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março 09, 2007

só para lembrar

Existe um furor conservador tão bobo quanto furor libertário. Nem toda liberdade é auto-indulgência, nem toda restrição é fortaleza moral. Bom que a restrição tenha algum sentido: pode ser prova de constância inquebrantável andar na Rua da Praia pulando num saco de batata, e ainda assim seria justa a pergunta: "Mas por que mesmo?".

Esse furor, pelo menos nas melhores inteligências, vem do medo de uma certa decadência moral. Um medo justo, principalmente numa época em que humanistas sustentam aborto com o argumento de que mulheres têm direito ao próprio corpo podendo eliminar um feto como se fosse um cisto no útero.

Mas nessas horas sempre bom lembrar que decadência moral é sempre decadência de uma moral. A nossa: o imperativo kantiano: "Age de tal modo que a máxima da tua ação se possa tornar principio de uma legislação universal" que vai desembocar no conselho de velhota: "A tua liberdade termina onde começa a do outro". E, apesar do kitsch das duas fórmulas, a idéia é simpática. Os indivíduos são livres para agir, mas responsabilizados pelo que fazem. Não vejo o que possa haver de auto-indulgência aí.

Então, toda lei que interfira na liberdade dos indivíduos de fazerem o que bem quiserem consigo é negação dessa moral; toda lei que alivie a responsabilidade pelas ações ou permita que essas ações prejudiquem um terceiro é decadência dessa moral. Agora, todos juntos: legalização de drogas, casamento gay, laqueadura, vasectomia: massa!; Estado pagando tratamento de viciados, adoção gay, aborto, pintura naïf: feio! Simples assim.

A vantagem desse raciocínio: uma ação, se não imoral em absoluto, pode ser moralmente pouco nobre e mesmo assim estar dentro da lei. Uma experiência sexual complexa, cheia de sentimentos bonitinhos e envolvimento com o ser amado, certamente exige uma grandeza espiritual de que mil one night stands não chegam nem perto. Mesmo assim, nada mais inaceitável - e desagradável - numa noitada com duas prostitutas suecas do que ser interrompido por um pároco da Liga da Moral escondido no armário, lembrando com sotaque italiano que sexo heterodoxo "é pecato".

Nossa moral garante igualdade na lei para todo comportamento não-prejudicial a outros indivíduos. Já quais são os mais ou os menos elevados é problema da sociedade. Decadência só começa quando se quer dar igualdade a eles mesmo nesse nível.

(Por problemas técnicos, nós do Apostos estamos por um tempo sem caixa de comentários. Para mandar um beijo ou me xingar, meu email está logo ali no blogroll, embaixo da foto. )

Posted by Rodrigo de Lemos at março 9, 2007 01:59 PM