chapa” no gramofone e tiraria sua amiguinha para dançar um ragtime. Em seguida, mirando ao espelho a sua elegância – calça estreita de flanela, paletó azul-marinho cintado, camisa listrada, gravata borboleta, sapato camouflage e chapéu de palhinha – você, com uma graciosa pirueta de satisfação, convidaria sua amiguinha para uma saída:

- Vamos ao chá dançante do Palace Hotel?

"E ela, com um muxoxo:

- Não, hoje eu preferia muito ir ver o Bataclan. Dizem que é “supimpa”.

"Dado a coisas mais finas que o vaudeville ou teatro de revista, você ainda tentaria convencer o seu “pedaço de mau caminho” a ir, em vez, à festa do Fluminense ouvir os Corsarinos e sua jazz band: um negócio do “balacobaco”. Mas a menina não estava nada para coisas muito formais.

"Em vista do quê, você, leitor, estirando-se numa otomana, à luz do abajur cor bleu (como bem caracterizava o fox-trot “Hindustão”) você pegaria com um gesto displicente os poemas de Hermes Fontes, ou La Garçonne de Victor Margueritte – e perdido entre bibelôs, esperaria que sua amiguinha se arrumasse “com uma rapidez de Fregoli”, conforme anunciara, referindo-se ao famoso transformista.

"Mas essa arrumação tomaria tempo. Primeiro, desfazer papelotes e desbastar a gaforinha – coisa que levava usualmente uma meia hora. Depois, enfiar as meias fumées, os sapatos mordorés, o chapéu canotier e passar no pescoço o renard argenté (uma magra raposinha a morder o próprio rabo). Só então a sua linda vigarista, depois de um último retoque ao espelho da entrada, iria à vida com você para diverti-lo um pouco à custa de uns magros “caraminguás”.

"De volta ao tempo presente, leitor, você acharia que não era má a idéia de uma saída para ir ao 36 ver o Caymmi, ou ao Sacha’s para gozar do refrigerado. Aí você passaria a mão no telefone, discaria um número, e quando a voz feminina lhe respondesse do outro lado você diria assim:

- Como é vigarista? Mete aí um bom pano em cima de ti e vamos enfrentar um escurinho musicado. Não, nada de botar banca pra cima de mim. Eu te manjo. É isso mesmo. Vamos lá tirar a ficha da moçada. A gaita anda curta para o scotch mas dá pra molhar a garganta com uma “loura”. Menina, hoje estou enxugando o fino! O couvert já está conversado. Você sabe que o papai mora no assunto. Taca peito.*

* O autor se julga no dever de advertir, com relação à gíria empregada no último parágrafo, que esta crônica data de 1953."

Posted by Rodrigo de Lemos at março 22, 2007 12:26 PM

Comments

Muito divertido, mas Vinícius acha que eu estaria com um chapéu de palhinha na cabeça, dentro de casa, na presença duma amiga?

Posted by: Alexandre S. at março 26, 2007 08:36 PM

Antônio de Alcântara Machado é modernista e bastante documental. O livrinho dele pela Martin Claret custa pouco e acha-se fácil. Aqui também, e mais, para quem agüenta ler no monitor: http://www.biblio.com.br/conteudo/alcantaramachado/molduraobras.htm

Só não sei se é o tipo de coisa que tens em mente, já que modernista brasileiro gosta é de pobre e classe média. Funcionário público, costureira, soldado, barbeiro, jogador de futebol etc. O mais perto a que se chega é:

"Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar:

Dizem que Cristo nasceu em Belém...

Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais.

Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feias e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos."

http://www.biblio.com.br/conteudo/alcantaramachado/brasbexigabarrafunda.htm#asociedade

É pegar ou largar.

Posted by: Guilherme at março 28, 2007 06:52 PM

salão de maxixe = baile funk anos 20.

Posted by: rodrigo de lemos at março 29, 2007 02:27 PM

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