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março 05, 2007
razão e sensibilidade
Tanta gente tomando por intelectuais pessoas que não têm mais do que sensibilidade à beleza. Nada mais enganoso: intelectuais leram sobre idéias claras e distintas em Descartes e acabam partindo delas para admirar um romance, uma pintura. Pegam da arte o que é resumível. E, como aquilo que faz dum livro um romance ou duma tela uma pintura não pode ser resumido - como um vestido, um perfume não podem ser - intelectuais acabam perdendo o fundamental. Uma perua que identifica o número dum Chanel sem olhar o frasco está mais perto dum esteta do que um intelectual. Talvez por isso estetas freqüentemente se liguem a meios sociais frívolos, Proust sendo o caso mais evidente.
Talvez também por isso intelectuais gostem tanto de Francis Bacon. Todos os quadros de Francis Bacon se resumem a um fundo cinza com uma pessoa na frente com a cara - cinza - toda deformada. Uma pobreza estética impressionante, como uma idéia clara e distinta. Mas isso diz muito: não é a crueldade que intelectuais admiram em Francis Bacon. É a crueldade sem contradição, sem sutileza, quase um teorema de corpos deformados que Francis Bacon joga na cara do espectador- a clarificação de uma idéia, e não o contraste entre várias, como tende a ser o meu gosto e espero que de mais alguns.
Difícil, como exemplo dessa arte que harmoniza em si idéias muito diferentes, um quadro mais perfeito do que a Salomé de Klimt. Perfeito e cruel. A Salomé de Gustave Moreau, tão admirada por Des Esseintes, não tem o mesmo impacto que a de Klimt, certamente porque ele, ao contrário de Moreau, fez o personagem do tamanho da tela, o que permitiu mostrar as feições de Salomé em vez do palácio e dos personagens secundários (Herodes e o patriarca por exemplo).
Klimt, como quase sempre, acertou em se concentrar na fisionomia de Salomé e não no ambiente. O crime de Salomé, já bárbaro o suficiente, ganha um je ne sais quoi de ainda mais perverso pela fisionomia de prazer no rosto da princesa, também nas tetas e na expressão convulsa das mãos, e o luxo estranho do vestido. São essas duas nuances, luxo e prazer, na nossa moralidade tão difíceis de se harmonizarem com a noção de crueldade, que criam a beleza estranha desse quadro: afinal, qual a relação entre a luxúria de Salomé e a cabeça de São João nas mãos dela? O prazer é pela dança - porque em troca da cabeça de São João ela dançou para Herodes, lembrem - ou pela decapitação? E o ouro e as pedrarias? Mais difícil ainda de precisar por que objetos luxuosos e crueldade física nos causam uma impressão tão perturbadora. Mas certamente Klimt não foi o primeiro a explorar essa relação; Baudelaire partiu dela num dos melhores poemas que escreveu, "Une Martyre". Não é por nada que a Salomé de Klimt ilustra a capa da minha edição de Les Fleurs du Mal.
Também não é por nada que um quadro de Bacon ilustra aquelas edições em pocket de Augusto dos Anjos, poeta que, pelo simplismo da escatologia, vai muito bem com Bacon. Se fossem pintar ou escrever sobre os mesmos temas de Klimt e Baudelaire, Augusto dos Anjos teria omitido a descrição dos móveis e dos perfumes no quarto em "Une Martyre" e transformado a mulher morta do poema numa carniça já carcomida em algum ponto de Pernambuco; Bacon teria passado por cima da inutilidade de retratar Salomé e pintado direto só a cabeça de São João. A cabeça cinza com uma parede cinza no fundo, como em todos os quadros dele. Mas a bandeja embaixo já seria uma grande variação.
Posted by Rodrigo de Lemos at março 5, 2007 11:46 AM
Comments
Hahahaha, descrição perfeita: "Augusto dos Anjos teria omitido a descrição dos móveis e dos perfumes no quarto em "Une Martyre" e transformado a mulher morta do poema numa carniça já carcomida em algum ponto de Pernambuco".
Posted by: Gustavo at março 5, 2007 12:43 PM
uau, rodrigo.
só uma coisa. quando vc disse que "o crime de Salomé, já bárbaro o suficiente, ganha um je ne sais quoi de ainda mais perverso pela fisionomia de prazer no rosto da princesa", eu me perguntei:
- um je ne sais quoi DE QUOI?
sumiram com a palavra que deveria estar entre o "de" e o "ainda", isso deve ter sido obra de algum concretino.
abs.
Posted by: tiago a. at março 5, 2007 08:58 PM
se bem que, relendo, acho q falei bobagem.
Posted by: tiago a. at março 5, 2007 08:59 PM
mas a frase está truncada mesmo. só não mudo porque, ah, preguiça.
Posted by: rodrigo de lemos at março 7, 2007 10:30 AM